Da Guerra ao Nobel

A guerra é uma imagem masculina. Não há filmes sobre mulheres em guerras e, salvo Joana D’Arc e Maria Quitéria, não recordo de nenhuma com alcance internacional. Entretanto, elas tiveram e têm papéis essenciais nas batalhas e em qualquer posição, da linha de frente ao paraquedismo e postos de saúde, como enfermeiras, franco atiradoras, médicas, pilotos e cozinheiras. Quem traz essas informações e nos expõe uma realidade deste ambiente inicialmente masculino, é a escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch.

Nascida em 1948, na então União Soviética, Svetlana viveu em um país imenso que se dividiu em outros menores e viu vizinhos se transformarem em inimigos xenófobos quando tudo aconteceu. Testemunha viva da dissolução da maior nação do mundo, é sorte nossa que ela tenha se convertido em escritora, trazendo relatos de seus conterrâneos e contemporâneos, pessoas comuns que compartilham suas histórias de vida em paralelo com a história do mundo. Laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2015, a Companhia das Letras lançou no Brasil ano passado seus três maiores livros, os mais vendidos na FLIP 2016 (Festa Literária de Paraty) que contou ainda com a visita da autora.

A Guerra não tem rosto de mulher (1985), é seu primeiro livro e trata da garra, vontade e necessidade da força feminina nos fronts da Segunda Guerra Mundial na União Soviética. É, ao mesmo tempo, um soco no estômago, um escancaramento de nossas janelas a um mundo que achávamos que conhecíamos, nos mostrando um horizonte novo, que entendíamos a Guerra sob o viés ocidental e masculino.

É chocante, por não participarmos de uma forma de viver que privilegiava o coletivo em detrimento do individual e, portanto, a necessidade do combate, da defesa da pátria, então casa de todos. Havia um orgulho em participar, na vontade política e, é claro, na própria natureza dolorosa e selvagem de uma guerra.

Esses relatos são feitos por mulheres, que narram de maneira distinta de uma conversa masculina, já que investem em subjetividade, para o lado sensível do front, o cuidado nos hospitais de campanhas e nos acampamentos, a coragem absurda, camaradagem e parceria – sem omitir suas cruezas e crueldades.

Vozes de Tchernóbil (1997) e O fim do homem soviético (2013) são os outros dois e nos dão uma ideia vasta do que é e foi a vida do outro lado do planeta. Em Vozes, uma série de relatos sobre os sobreviventes ainda vivos, sobre os já mortos, testemunhas e vítimas do acidente nuclear de 1986, o tratamento do governo, o alcance da tragédia e como vivem. Hoje, é um espaço desértico, quase inabitado – surpreendentemente algumas pessoas ainda vivem na região contaminada e preferem ignorar ou não acreditar nas consequências.

O primeiro relato é de cortar o coração e há que ser forte: uma mulher conta como viveu a tragédia grávida ao lado do marido bombeiro, que foi apagar um incêndio na usina. Era esse o acidente no nuclear: um incêndio comum. A força das histórias de não celebridades, testemunhos de verdades, histórias em carne viva entram em consonância com as reflexões e interpretações de Svetlana, com seu olhar aguçado e escrita direta, sem floreios, mas com bastante sentimento. É como ver – ou talvez seja pouco e superficial dizer assim – um documentário profundo e subjetivo.

O último lançado, O fim do homem soviético, traz o desmantelamento da União Soviética em 1991, retornando uma vez mais às verdades individuais, a adaptação a uma nova realidade, a um novo sistema e economia, a um novo cotidiano e geografia. Svetlana entra na sala das pessoas ou em suas cozinhas e puxa uma cadeira. Ela inicia sua busca por sujeitos e nessas pesquisas, outros aparecem e se convidam, querem dar seu testemunho, querem que seu parecer esteja ali, tão importante e fundamental quanto o da amiga, o do vizinho. São registros vivos de uma História recente, que foi presente até pouco tempo atrás e cujos livros os contam priorizando datas, patentes e sobrenomes, sem o detalhe do olhar subjetivo, sem o brilho do sentimento, inclusive porque a História de seu(s) país(es) era sempre contada em prol do coletivo, jamais do individual, assim, as subjetividades e os pontos de dissidência ou as derrotas, eram sempre omitidos. A verdade dos livros, no caso soviético, não encaixava na verdade da vida.

 

Svetlana impõe, com o relato oral, uma situação rara que lhe rendeu o Nobel: uma escritora de não ficção com livros de depoimentos, extremamente sensíveis e subjetivos. A força da fala, do testemunho oral e da não interrupção do orador para que se manifeste livremente talvez pela primeira vez, das vozes sempre caladas que agora ganham espaço e podem ser percebidas por todos, pelo mundo. Assim, passamos a conhecer a história do desastre nuclear, de um país fragmentado em todos os aspectos e de sua dissolução ideológica, econômica e cultural e de suas heroínas femininas, já que grande parte dos relatos é de mulheres.

Elas se sentem mais à vontade para se expressar, para se manifestarem e se permitirem sentir e identificar suas fragilidades e forças, tão caras aos homens – das tragédias e de percursos históricos sempre vistos em plano aberto, que agora encontram seus closes e imagens mais realistas porque individuais.

 

Conhecer o viés feminino da guerra, contado através de uma grande escritora e com relatos de mulheres é a grandeza de sua obra mais surpreendente, a que mais difere das demais – também importantes – por seu tema, pela força dos relatos. É o olhar subjetivo feminino de quem escreve e encontra tantos olhares femininos de quem fala e que juntas, ganham espaço em uma sociedade ainda difícil para o gênero. Aqui, a mulher tem voz e assim começamos a entender um pouco o que foi esta guerra, o modo de vida soviético, o ideal, a força destas mulheres, algumas ainda vivas.

Com Svetlana, a dificuldade é parar de ler seus livros, seguimos com uma ânsia cada vez maior por novas histórias, por entrar na cozinha daquelas pessoas e dividir aquele café – ou chá se você preferir acompanhar a cultura local. Seus livros são, sem dúvida, a melhor descoberta do último ano.

Tati Reuter Ferreira

Cineasta

Baiana, mora no Rio há menos de uma década. Cineasta e coordenadora de produção na tv, é crítica e eterna estudante de cinema. Varia entre Beatles e Luiz Gonzaga, escreve no blog Café: extra-forte e no Blah Cultural. Não vive sem café, rede, livros e praia.