Os homens que amam “ninfetas” – A mídia incentiva abusos sexuais.

Este é mais um texto sobre homens que se relacionam com mulheres mais jovens. E ele não é sobre seu relacionamento muito menos uma tentativa de taxar sua experiência pessoal como abusiva, dado que, enquanto feministas, não deveríamos personificar e tentar silenciar críticas estruturais.

Pronto, dito isso eu realmente quero que as pessoas entendam que uma coisa é ter uma relação com diferença de idade entre dois adultos; outra coisa é um relacionamento de um maior de idade com um menor de idade ainda mais quando o maior é um homem e a menor uma mulher, portanto ele detém privilégios de gênero em relação a ela.

Este é um texto sobre isso: homens que dizem “amar” e apenas se interessam por mulheres menores de idade, criando uma cultura de adoração a “ninfetas”. Se digitarmos esse termo no Google, encontraremos uma série de indicações de filmes pornôs com mulheres jovens infantilizadas, um reflexo dessa cultura na qual mulheres adultas se infantilizam e são infantilizadas para serem vistas como objetos de desejo sexual e “cuidado”.

No Brasil no ano de 2015, o Instituto Promundo com base no IBGE identificou que 554 mil garotas de 10 a 17 anos são casadas, com filhos e responsabilidades de donas de casa. Segundo o IPEA, numa pesquisa de 2014, a maioria dos estupros (50,7%) acontecem com menores de 13 anos. Mais de 17,5 mil crianças e adolescentes podem ter sido vítimas de violência sexual no Brasil em 2015, quase 50 por dia durante um ano inteiro, segundo dados recolhidos do Disque Denúncia Nacional (100).

Nas redes sociais é comum bradarem que a periferia inventou a cultura do culto à “novinha” nos seus bailes funks e festas periféricas se esquecendo de tantos casos como o da Larissa Manoela, que é uma menina de classe média amplamente sexualizada. A questão transcende o quesito classe, isso é ilustrado pelo exemplo da MC Melody, que é alvo de adultos pedófilos e da investigação do Ministério Público, pois os vídeos que seu pai produz sexualizam essa criança de 10 anos.

Já Larissa Manoela, atualmente com 16 anos, desde muito cedo é tratada como uma adulta pela mídia nas suas chamadas, as quais falam da sua sexualidade e relacionamentos sempre com fotos que a colocam próxima a uma mulher adulta.

A cultura de idolatrar meninas menores de idade hiperssexualizando e objetificando seus corpos é histórica. A novinha de hoje é a “ninfeta” da história da sociedade, o termo se popularizou após ser usado no livro “Lolita” de Vladimir Nabokov, hoje é definido na internet da seguinte forma:

Aquela linda ninfeta, apesar de ainda não ter atingido a maioridade, já provocava desejos em homens jovens ou adultos.

Nabokov usou o termo “ninfeta” para designar as meninas que geravam interesse em Humbert Humbert, personagem principal de seu livro, em especial a jovem Dolores, a quem ele começou a abusar sexualmente aos 13 anos e passou a chamar de Lolita. Hoje, “Lolita” e “Ninfeta” são termos quase sinônimos e o romance ficcional da menina abusada pelo padrasto assusta por ainda representar a realidade atual em estatísticas nada ficcionais: a maioria dos estupros acontece dentro de casas, onde os agentes da agressão são conhecidos íntimos da vítima com destaque para pais e padrastos. Sendo assim é de fato cultural o abuso de menores de idade, principalmente meninas, numa sociedade em que a mulher é vista como um objeto para homens com data de validade.

Em 2016, no reality show BBB, o participante Laércio deu declarações sobre seu “interesse” por jovens mulheres. O comportamento abusivo de Laércio foi romantizado no discurso de Pedro Bial na sua eliminação do tal reality show, ao se referir a Laércio, Bial disse: Você e suas Lolitas e suas Anitas. Bial foi criticado e com razão.

Atualmente Laércio está preso acusado por crime de estupro de vulnerável e por fornecer bebidas alcoólicas a adolescentes, chama atenção que a maior emissora do país não foi capaz de identificar o passado desse participante. O caso é que muitos citaram Lolita nas acusações e se esqueceram da gravidade da estória de Anita, a personagem principal de um livro de 1948, anterior a Lolita, e de uma minissérie da Rede Globo baseada no romance chamada “Presença de Anita”.

Uma das cenas marcantes da minissérie é Anita aos 12 anos aparecendo nua enquanto um homem com idade para ser seu avô faz ela de musa para um quadro, esse por sinal foi o primeiro homem a abusar essa criança. A narrativa da série Anita com a jovem sedutora feroz que ataca um homem mais velho que tem um relacionamento desgastado com uma mulher mais velha que ela, é sem dúvidas reforçada continuamente pela mídia.

 

 

A noção de feminilidade atribuída a mulheres está na imagem de personagens vulneráveis, com beleza angelical, sendo assim em sua maioria brancas alvas, fraqueza física e dependência financeira e psicológica em relação a um homem. Inúmeras personagens vão apresentando esses traços, no caso das que são escritas para corresponder ao padrão da “ninfeta” temos essas personagens sempre sendo alvo de homens mais velhos, bem sucedidos, sexualmente ativos e muito poderosos.

Temos os princípios básicos do ideal de masculinidade versus os princípios básicos da construção social de feminilidade, tudo isso sempre tensionado pela figura de uma mulher mais velha, “frígida” e amarga. A rivalidade feminina sempre faz parte dessa narrativa. Veja os exemplos:

 

Novela Império 2014/2015

 

 

José Alfredo de Medeiros “Comendador” (Alexandre Nero) o homem milionário era casado com Maria Marta (Lilia Cabral) e tinha como amante Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa), segundo os jornais a personagem é “uma ninfeta do interior” que sonhava em ser modelo, ao longo da novela ele foi demonstrando o quão abusivo e dominador era em relação à moça. Ao longo da novela na escolha das roupas e do comportamento ficava nítido que por mais que a personagem fosse indicada como maior de idade, a sua estética e comportamento era infantil.

 

Novela Totalmente Demais 2015/2016

 

 

Eliza (Marina Ruy Barbosa) uma jovem de 18 anos que fugiu de casa, após ser assediada pelo seu padrasto Dino. Na narrativa da novela ela conhece o empresário Arthur (Fábio Assunção) mais velho e dono de uma agência de modelos que se apaixona por ela, deixando Carolina (Juliana Paes), sua namorada que por sinal é mais velha que Eliza, bastante furiosa e criando situações criminosas contra Eliza.

Novela Verdades Secretas

 

 

Arlete  aos 16 anos (Camila Queiroz) se mudou para São Paulo junto com a mãe, Carolina (Drica Moraes) e começa a tentar ser modelo. Sob as instruções de Fanny começa a se prostituir, Angel gera o interesse de Alexandre Ticiano (Rodrigo Lombardi) um empresário rico e poderoso que passa a exigir que ela só se relacione com ele chegando no nível de se envolver e casar com sua mãe Carolina para continuar abusando da adolescente que tinha idade da sua filha.

 

Novela Laços de Família

 

 

Pedro (José Mayer) era o garanhão da novela se envolvendo afetivamente com várias personagens, mas no fim fica com a jovem Íris (Deborah Secco)  meia-irmã da mulher com quem ele tinha uma filha e não sabia, sua prima Helena (Vera Fischer).

Uma das cenas icônicas da novela Laços de Família foi Pedro espancando Íris, além da violência doméstica naturalizada, a forma como a agressão se deu tinha um ar paternalista fazendo alusão a um pai batendo em uma filha. É fato que muitas desses personagens eram colocadas como maiores de idade. Porém, suas atitudes remetem a adolescentes/crianças e inclusive o figurino das quatro citadas deixam nítido o ar moleca e/ou boneca. Um exemplo era a Maria Ísis que usava apenas roupas íntimas com babados e estampas juvenis.

É intencionalmente paternalista como esses homens mais velhos se comportam mesmo se relacionando com maiores de idade, um exemplo atual é o casal Emilly e Marcos em que ela mesmo sendo maior de idade tem voz, atitudes e comportamento que remetem a uma adolescente, a imaturidade de Emilly é compreensível com seus 20 anos. Já Marcos, 17 anos mais velho, fecha os ouvidos quando ela fala e ele não quer escutar.

Para homens como Marcos, soa muito positiva a diferença de idade pois ele consegue facilmente controlar a parceira usando a desculpa que é mais experiente, ele dita como ela deve falar, o que deve estudar e inclusive se deve ou não beber. Tudo tem um ar paternalista que por sinal é abusivo e misógino, que corresponde bem com as inúmeras personagens masculinas aqui citadas.

A questão não é a diferença de idade simplesmente, mas a forma como alguns homens usam esse fator somado ao privilégio de gênero para expressar poder.

O amor a “ninfetas” realmente não existe, existe a tentativa de demonstração e fortalecimento do próprio ego que se manifesta em assédio e violência dentro ou fora das telas. E claro a criação de um fetiche em cima de mulheres, ao se fazer isso se desumaniza corpos feminino e nossa existência, portanto nem um pouco empoderador.

Não existe amor quando o companheiro te entende como parte ou objeto somente, e não como ser humano.

Mesmo quando a personagem ou mulher não é menor de idade, o comportamento infantilizado pode ser uma premissa e/ou imposição do próprio parceiro. É fato que todas essas atrizes e pessoas citadas foram expostas muito jovens a esse tipo de violência. Em entrevista para revista TPM Taís Araújo falou de como se sentiu em sua primeira protagonista negra da televisão brasileira em Xica da Silva no ano 1996 na extinta TV Manchete:

“Tem fotos [promocionais] minhas como Xica da Silva com 17 anos tapando o peito. Eu não entrei por um nicho sem volta porque Deus não quis. Meus pais não tinham a menor referência, achavam que isso fazia parte da carreira. Fico pensando como minha mãe, sempre tão dura, deixou. Seria diferente se eu quisesse estar lá tapando os peitos, mas não era uma vontade minha. A primeira vez que me vi numa cena de Xica da Silva eu caí aos prantos. Tinha contagem regressiva tipo: ‘Faltam não sei quantos dias para ela fazer 18 e tirar a roupa’. Isso me batia duro porque eu pensava: “Só querem me ver pelada? Será que o trabalho que eu estou fazendo não tem valor? Será que tirar a roupa é um valor?”. Hoje se me falarem para tirar a roupa e eu achar que tenho que tirar, tiro sem o menor problema, mas é completamente diferente.”

Os relatos e fatos marcantes só não são piores que a realidade do que foi feito com Brooke Shields pela mídia desde os seus 10 anos. Brooke Shields começou a ter sucesso e fama quando se tornou o rosto preferido de fotógrafos famosos de Nova Iorque como Francesco Scavullo. Aos dez anos de idade Shields fez uma série de fotos com Garry Gross onde aparecia nua e com maquiagem forte e adereços adultos, uma das fotos dessa série foi vendida na Christie’s por cerca de um milhão de dólares.

 

 

Por conta dessas fotos ela começou a ser pleiteada para o cinema, um dos seus primeiros filmes e mais marcantes da época é Pretty Baby que aos 12 anos ela fez interpretando uma criança que vivia em um bordel e se relacionava com homens adultos, é recorrente as cenas que simulavam sexo entre ela e homens mais velhos, sendo assim cenas de abuso sexual. Na adolescência ela fez o seu filme de maior sucesso A Lagoa Azul, que contém mais uma série de cenas de nudez e sexo.

 

 

O ator Elijah Wood, o Frodo da saga O Senhor dos Anéis, denunciou em 2016 que casos de pedofilia em Hollywood são comuns e que muitos atores “mirins” passam por essas situações, em entrevista ao jornal Sunday Times. Ele, que começou sua carreira com 9 anos em De Volta Para o Futuro II, disse nunca ter passado por essas situações pois foi protegido pelos pais, mas afirmou:

“É provável que essas coisas sigam ocorrendo. Se você é uma criança inocente, com pouco conhecimento deste mundo e com vontade de vencer, os parasitas te veem como sua presa. (…) Há muitas víboras neste negócio que só têm em mente seus próprios interesses. O abuso continua porque as vítimas não podem falar tão forte quanto as pessoas poderosas.”

Sendo assim o abuso levado para as telas, também acontece nos bastidores. Somos uma sociedade marcada pelos estupros e hiperssexualização de meninas e adolescentes! Entenda a gravidade disso: Corey Feldman, de ‘Os Goonies’, detalhou em entrevista como ele, o ator Corey Haim e outras crianças foram abusadas e estupradas por profissionais do cinema. Sendo que Corey Haim morreu aos  38 anos devido ao abuso de drogas que, para Feldman, foi consequência do estupro que ele sofreu aos 11 anos:

“Ele sofreu abusos mais diretamente do que eu. Eu fui molestado, e por várias pessoas, mas Cory foi realmente estuprado, enquanto o que aconteceu comigo não foi estupro de fato. Isso aconteceu com ele quando ele tinha 11 anos. Meu filho tem 11 anos agora e eu não consigo nem começar a imaginar algo assim acontecendo com ele. Isso o destruiria”.

Muitas crianças e principalmente adolescentes já podem fazer suas escolhas, mas no fundo sabemos que tudo isso faz parte de um jogo de poder onde homens velhos, adultos e bem-sucedidos demonstram que podem tudo. O que leva homens de 30 anos se envolver com garotas de 15? Homens de 37 namorar jovens de 17? E, por que atrizes vão perdendo espaço quando envelhecem e quando mais jovens o papel da ninfeta é sempre relegado a elas como auge de suas carreiras? Vivemos cercados de ídolos que são homens que tiveram coragem de aos 40 anos “tirar a virgindade” de uma garota de 13. Relato de Paula Lavigne para Isto É Gente:

“Conheci o Caetano por volta dos 13 anos de idade quando atuava na peça Os 12 Trabalhos de Hércules. Ele ficou amigo de todos nós do grupo e de mim especialmente. Éramos muito amigos, saímos juntos, nos divertíamos. Numa dessas farras decidi perder minha virgindade com ele. Era o aniversário dele de 40 anos. Não foi nada programado, estávamos no embalo. Aos 14 anos meu pai me mandou estudar na Inglaterra e tempos depois o Caetano foi lá atrás de mim. Eu fugia da escola para ficar com ele, era muito bom. Ele voltou e eu fiquei mais tempo lá. Depois fugi definitivamente da escola e fiquei rodando a Europa até acabar o dinheiro. Quando voltei continuamos a nos encontrar e com 16 anos fomos morar juntos.”

Se Caetano conheceu Paula aos 13 e ele tinha 40 e se interessou por ela a ponto de ir atrás dela em outro país,  Marcelo Camelo aos 30 assumiu uma relação com Mallu Magalhães, que tinha 16 anos. Marina Moschen uma das novas apostas da Globo aos 18 anos disse namorar há três anos um homem de 37 anos, Daniel Nigri. Ele que é dono da escola de formação de atores em que a atriz estudou.

Já Jerry Lee Lewis se casou com a prima de 13 anos quando ele tinha 23, fazendo dela sua terceira esposa. A já citada Brooke Shields tinha apenas 14 anos quando fez o filme A Lagoa Azul, uma das cenas marcantes o envolvimento sexual da personagem com Richard vivido pelo ator Christopher Atkins que já tinha 18 anos, o diretor colocou fotos da atriz do lado da cama de Christopher para “estimular” o ator, o fato é que o estímulo foi para vida real, ela com apenas 14 anos se tornou namorada de Christopher. Ele anos depois disse em entrevista que não entendia o comportamento dela:

“Brooke se cansou de mim. Ela achava que eu levava a carreira muito a sério. Eu sempre estava concentrado para fazer as cenas e ela preferia ficar com a equipe fazendo piadas.”

Comportamento que faz sentido para alguém de CATORZE ANOS! Mas se cobra o amadurecimento psicológico de meninas para que o abuso seja justificado, porém o envelhecimento de seus corpos é totalmente repudiado a própria Brooke, agora mais velha, não recebe o mesmo destaque que recebeu quando criança. Enquanto isso, homens não só tem o direito de envelhecer fisicamente como continuam usando a desculpa que “amadurecem mais tarde” por isso negam mulheres da sua idade ou mais velhas e buscam a juventude em parceiras.

Essas histórias não são de séculos atrás, são da nossa época onde ainda é permitido colocar mulheres no estereótipo da ninfeta na mídia ou na vida real para reafirmar poder masculino na escolhas e na sexualidade. Você pode namorar alguém mais velho ou mais novo, ok. Só não comparem os fatos aqui  colocados com ter 30 e se relacionar com alguém de 49 anos.

Não sejam desonestos, nós sabemos que nessas idades é possível as pessoas estarem vivendo momentos parecidos no trabalho, vida, familiar e estabelecerem trocas de igualdade. O que provavelmente não acontece aos 15 em relação aos 30, 40 e até 70 anos, quando uma das partes provavelmente tem um trabalho, uma renda fixa, independência e a outra está saindo do ensino médio. Não são apenas homens que amam “ninfetas”, são homens frutos saudáveis dessa estrutura que é o patriarcado.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.