Desde quando incluíram o útero no currículo?

Em artigo no Medium, Margaret Gould Stewart, Diretora de Design de Produto do Facebook, questiona por que as mulheres líderes do setor de tecnologia têm que responder perguntas sobre maternidade e não sobre carreira.

A participação de Margaret Gould Stewart no Future Brainstorm, uma conferência de tecnologia em Aspen, motivou seu inspirado artigo para a Medium. Com o estranho título de “What my Uterus can teach you about being a Tech Leader” (O que meu útero pode ensinar pra você sobre ser um líder de tecnologia), Margaret conta como foi a experiência e a estranha relação que o mercado tem ao falar da carreira de mulheres de sucesso.

Margaret é uma mulher de destaque na indústria. Hoje ela é diretora de Design de Produtos no Facebook, mas já ocupou cargos de destaque no Youtube e Google. Junto com ela, profissionais importantes no ramo, de ambos os sexos, participaram para falar da indústria, carreira e tendências.

Mas o que a surpreendeu foi a forma como as entrevistas com líderes femininas eram conduzidas. Uma das palestrantes e entrevistadas era Susan Wojcicki, atual CEO do YouTube e reconhecida por sua brilhante carreira no setor, incluindo anos liderando o setor de propaganda do Google. E a primeira coisa que o entrevistador disse sobre uma profissional desse calibre em um evento técnico foi:

“Bem, você tem números realmente incríveis. Por exemplo, você foi a funcionária número 16 do Google. Isso é impressionante. Mas o número que eu quero dividir com vocês que é realmente extraordinário sobre Susan é o 5. Porque não faz muito tempo que ela teve sua quinta criança. E acho que isso merece aplausos”.

Não que conciliar uma carreira de sucesso com vida pessoal não seja digno de nota. Mas o que chocou Margaret é que esse não era o foco do evento. Esse início causou um enorme desconforto, não apenas em Margaret, mas em boa parte do público presente.

Basicamente, em um evento totalmente focado na indústria, a conversa com uma das principais líderes do mercado se transformou em uma série de perguntas sobre gravidez, maternidade e como ela conseguia conciliar isso.

Na hora de entrevistar convidados do sexo masculino, o entrevistador usou uma tática diferente e focou apenas em política, tecnologia e entretenimento. Os entrevistados, Rahm Emanuel, prefeito de Chigaco, e seu irmão Ari Emanuel, um renomado agente de talentos, mostraram sua indignação com o tratamento estranho oferecido a Susan. Rahm decidiu se posicionar:

“Posso dizer uma coisa? Você sabe, eu vi você entrevistar a CEO do YouTube. As suas 4 primeiras perguntas pra ela foram sobre os filhos dela e você não pergunta nada disso pra gente. Se você quiser conhecer o Ari e eu, a gente pode ficar até as 4 da manhã falando dos nossos filhos.”

O artigo da Margaret continua a descrever outras situações semelhantes do evento (incluindo o kit de boas-vindas, composto por cueca, creme de barbear e outros itens masculinos), para chegar a um ponto: por que em eventos da indústria, eventos focados somente em questões técnicas de carreira ou mercado, a maternidade entra em questão?

 

 

Margaret não ignora as dificuldades de ser mãe e profissional. Nenhum de nós deve ignorar isso. Mas é válido pontuar que, se a discussão é centrada em tendências de mercado, negócios e carreira, o útero de uma mulher não faz parte do assunto. Para ela, isso faz com que suas habilidades como profissional pareçam ficar sempre em segundo lugar.

Se homens não têm de responder a essas perguntas quando em situações profissionais, por que a mulher deveria? Talvez porque muitos ainda acreditam que a família é uma responsabilidade única e exclusivamente feminina. Está na hora de acreditar que o século XXI chegou, gente.