Não é imaturidade, é opressão

Dois casos emblemáticos ganharam as mídias nas últimas semanas. O primeiro foi dos alunos de um colégio que, num recreio temático, se vestiram de profissões consideradas símbolo do que “não deu certo”. Muitos, assim, estavam com fantasias de faxineiras, garis e atendentes para representar o que seria para aqueles adolescentes de um colégio particular não vencer pelos próprios méritos.

 

É fácil entender que essa manifestação foi de cunho elitista e racista, embasada e programada pelo colégio e claro, pelos pais dos alunos, que provavelmente acharam normal ver seus filhos vestidos de gari para ir para escola a pedido da própria instituição como forma de mostrar o que é um exemplo de emprego de quem supostamente não se esforça, e por toda a sociedade que repete o discurso meritocrático de acrítica no décimo país mais desigual do mundo.

 

Então, o que é “dar certo” quando o que se veste de faxineiro no intervalo, compete com o filho do faxineiro pela mesma vaga na universidade pública, sendo que o primeiro se diverte numa festinha de uma escola que provavelmente a mensalidade é maior que a média salarial que um faxineiro tem para sustentar a si e a própria família?

 

 

Outro caso que me chamou atenção envolvendo estudantes foi o dos alunos que não foram aceitos em Harvard por compartilharem postagens racistas e machistas. Dentro dessas postagens tinha imagens racistas zombando, por exemplo, crianças mortas, latinos e o Holocausto. Os espaços escolares não dão conta de reverter o que a sociedade inteira constrói como padrão de normalidade e educação, assim como muitos espaços escolares naturalizam a opressão e muitas vezes punem a vítima. É o que ocorreu num caso em 2015 quando uma menina de 12 anos sofreu racismo no Brasil e teve que pedir desculpas para seus agressores.

 

Portanto, se de um lado tem alunos reproduzindo a opressão, do outro tem alunos de doze anos tomando vários remédios para lidar com o que acontece no ambiente escolar. Seria um exagero não aceitar tais alunos em ambiente universitário podendo ter como justificativa prezar pela saúde de outros membros do espaço escolar?

 

Afinal, o que fazer quando já aos 12, 14, 17 anos, crianças e jovens vão mostrando a faceta real e cruel da nossa sociedade que é o ódio e menosprezo a pobres, negros, mulheres, lgbts, judeus e qualquer grupo tido como minoria ou vulnerável? O que me levou a escrever sobre esse assunto é que preciso compartilhar os posts de duas pessoas sobre as duas primeiras notícias aqui citadas. Um deles dizia:

 

Vou contar um segredo pra vocês: é possível se indignar com a iniciativa lamentável de uma escola sem expor estudantes que participaram ou foram constrangidos a participar da brincadeira. Todo mundo um dia teve 14 anos, já é complicado o suficiente carregar a culpa das bobagens que se faz na adolescência e ninguém precisa transformar isso numa imagem em exposição para toda vida.

 

Eu concordo que é possível criticar a escola sem expor os alunos, assim como é possível entender que na faixa etária deles também já houve um processo de decisão moldada pela estrutura dominante e ser empático a não necessidade de se expor – mesmo que expor no caso seja fotos com rostos borrados, pois segundo a nossa legislação é ilegal a exposição de crianças e adolescentes –  eu tenho plena convicção que crianças e adolescentes  precisam de alguma forma serem inseridos na crítica e reeducados para que esse processo não se repita. A questão é que tem um ponto nesse post que me incomoda MUITO e por isso ele está aqui, que é entender tudo como uma mera “bobagem” e usar essa palavra para resumir aqueles atos.

 

Veja bem que por trás do discurso desses alunos que se manifestou em fantasia, temos muito racismo e elitismo, tudo travestido da ideia de que “dar certo” é vencer pelos méritos e quem não deu certo não se esforçou o bastante. O termo bobagem desqualifica que essas atitudes dentro da nossa sociedade são reafirmações do discurso opressor, ou seja, não deveria então entrar no ramo da mera banalidade.

 

De fato, a norma é ser racista, elitista e menosprezar quem de alguma forma não está no mesmo lugar social que você, mas quem disse que estamos (digo estamos pois era uma postagem de uma pessoa com ideais de esquerda) propondo enquanto educação lavar as mãos diante do normal?

 

 

E talvez nós, enquanto esquerda, estejamos sim propondo um fim da norma até certo limite, um limite que proteja brancos, em especial homens, de seus privilégios. E não é de hoje, esse é um trecho de um artigo escrito em 1907 por uma escritora que com recorte de gênero deixa nítido uma falha da esquerda, seu machismo:

 

“Eu não anuncio uma cruzada nem contra os homens em geral, nem contra os sociais-democratas em particular. Apenas sou contra a ideia de que nós mulheres devemos esperar deles a liberdade. O passado da humanidade não justifica tais expectativas em relação à MULHER e nem a qualquer OPRIMIDO. LIBERTARAM-SE APENAS AQUELES QUE, AO SE REVOLTAR, ESCREVERAM AS PRÓPRIAS LEIS.”

 

Para ler na íntegra esse artigo é: O movimento feminista e a relação do partido com ele, escrito em 1907 por  Anna A. Kalmánovitch que consta no livro: A Revolução das Mulheres – e emancipação feminina na Rússia soviética, uma obra organizada por Graziela Schneider

 

Me identifico muito com essa narrativa proposta por Anna A. Kalmánovith pois, de fato, percebo que algumas pessoas de esquerda entendem que as pautas vindas de mulheres, negros, lgbts, e outras tidas “minorias” são bobagens. E claro que quando o discurso opressor ganha espaço ele é sempre visto como um não problema ou um problema secundário.

 

Digo como mulher negra que as pautas que me atingem sempre que possível são colocadas de lado ou são leiloadas pela própria esquerda, conforme seus interesses. Seguindo, outra crítica que me levou a escrever esse texto  foi essa, direcionada ao que aconteceu com alunos de Harvard:

 

Acho que todo mundo já falou ou pensou sobre os alunos admitidos em Harvard, que perderam suas vagas porque a universidade tomou conhecimento de chats onde trocavam mensagens misóginas e racistas.

Não sei como vocês eram na sua adolescência. A minha foi cheia de conteúdo misógino e racista. Uma coisa de mal gosto era “baiana”. Uma pessoa sem modos, meio “gutcha”. Uma que chegasse por último, “a mulher do padre”. Uma tímida, “caipira”. Uma de ascendência árabe, “turca”. Um programa sem graça, “de índio”.

Não tenho orgulho que tenha sido assim, é claro. Mas acredito que na adolescência falta-nos discernimento para fazer boas escolhas — incluindo as de não repetir conteúdo misógino e racista.

É por essa razão que sou contra a diminuição da idade penal. Do mesmo modo, acho que Harvard exagerou.

 

Veja que novamente se entende como quase normal essas atitudes. É claro que algo de adolescentes que na vida adulta a pessoa sanou com maturidade. Como sempre, o racismo e outros tipos de preconceitos são vistos como mera falta de maturidade e não como consequências de uma estrutura. Se entende que esses assuntos então são sanados quando se vira adulto, mas será?

 

 

E é claro que o exagero é da Universidade ao não aceitar alunos com discurso zombando o Holocausto mesmo que a média de idade dos alunos admitidos em Harvard seja 18 anos. Tem novamente o autor que é também uma pessoa progressista se colocando empático ao tido agressor, eu acho simbólico, como parte das pessoas que hoje tem discursos que compreendem direitos humanos (mesmo que direitos humanos seja uma questão de todos, o que vemos é ele sendo  produto de determinadas ideologias) e pautas emancipatórias, tem dificuldades de lidar com os seus preconceitos a ponto de querer defender o próprio passado que identifica em outros.

 

O problema é que se ficarmos nessa da autodefesa e do “isso passa”, nunca vai passar e já há séculos que estamos repetindo o mesmo discurso! E é desesperador.

 

Um ator Global pouco conhecido, um tal de Romulo Arantes Neto, foi acusado de bater em mulheres prostitutas – uma delas era uma travesti, sendo assim entrou também para o limbo de crimes de ódio contra travestis – e roubar elas, mais canalha que isso impossível. Romulo foi indiciado e deu uma entrevista se explicando dizendo “que faltou maturidade” por isso fez o que fez.

 

Se você é uma pessoa pública aprenda a dar bons exemplos. E saiba que, depois da meia-noite, os egos mais maléficos estão soltos: quer sair à noite, saia com consciência. Fui muito julgado pelo que aconteceu, mas eu era bem jovem. Depois me ressenti por estar mal acompanhado, não ter puxado para mim a responsabilidade de pagar a garota de programa e dar a carona como combinado. Faltou maturidade.

 

E novamente é o discurso do não discernimento e de uma falta de maturidade que justifica, me incomoda muito como as opressões diárias e discursos de ódio são tratados como bobagens e falhas de caráter. É difícil mudar o status quo, quando se acredita que tudo é um problema só pessoal que passa com o tempo, e não uma questão social e estruturante.

 

Eu definitivamente acho que é um assunto delicado o de como agir diante a violência cometida por crianças e adolescentes num país do punitivismo. Vimos recentemente um menino menor de idade ser torturado ao ter sua testa pichada como forma de “mandar recado”, pois muitos entendem que de fato adolescentes sabem o que estão fazendo e mereciam ser punidos como adultos e até mortos dado a violência manifestada. Eu discordo, ao mesmo tempo que não endosso que são atitudes banais as ofensas racistas, misóginas etc.

 

Tratar como banalidade naturaliza o que não deveríamos mais aceitar em pleno 2017.

 

A questão é que, de uma forma um tanto quanto desonesta, algumas pessoas usam a diminuição da maioridade penal ao longo dos seus discursos para simetrizar com o pedido de grupos minoritários para que haja ações contra racismo cometido por menores de idade. Vale lembrar que muitas pessoas criticaram feministas que discordaram da soltura do goleiro Bruno chamando-as de punitivistas. A tentativa é a de sempre: desvalidar o discurso de grupos minoritários.

 

Quando pensamos os crimes que são cometidos por menores de idade, primeiro a mídia e una parcela conservadora na política pinta a imagem que a grande maioria dos crimes no Brasil, são cometidos por menores de idade, quando na verdade em 2011, somente 1% dos crimes foi cometido por menores. Se considerarmos como foco apenas os crimes mais graves, homicídios e tentativas de homicídio, o índice cai para 0,5%. Sendo o tráfico de drogas é o crime mais cometido por adolescentes no Brasil, seguido por roubo.

 

 

Existe algo muito sério no Brasil do que é entendido como tráfico de drogas, as punições dadas que se diferenciam conforme classe, raça e contexto territorial. Muitos jovens infratores, negros, pobres, assim como uma maioria de presos negros e pobres, não são pegos com quantidades de drogas associável a tráfico e sim a consumo, porém o Estado é racista e o encarceramento é uma forma de racismo institucional que destrói a vida de indivíduos negros.

 

Eu de fato acho que adolescentes menores de idade não podem ser punidos como adultos até porque seguindo a lógica seria uma maioria de menores negros encarcerados, o que não significa que em determinada faixa etária as atitudes deles não podem ser repreendidas e reeducadas de alguma forma. Contudo, as pessoas no caso de menores de idade sempre estão falando de dois extremos, um que é o discurso conservador que quer punição por meio de cadeias, humilhação pública, agressões públicas, e o outro lado que entende atitudes cometidas por adolescentes de 14, 16, 17 anos e até de jovens aos 24 anos como bobagens normais de crianças.

 

Acredito que existe um meio termo que precisa ser mais explorado na busca por uma sociedade e educação libertadoras, pois é impressionante como o racismo, a misoginia e a lgbtfobia que matam, ferem o psicológico e impactam a vida de alunos adolescentes é bobagem se cometido por outros adolescentes, e qualquer resposta a esse ato, como expulsar da escola esses alunos é demais ou autoritário.

 

Eu compreendo as universidades, escolas, como espaços de aprendizado, mas elas não podem ser cobradas pelas sociedade de carregar sozinhas a mudança de todos os paradigmas opressores. Além disso, medidas socioeducativas são pensadas só após um ato infracional e são sempre entendidas como algo violento, já que o estigma criado no Brasil é da violência e punitivismo severo.

 

Nós ainda não aceitamos que somos um país racista. Não basta a escravidão. Não basta a violência estatal que fez desse um país de terror para indivíduos negros. Segundo recentes dados lançados pelo IPEA, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras no Brasil. Mas parece que não basta tudo isso, para tornarmos essa uma discussão de todos, em todas as idades e em todos os espaços. O genocídio não basta para deixar de ser bobagem, então o que basta?

 

 

Olha, eu reforço que não quero prisões, redução da maioridade penal e atrocidades. Pois esses são lugares e medidas que atingem, matam e complementam o genocídio de negros. Não é sobre punitivismo, pois o punitivismo é sem dúvidas racista. Apenas quero que a gente fale sobre esses assuntos e questione se de fato essa normalidade que estamos defendendo é a norma ou o que nos fizeram crer que é normal, de tanto que repetem nunca trazendo uma outra possibilidade curricular, de debate e de plena diversidade em salas de aula, pois ainda se discute se cotas são realmente justas. Por isso, combater projetos como Escola Sem Partido é importante enquanto agenda, ativismo e foco caso queremos que esses discursos não se repitam. Escola é sim, lugar de debate e posicionamento, um posicionamento de direitos humanos e igualdade.

 

Devemos lidar com o que construímos até hoje enquanto povo e lidemos com a misoginia, racismo e lgbtfobia que mesmo adolescentes manifestam. Lidar com isso não é pedir cadeia, mas também não é fingir que é “normal da idade”. Sendo assim, “tudo bem” já que se a gente não falar disso com argumentos sério, que saíam desse “é banal”, os conservadores ganham força com um discurso punitivista do encarceramento que só atingirá negros e pobres ou do total silenciamento – como sabemos por trás de uma suposta Escola Sem Partido há foco o fim de debates amplos como o que atingem as ditas minorias.

 

De alguma forma se entendemos como coisa de “criança” tudo que é cometido e violenta outros, estamos lavando as mãos enquanto sociedade, não apresentando e nem fortalecendo projetos e formas de pensar diferentes dando de bandeja  para conservadores um espaço de disputa de narrativa fértil e com muitas possibilidades.

 

Para pensar formas de repreender, corrigir, pensar uma educação libertadora não podemos entender tudo como coisa de criancinhas e muito menos apenas focar nossas atitudes e esperanças apenas em realmente crianças de três, quatro, cinco anos. Hoje, existem portais como a Capitolina, uma revista online que aborda assuntos que envolvem raça e gênero com linguagem, estética e foco para adolescentes. Existe também uma série de projetos que podem ser referências como o programa “Tempo de Despertar”, criado pela promotora Gabriela Manssur, que tem como foco os homens agressores enquadrados na Lei Maria da Penha, são homens acusados de lesões leves sendo assim, não há homicidas e estupradores, o programa consiste em encontros onde são discutidos temas como machismo e direitos humanos, com a intenção de fazer os autores de agressões contra as mulheres refletirem sobre a violência, parecido com um outro projeto que se chama “E Agora, José?”.

 

Existe uma série de projetos que são socioeducativos, esses exemplos citados, são para homens agressores no que tange o racismo. No Canadá existe um projeto parecido com os alcoólicos anônimos para pessoas racistas, que vai de encontro ao que muitos negros pedem que é: Brancos lidem com seu racismo e falem sobre isso. Criado por um pastor, aparentemente esse projeto vem sendo reproduzido em outros espaços, sem dúvidas é necessário o racista começar a se movimentar. E não para ganhar palco pelo  “não racismo” e sim para sentar, falar e refletir entre os seus, o próprio privilégio e com isso avançamos todos. Quando vamos colocar os brasileiros sentados falando do próprio racismo nas escolas, nas universidades, nas famílias, ambientes de trabalho?

 

Até quando os discursos de ódio não serão vistos como Violência?  

 

Veja que nenhum desses projetos é pensando para adolescentes, mas poderiam ser adaptados ou usados como referência. O que não podemos é naturalizar o ódio contra minorias quando ele vem de jovens achando que é coisa de criança. Afinal, supostamente todo mundo comete bobagens “nessa idade”. Sim cometemos, mas colocar no limbo do normal e da mera bobagem para racismo, machismo e lgbtfobia não mudará esse quadro.

 

Alunos LGBTs abandonam os estudos por não se sentirem acolhidos nas escolas. Alunos negros sofrem com perseguições e síndromes psicológicas ao se sentirem impostores nos espaços escolares. Alunas mulheres se matam depois de sair em listas misóginas e terem suas fotos íntimas divulgadas em grupos.

 

A normalidade está tornando os adolescentes agressores ou vítimas de suicídio, depressão, evasão escolar etc. Foi essa normalidade que nos fez acreditar coletivamente que “dar certo” é ter adolescentes racistas e considerar isso símbolo de imaturidade e não da nossa opressão sistêmica. No fundo, é o racismo que deu certo. Está dando, normalmente…

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.