13 Razões para falarmos sobre o seriado que está mexendo com todo mundo

Lançada no final do mês de março, a série do Netflix “13 Reasons Why”, é um dos assuntos mais falados do momento nas redes sociais. Trazendo à tona assuntos delicados e relevantes, como depressão, bullying, assédio e suicídio, a produção tem despertado a atenção de milhares de pessoas no mundo inteiro.

Baseada no livro homônimo de Jay Asher, best seller desde 2007 em New York, a série conta os motivos que levaram uma garota a se matar. Não  pense que é preciso ser adolescente para sentir um soco no estômago ao assistir o desenrolar da história. Você pode ser jovem, adulto, pai ou mãe, tio ou vizinha. Independentemente da sua idade, o certo é que você em algum momento vai perceber que faz parte disso tudo de alguma maneira.

Se você é mulher, maiores as chances ainda deste roteiro mexer com a sua cabeça. O que me intrigou e me motivou a fazer uma maratona, assistindo 12 episódios de uma vez só, em plena noite de sábado (fiquei acordada até às 3h40, deixei o último episódio para a manhã seguinte) é que,  além de abordar temas que nos fazem refletir e ter interesse em compreender melhor, é também muito bem dirigida e produzida.

Costumamos dizer que os problemas começam na vida adulta, um ingênuo engano, penso eu. Na verdade, eles podem ter um ponto de partida precoce e que se agrava com o passar do tempo.

Para resumir bem as reflexões que a série provocou em mim e pode provocar em você, listei aqui treze razões que merecem nossa atenção e merecem ser discutidas dentro e fora das escolas:

 

  1. A graça que surge da falta de bom senso

Nem tudo que tem graça para um, realmente é engraçado. Principalmente quando o motivo da piada é a deficiência de alguém, uma característica física ou pessoal. Alguns dizem “Que besteira”, “Ninguém se ofende com este tipo de brincadeira”, “Todo mundo sabe que é zoeira”. Fácil falar, principalmente, quando não se é o alvo da brincadeira.  Geralmente, os jovens que são o alvo da piada não sabem como expressar o que sentem e reagem de maneiras inesperadas. Não dar bola? Ignorar? Nunca funcionou. A brincadeiras só param se houver uma intervenção.   

  1. Não menosprezar a situação do outro

O que para um pode não significar nada, para o outro, que vive uma situação completamente diferente, pode significar muito. Portanto, não menospreze a dor do outro, ou o problema do outro. E se é quem se sente ofendido, não menospreze a própria dor.

  1. Você pode não ter percebido, mas isso acontece diariamente

Pode ser que não aconteça com você mas, certamente, já aconteceu com alguém próximo e você pode não ter se dado por conta. Dizer que isto não acontece pode ser mais uma questão de estar disposto a olhar além do umbigo. Isto acontece diariamente, desde a idade pré-escolar até o mercado de trabalho. A diferença é o que impacto deste tipo de situação na vida de uma criança ou adolescente pode ser avassalador.   

 

  1. Interesse pelo Outro

Na adolescência se expressar é um desafio. Tanto que muitos jovens se expressam com atos de rebeldia, brigam ou se isolam, pois expressar em palavras o que sentem pode parecer um jogo cifrado. Há muita confusão de sentimentos, falta de parâmetros e de estrutura emocional muitas vezes. As pessoas não amadurecem na mesma velocidade e não vivem nas mesmas condições. Se você sente que algo te perturba: converse. Se você percebe que seu amigo está diferente: converse. Se você é pai ou mãe: converse. Se é professor: converse.

Conversar e externalizar os sentimentos a alguém de confiança é com certeza o primeiro passo.

  1. Dor sem Limites

Quando vivemos um momento difícil na adolescência, o sentimento é que aquele é o pior momento da vida. Sentimos aquilo como se fosse irreversível e terrível. Na grande maioria das vezes, não é. Hoje em dia, quando lembro de algo que me incomodou na adolescência, eu penso: que bom que superei aquilo! Nem de perto, algo que ocorreu naquela época poderia tirar o brilho das minhas vitórias logo em seguida. Sem falar nas viradas da vida. A vida vale muito a pena.  

Não era essa a compreensão que eu tinha naquela época de extremos. Nestes momentos, apenas a orientação pode ajudar. Seja dos pais, de um profissional ou de uma amiga (o) de confiança. O importante é não se isolar ou reprimir o sofrimento. O isolamento é o caminho mais curto para a depressão.

  1. Depressão não tem Idade

Falando disso, “depressão não era o mal da vida adulta”? Não é não, sabe por quê? Porque crianças e adolescentes também sofrem de depressão. Mais difícil de diagnosticar pois a criança tem grande dificuldade para expressar e nomear as próprias emoções.

Eu tenho um exemplo muito prático para ilustrar. O meu. Com 10 anos, na quarta série, eu não queria ir para a escola, de maneira alguma. Eu chorava tanto que minha mãe se sentia culpada por me levar à escola. Até que ela percebeu que aquilo não era birra, era algo mais e ela precisava investigar aquilo. Era insuportável pra mim ir à escola. A escola era um lugar hostil. Podia até não ser tão ruim, mas eu sentia como se fosse. Na verdade, era realmente hostil e tinham crianças que hoje em dia eu posso dizer que eram más.

Não pense que na sua escola isso não acontece. Pode ser do mais alto padrão, aliás, nestas escolas, as vezes é até pior. Eu estudei em diversas escolas diferentes, passei por instituições públicas e privadas. O que diferenciava mais uma em relação à outra, não era a mensalidade, eram os profissionais, a estrutura profissional que dispunham e o quão dispostos estavam a amparar os alunos e realmente educar quem desrespeita o ambiente escolar.

O meu problema teve solução naquela época, com apoio profissional, dos meus pais e da escola. Era, sem dúvidas, o princípio de uma depressão.

Talvez, se eu não tivesse tido este apoio, o meu desinteresse pela escola poderia ter persistido e comprometido meu desenvolvimento. Portanto, lide com a crise, ela pode surgir em qualquer faixa etária e não há porque sentir vergonha de admitir isso. É preciso estar disposta (o) a lidar com a própria realidade.  

  1. Empatia – É difícil se colocar no lugar do outro

Falamos muito nas redes sociais sobre empatia. Na prática, poucos avanços. O que é diferente da realidade para um, facilmente se torna estranho. Na adolescência, você ser considerado o “estranho” da turma é motivo para chacota e isolamento. Muitas vezes nem motivo precisa, basta rolar um boato, uma fofoca. Precisamos de mais ações afirmativas na hora de falar de empatia e menos teoria. Comece a aplicar hoje, neste momento, o quanto antes possível.

  1. O que é consentimento, afinal?

Entramos na zona de desconforto masculina. Sim, eu diria que é masculina, pois quem tem problema para entender que é preciso ter consentimento para acontecer uma relação sexual são os homens. Não tem roupa ou atitude que insinuem o querer. Para consentir é preciso dizer e de forma explicita: “sim, eu quero”. Isso é consentimento. Ponto final. A série toca neste assunto de maneira bem direta, sem rodeios e é doloroso. Mostra como muitas vezes os “rapazes mais populares”, os “queridinhos” da escola acreditam ter permissão. Como se por serem “bons” em algo, podem desrespeitar, transgredir e abusar. O caso José Mayer está ai para exemplificar também.   

  1. Slutshaming

Do inglês, slut, gíria para se referir a mulher “promíscua”, e shaming, de shame, verbo de envergonhar, causar vergonha, é uma forma de estigma social aplicada a pessoas, especialmente mulheres e meninas. O seriado retrata essa triste situação nas escolas, e mostra como a personagem de Hannah se sente ofendida e invadida com as “brincadeiras” dos colegas. Ao redor, poucos percebem quão avassalador é aquilo para ela.

Este tipo de comportamento é ainda um resquício de uma sociedade culturalmente machista, que estabelece padrões de conduta e comportamento para uma mulher. No período do colégio, eu recordo de inúmeras vezes que meninas foram alvo de apelidos e brincadeiras maldosas, seja por conta do seu corpo, por terem beijado alguém ou por algum boato. Não deixe isso passar ou consentirá com o crescimento de monstros.

  1. A potencialização de tudo na Internet

Tudo isso que foi descrito acima se dissemina rapidamente em uma era de pessoas altamente conectadas. Com a propagação veloz de mensagens e imagens depreciativas, intimidades são expostas, estigmas são criados e fragilizam a vida de jovens e adultos.

As práticas de cyberbullying não se restringem a uma faixa etária, e cada vez mais precisamos estar conscientes do impacto destas ações online na vida do outro.  

  1. O papel da Escola

A escola precisa intervir. A responsabilidade de fornecer uma base emocional e educar é da família. No entanto, é responsabilidade da escola se problemas se desenvolvem no ambiente escolar. E muitos deles começam e se desenvolvem lá. É essencial que as Instituições de Ensino tenham uma postura diante do que acontece em suas salas de aula.

Ser conivente com os xingamentos e prática de bullying dentro dos limites escolares é dar permissão para que este tipo de comportamento tenha continuidade e se estenda à vida adulta.

Além disso, muitas vezes professores tem um acompanhamento mais próximo da rotina dos alunos, afinal, os estudantes passam longas horas do seu dia por lá. Se relacionam, se comunicam. A escola tem um papel fundamental no processo de formação, que vai além da grade escolar.     

  1. O seriado é feito para você

Seja qual for a sua idade, o seriado é para você. Apesar da trama começar a partir do suicídio de uma jovem adolescente, um assunto delicado e difícil, o enredo vai muito além, e mostra como eventos diários e que diversas vezes tratamos como banais carregam uma forte carga emocional e impactam a todos. Adolescente, adulto, pais, avós, professores, diretores, psicólogos, independentemente da profissão. Homens e mulheres. Todos. Os dramas trazidos por 13 Reasons Why não se restringem a um grupo, cultura, etnia ou idade. Existem casos de pessoas que passam por situações semelhantes dos mais diversos grupos sociais diariamente.

  1. A obra já está ajudando pessoas

Assim como eu me inspirei a escrever sobre o assunto para ajudar a disseminar a discussão, outras pessoas se manifestaram e se identificaram. Com o lançamento da série, o assunto se tornou um dos mais comentados globalmente e mobilizou as mídias digitais com a hashtag #NãoSejaUmPorquê, com o objetivo de combater ações que levam à depressão.  De acordo com artigo publicado no portal do Huffington Post, o Centro de Valorização da Vida – organização sem fins lucrativos para a prevenção do suicídio no Brasil – recebeu por volta de 25 mensagens mencionando “13 Reasons Why”. Desde o dia 31 de março, data de lançamento da série no país, os pedidos de ajuda enviados para a instituição aumentaram mais de 100%.

 

Thata Saeter

Jornalista

Thata Saeter é jornalista, empreendedora e fundadora da Jornalistica Media Relations. É graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e MBA em Marketing e Comunicação pela ESPM. Estudou Estratégias de Marketing Digital na New York University (NYU) e também Consultoria de Imagem, na Fashion Institute of Technology (FIT) em New York. Escreve sobre Empreendedorismo feminino, Tecnologia e Economia.