Amor de Carnaval

Era Carnaval, finalmente. Madrugada de sexta pra sábado, um calor tremendo. Ela acordou suada, ouvindo lá fora um trovão. Levantou, abriu a janela pra refrescar, viu as primeiras gotas de chuva caindo na calçada quente, formando pequenas poças que desciam pelo meio-fio rumo ao mar. Pegou o celular e era mesmo Carnaval: a comadre havia mandado uma foto de seu afilhado vestido de Batman e o recado: “Amiga, passo em frente à sua casa às seis. Bora pro bloco, teu afilhado tá te chamando, bota essa cara na rua.

Ela riu. Quem ia pro bloco as seis da manhã? Só gente doida.

Como sua amiga, com o filho à tiracolo, ainda por cima. Doida. Pegou um copo de água, bebeu, lavou o rosto suado e deitou de novo. Tentou cochilar, mas o calor, os trovões e uns começos de sonho estranho a impediam. Olhou pro relógio: 5 e pouco da manhã. E afinal, era Carnaval.

Suspirou e foi pra cozinha passar um café. Enquanto a água esquentava, vestiu um short, uma regata. Não gostou e trocou por uma mais estampada. Do fundo de uma gaveta pescou uma flor pra botar no cabelo. Olhou no espelho e achou que precisava de um batom cor de maravilha pra acabar de acordar aquela cara amassada. Bebeu o café, beliscou um pãozinho. Trocou o chinelo por um tênis confortável, enfiou na pochete um dinheiro trocado e foi pra porta esperar a amiga. Na hora marcada, virou a esquina o Batman, de capa e tudo, correndo, gritando “Dinda! Dinda!” e pulando em seu pescoço pra um abraço apertado, naquela idade boa em que os meninos ainda não têm vergonha de abraçar suas madrinhas no meio da rua.

A chuva deu uma trégua, a amiga deu um abraço e lá foram os três subindo a rua de paralelepípedos. De um lado as casas com jeito de antigas, de outro o sol nascendo e começando a pintar tudo de rosa claro.

Ela tentou lembrar quando havia visto o sol nascer pela última vez e não conseguiu.

Havia sido há anos, isso ela sabia, mas quando? O afilhado já era nascido? Ela ainda era casada? Tanto tempo havia se passado. A amiga reclamava da idade que não ajudava a subir a ladeira enquanto olhava o filho que corria à frente e voltava, conversando com os outros foliões, brincando com um cachorro, dando bom dia à uma senhora que olhava a movimentação da janela.

Era Carnaval: uma moça vestida de colombina subia a rua de mãos dadas com um sheik árabe. Um grupo de palhaços dava o último retoque na pintura do nariz. Um rapaz usava uma fantasia de protesto, com cartazes contra o prefeito. Duas melindrosas riam e cochichavam com seus vestidos de franjas e as penas no cabelo. O Carnaval subia o morro que parecia não ter fim e ela dava graças a Deus por ter vindo de tênis, e não de chinelos. Na pracinha no alto da ladeira, os músicos em círculo se preparavam.

Não era um bloco grande: meia dúzia de metais e outros tantos na percussão.

 Uma moça bonita segurava o estandarte. Chegando mais perto, achou que podia ser um moço que na verdade se parecia muito com uma moça bonita. Não quis saber: era Carnaval, quem se importava com esses detalhes? O estandarte era colorido, a chuva tinha parado, os músicos afinavam o tom. Mais gente subia a ladeira, vinha das casas em volta. A amiga foi dar um abraço no trompetista, conhecido de outros carnavais. A banda levantou os instrumentos e ela sorriu ao reconhecer os primeiros acordes da música que amava ouvir na versão de Beth Carvalho:

Tristeza/Por favor vá embora/Minha alma que chora/Está vendo seu fim.

Ela bateu um pé no chão, depois outro, devagar. O afilhado dançava com a mãe. Ela levantou os braços ao mesmo tempo que a chuva voltava a cair do céu, em grossos pingos que pareciam uma benção sobre seus cabelos. Lembrou então de outra chuva no Carnaval, vestida de odalisca quando criança.

Do beijo com gosto de chiclete de tutti frutti que ganhou de um pirata lindo, na adolescência, sua paixão de colégio. Do dia de seu casamento, da roda de samba tão bonita no salão e do vestido branco que usava, do marido de terno branco e chapéu de malandro sorrindo. De sua mãe reclamando das notas baixas da Portela e resmungando que seriam campeões se Paulinho da Viola escrevesse um samba pra eles.

Lembrou do ano em que fugiu pra serra, a se esconder no meio do mato pra fugir do Carnaval depois do divórcio, e acabou achando um bloco pequeno na pracinha e sambou um pouco só pra não perder o hábito. Lembrou de se oferecer pra trabalhar no  feriado pra não precisar pensar muito em nada.

Lembrou de chorar sozinha em casa, com medo do futuro, sem saber o que ia fazer.

E lembrou da última vez que havia visto o sol nascer, e tinha sido ali mesmo em Santa Tereza, com a amiga então grávida, que dizia que tinha escolhido o nome do filho e queria que ela fosse madrinha, as duas com flores no cabelo e esperança no coração. Sorriu pro céu, deixando as gotas de chuva caírem livremente sobre o rosto. Sentia as batidas profundas do surdo ressoando dentro de seu peito, o repique movendo seus pés. Umas lágrimas desciam junto com a chuva, e ela nem sabia direito o por quê. Só sabia que era hora da tristeza ir-se embora, que já era demais aquele penar. Abraçou a amiga, deu a mão ao afilhado e sambou morro abaixo. Era Carnaval.

Gabi Bianco

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Paulistana que não fala orra meu, mãe de gatos, nerd, publicitária, porém limpinha. Gosta de passear, cozinhar, ler, escrever e descobrir séries de tv esquisitas.