"Na Índia, ando pelas ruas em busca de mulheres que precisam de ajuda"

Carla tem 26 anos e é formada em moda. É uma sonhadora, que não sabe o que significa a palavra limite. Sua infância não foi fácil. Veio de uma família simples do interior de São Paulo e na infância vivia com um pai que bebia e era muito violento. Uma menina cheia de planos que cresceu e superou as dificuldades da vida, sempre incentivada por sua mãe a seguir em frente e ser positiva diante da vida.

Assim ela cresceu e se tornou uma mulher destemida e pronta para gerar um impacto positivo no mundo por meio de suas ações. Quando conversei com ela e ela me disse que estava na Índia, ajudando mulheres com dores e sofrimentos  intensos, como as mulheres que são atacadas por ácidos por homens cruéis e aquelas que são deixadas na rua com seus filhos quando se tornam viúvas ou se separam, me deu um frio na barriga. Pensei numa mulher jovem que já havia sofrido na infância ter esta iniciativa e o quanto isso representava.

Empatia. Força. Propósito.

Ela chegou na Índia andando pelas ruas e perguntando se alguém conhecia alguma mulher que precisava de ajuda. O que ela tinha nas mãos?

Compaixão. Atitude.

Seu projeto, o PROJECT TRÊS, precisa de doação para seguir em frente. Vem aqui e ajude a transformar o mundo num lugar melhor: https://www.generosity.com/community-fundraising/project-tres-empowering-vulnerable-women-in-india

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Nesta entrevista a gente entende um pouco mais sobre quem é Carla Maria de Souza e tem a certeza de que sua trajetória nesta vida será poderosa. Se inspire assim como a gente a transformar o mundo à sua volta:

Qual sua formação e o que motivou sua iniciativa com o projeto?
Sou formada em Moda e trabalhei por 6 anos no mercado de moda no Brasil. Sempre trabalhei como estilista e quando me mudei, estava em SP trabalhando em uma grande empresa de moda, mas algo deixava de fazer sentido pra mim. O problema não era a empresa ou a marca, mas a indústria da moda como um todo na qual o maior foco é o lucro. Só pensar em lucrar já não fazia mais sentido pra mim. Buscava propósito de vida. Foi então que decidi me mudar para a Califórnia pra aprender inglês e resolvi trabalhar em uma função operacional. Queria estar num lugar sem visibilidade e glamour. Queria compreender em mim o que poderia ser.Eu queria sentir como era acordar cedo e sair para trabalhar em algo que você nunca havia sonhado em fazer e foi neste quase um ano e meio morando lá que cheguei à ideia do Project Três.


O que é o Project Três?
Eu ainda gostava da ideia de desenvolvimento de produto, mas gostaria de criar algo que não fosse somente um produto de moda visando lucro, mas que fosse um símbolo de um movimento maior, que seria o movimento de empoderamento feminino e preocupação com o meio ambiente. Então o projeto nasceu assim, com o objeto de ensinar mulheres que vivem em condições de dificuldades extremas a fazerem acessórios de moda com matéria-prima reciclada e levar à elas empoderamento financeiro e criativo. Mostra à elas que elas têm valor e podem muito.

Quem são essas mulheres e meninas?
As mulheres e meninas com quem eu trabalho são mulheres sofridas pela vida e injustiça que as rodeiam todos os dias, diante de uma cultura que não dá voz nem valor a elas.  Todas tiveram algum histórico de violência em diferentes perspectivas. A primeira mulher que eu encontrei para fazer parte do projeto se chama Farida, ela tem 4 filhos e mora em uma casa na selva, na Índia e tem que sustentar os filhos sozinha.

O segundo grupo com quem comecei a trabalhar é de um abrigo que chama Mahila Ashram, Mahila, significa mulher em hindi e Ashram significa abrigo, e elas estão nesse abrigo porque as mulheres divorciadas, viúvas ou mães solteiras não são aceitas pela sociedade, então a família as coloca para fora de casa e elas são acolhidas por este espaço.

Tem também as mulheres de uma ONG da qual faço parte que chama Make Love Not Scars, que cuida de mulheres sobreviventes a ataques por ácidos. É uma prática que acontece na Índia a todo momento. Cerca de 90% dos ataques são contra mulheres, em geral, por ela se negarem aos homens, seja por não casar, resistência a estupro, ou se querem estudar. Os homens compram ácidos e jogam nelas. E este ácido é vendido por um preço bem baixo na Índia. Nossa luta nesta ONG é para proibir a venda deste ácido.


O que você aprende com elas?
A lição mais importante é a empatia. Vejo que no mundo as pessoas não têm empatia. Todo mundo julga o sofrimento do próximo muito menor em relação ao seu próprio sofrimento. Eu vejo estas mulheres completamente desfiguradas, ouvirem a minha história de infância chorando. Todas as pessoas precisariam aprender a se conectar mais e se compadecer com o sofrimento do outro. Eu só cresço, só evoluo. A cada dia.

Qual a situação mais inusitada até aqui?
É como tudo vem se encaixando de uma forma mágica. Desde as pessoas que se ofereceram para trabalhar como voluntários, até a forma como eu encontro essas mulheres. As pessoas com os mesmos propósitos se conectam no mundo. Quando eu cheguei na Índia não conhecia ninguém. Hoje estou cercada por pessoas incríveis que sonham como eu em transformar o mundo num lugar melhor.
Eu diria que a coisa mais inusitada é quando você quer fazer o bem pra alguém, quando você tem isso como meta de vida, as coisas vão se encaixando, as pessoas dispostas a ajudar vão aparecendo. Isso é incrível e inspirador.

O que o projeto pretende?
Mudar o mundo, uma mulher de cada vez. Pretendemos conquistar mais igualdade a pessoas que não tinham nenhum acesso a uma possibilidade de vida melhor. Nossa intenção é causar um impacto sustentável, mudar a vida delas, porque influencia em outras vidas também. Queremos empoderá-las e que isso as sustente de alguma forma.


Quais são os planos agora?
Estamos em um momento de organização. Quis vir pra Índia fazer tudo sozinha, mostrar que é possível realizar um sonho mesmo sem dinheiro nem nada, basta querer fazer.  Vamos criar um sistema comercial para a venda dos colares que desenvolvemos de uma forma sustentável. Fazer toda a organização legal no Brasil e aqui na Índia, que será feito agora com o objetivo de impactar cada vez mais mulheres. Queremos ampliar as oportunidades para cada uma delas.


Este projeto te transformou? Como e por quê?
Este projeto me transforma todos os dias pelo fato de eu conhecer pessoas maravilhosas. Pelo fato de eu praticar todos os dias empatia, a tolerância, menos ódio, menos barreiras. Toda essa transformação foi muito importante. Vir para tão longe, sair da minha zona de conforto, me fez ver como a gente acredita precisar de tantas coisas, que na verdade a gente não precisa. Esta é minha maior transformação, praticar o desapego. Quanto mais eu consigo isso, mais feliz eu me sinto.

Viviane Duarte

Fundadora

Jornalista e Fundadora do Plano Feminino. Sua paixão está em criar estratégias que inspirem e gerem conexões com propósito por meio de conteúdos e projetos especiais que promovam a igualdade de gênero e o empoderamento feminino na publicidade e sobretudo, na sociedade.