O relato emocionante do primeiro americano militar transexual

Shane Ortega tem 30 anos e entrou para as Forças Armadas em 2005, como fuzileira naval em busca de melhores oportunidades de vida, já que cresceu em meio à pobreza no Estado de Virgína, nos Estados Unidos e queria trabalhar e também ter acesso à uma boa educação.

Na época, Shane ainda era considerado mulher, participou de duas missões no Iraque e foi uma das primeiras a participar de uma unidade de infantaria. Em 2009, decidiu ir para o exército fazer um curso de mecânica de helicópteros. Foi nesta época que Shane começou o processo de transição e, com auxílio médico, começou a tomar hormônios.

A partir daí me senti mais em equilíbrio comigo mesmo, mais confortável com meu próprio corpo: era como se eu estivesse no caminho certo.

Shane diz que nunca houve um momento específico em que tivesse se dado conta de que era de outro gênero ou algo assim e acredita que isso tenha acontecido por ter tido uma criação diferente da dos outros trans. De origem indígena, ela diz que a questão dos gêneros é mais fluida em sua cultura.

Mas nas Forças Armadas percebi como eles são rígidos nisso e como todos tinham de se encaixar em um padrão. Demorei para fazer a transição porque era muito caro. Todo o processo custou 25 mil dólares (78 mil reais).  E é difícil para as pessoas trans conseguirem trabalho, pois há muita discriminação.

Há um tempo atrás as Forças Armadas tinham uma política para gays e trans chamada ‘Não pergunte, não diga’. Resumidamente, ninguém falava sobre este assunto. Mas quando as pessoas olhavam para Shane, obviamente entendiam a situação e em 2015, ele começou a se expor publicamente e foi aí que começou a sofrer muito com o assédio dos superiores.

Eles diziam que eu tinha de usar o uniforme de acordo com o meu gênero, e o Exército me considerava mulher. O problema era que a testosterona havia mudado o formato do meu corpo e as roupas não cabiam em mim. Os meus ombros e braços eram tão musculosos que não dava para vestir as blusas. E a roupa, padronizada, não pode ser alterada de acordo com cada indivíduo. Um dia meu supervisor me obrigou a ir à loja do Exército e provar as roupas femininas na frente de todos. Foi a coisa mais constrangedora que já me aconteceu.

 

 

A cadeia de comando onde atuava, queria ver Shane fora da corporação e começaram então a pensar em maneiras de expulsá-lo. “Eles procuravam qualquer coisa para me prejudicar. Se me atrasasse um minuto, já tomava uma punição. Todos os dias, caso alguém usasse o pronome “ele”  para falar comigo, meu superior imediatamente corrigia a pessoa. Dizia algo como: ‘”Ela! Ela! Ela! Você está falando com uma mulher, você deve que usar o pronome “ela!’. Todos os dias eram assim. Era horrível. Ficou tão insuportável que escrevi ao general da minha unidade para pedir aposentadoria, porque eu não aguentava mais.”

Por fim, Shane se aposentou em 2015, um mês antes de entrar em vigor a legislação que permitia pessoas trans no Exército. Além da aposentadoria, Shane dá palestras em escolas e universidades e depois que mudou de vez seu nome, para um de gênero masculino, ele deixou de revelar seu registro de batismo e também não compartilha fotos suas de antes e depois do processo de transição.

Parece que as pessoas ficam obcecadas com as mudanças físicas e esquecem o ser humano. Eu sou o que sou agora.

A gente sabe que este é um problema que atinge muitas pessoas que estão neste processo de transição ou que não se identificam com o gênero com o qual nasceram. É muito triste ver o preconceito e o quanto essas pessoas ainda sofrem para que sejam aceitas pela sociedade e muitas vezes até pela própria família. Por isso, é tão importante o nosso papel de mostrar empatia e mostrar cada vez mais que as pessoas devem ser respeitadas como elas são.

Redação

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