Cultura do Estupro: nas telas e fora delas

Nos últimos dias as redes sociais estão voltadas para discutir novamente a forma como o debate sobre estupros é feito na mídia, dado que um grande e importante produtor cinematográfico, Harvey Weinstein, está sendo denunciado por uma série de atrizes por abusos sexuais, que ele cometeu quando contratava estas para seus filmes. Entre as vítimas que trouxeram a denúncia à tona está Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Lea Seydoux, entre outras. Weinstein é um abusador em série com poder social e financeiro, que está sendo invariavelmente defendido pela “brotheragem” de alguns homens, como Woody Allen – que afirmou estar preocupado com a “caça às bruxas”.

Queria saber quem de fato se preocupa com as vítimas?

 

Vejo mais empatia com um abusador que é só mais um num mundo de homens que estupram fora e dentro das telas, do que com as mulheres que são estupradas ou são constantemente alimentadas com a mensagem que ser estuprada é normal, ou não tão grave assim.

 

Existe um fetiche ENORME em cima de estupros alimentados pela mídia, tanto que na mesma semana que Weinstein está sendo denunciado. Jason Momoa ator da série Game of Thrones viu circulando uma entrevista que deu em 2011, onde afirma que:

“Mas, tanto quanto a ficção científica e a fantasia, adoro esse gênero porque há tantas coisas que você pode fazer, como arrancar a língua de alguém de sua garganta e fugir com ela e estuprar mulheres bonitas “.

Temos um ator da série usando tais palavras dando a entender que simular um estupro numa série é a realização de um desejo dele. Assustador! Contudo, consequência da forma como só as vítimas ou pessoas que correm risco de um estupro são empáticas a esse tema. Tanto que esses dias li um texto num site sobre o filme KIDS, que tem uma cena de estupro de uma menor de idade desacordada e outras diversas cenas de abusos/estupros de menores, como sendo uma narrativa “destruidora de tabus de sexo explícito”. Estamos falando de estupros! Estamos falando de um filme que diversas crianças foram expostas a nudez e cenas de estupros para delírio dos “amantes do cinema”. Muitos desses grupinhos de críticos que chegam associar estupros a uma explosão artística, como vemos nesse comentário sobre o filme A Pele Que Habito, ignorando todo o contexto violento no mundo, onde só no Brasil temos um estupro a cada 11 minutos:

 

 

Veja bem, não quero em nenhum momento censurar a possibilidade de se falar em estupros nas linguagens midiáticas, mas analisar que quando o estupro não é problematizado ao longo da produção, ele pode estar sendo usado mais como alegoria sádica do que como uma crítica social. Como já disse neste texto, se aplicarmos uma espécie de Teste de Bechdel, um teste que avalia a representação feminina em filmes, para cenas de estupros com algumas perguntas como:

  1. O estupro faz sentido na trama?
  2. O estupro poderia ser entendido sem que fosse necessário uma cena explícita de violência?
  3. O estupro é  problematizado ao longo da série/filme/novela?
  4. O estuprador sofre alguma consequência pelo seu ato?

Facilmente com as respostas ficaria evidente que determinadas cenas não fazem o menor sentido, apenas reafirmam o discurso violento da banalização do estupros e principalmente da violência contra mulheres, já que geralmente são cenas com mulheres que vêm à tona quase que como puro sadismo, sendo até muitas vezes desconectadas da narrativas, ou desnecessárias. Já chegamos ao ponto de um um diretor ter coragem de expor para o mundo uma cena real de estupro como parte de sua “arte”. Foi o que aconteceu em O Último Tango em Paris, segundo a atriz Maria Schneider a famosa cena da manteiga do filme foi seu estupro sendo filmado como constatou em entrevista anos depois:

“Eles me enganaram. Eu me senti humilhada e, para ser honesta, estuprada tanto por Marlon, quanto por Bertolucci. Essa cena não estava prevista. As lágrimas que se veem no filme são verdadeiras”.

O próprio diretor Bertolucci já assumiu em entrevista que apenas ele e Marlon Brando sabiam de tal cena:

“A idéia de como gravar esta cena aconteceu comigo e Marlon Brando enquanto estávamos tomando café da manhã sentados no carpete do apartamento parisiense e em determinado momento ele começou a passar manteiga em uma baguete, logo nos demos uma olhada de cúmplices. Decidimos não dizer nada para Maria para ter uma cena mais realística”.

 

 

A atriz vítima disso tudo,  teve sérios problemas psicológicos, dependência química e se negou ao longo da carreira a fazer qualquer cena de nudez, evidentemente comportamento pós-traumático. Entretanto, Maria Schneider foi só mais uma vítima de uma indústria midiática que carrega nas costas uma série de estupros e violências contra mulheres e menores de idade. Corey Feldman, de ‘Os Goonies’, detalhou em entrevista como ele, o ator Corey Haim e outras crianças foram abusadas e estupradas por profissionais do cinema. Profissionais que são defendidos por outros homens, Almodovar defendeu Bertoluci pela tal cena de estupro, acreditando que a acusação por ser antiga deveria não importar mais. Casey Affleck mesmo após denúncia de estupro em 2010, ganhou o oscar em 2017. Já Polanski também é um belo exemplo que mesmo depois de abusar e confessar que estuprou uma menina de 13 anos, sua vida nunca foi de fato afetada e nem sequer ele cumpriu a pena que lhe foi dada, e ainda hoje ele é venerado não só como artista, mas também pelas suas condutas, por homens que se negam a se posicionar nessas situações e acreditam que a vítima é o denunciado e não quem denuncia.

Ou seja, na cultura do estupro a violência está antes, nas telas e depois delas, colocando nossa integridade física e psicológica da vítima que está sujeita a violência do sadismo, fetiche, passação de pano, misoginia em cima do estupro de nossos corpos. Não estamos falando só de filmes, não estamos falando só de discursos, não estamos falando de fatos isolados, estamos falando da vida de mulheres sendo ceifadas numa cultura que estimula estupros.

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.