Por que a surpresa?

Por que nos comovemos com homens cuidando de crianças sozinhos como se fosse algo de outro mundo? Quando este cenário será comum e não a exceção?

Mês passado a foto de Sydney Engelberg, um professor de filosofia e psicologia da Universidade de Gratz, em Jerusalém, comoveu muitas pessoas segurando o filho de uma aluna no colo durante a aula.

Uma aluna de Gratz não tinha com quem deixar o seu bebê enquanto estava estudando, e por isso, tinha de levá-lo às aulas com ela. Durante a aula do professor Engelberg o neném começou a chorar e a aluna começou a sair de sala quando o professor a impediu. Pegou o bebê, conseguiu acalmá-lo e seguiu a aula com ele no colo.

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As fotos ficaram rodando pela internet e comovendo muitas pessoas. Inclusive, ter filhos é sempre um dilema para muitas mulheres, pois não sabem como conseguirão manter estudos/trabalho e os cuidados com o bebê.

Pensei em como ele foi fofo e como isso é raro. Maaaaaaas, agora vamos pensar pelo outro lado?

Se fosse uma professora mulher. Teria tanta repercussão?

Por que só achamos lindo quando o homem faz esse tipo de papel? Quero levantar algumas questões que passam despercebidas por nós no dia-a-dia e convidar vocês a refletirem comigo. Reconheço que no Brasil o número de pais que vejo andando na rua com seus filhos é muito pequeno – falo do meu campo de visão. Dentro do meu círculo social. E acredito que o de vocês não seja diferente, né?

Apesar de sabermos que as coisas estão caminhando e mudando, ainda assim, não temos um número WOW! para dividir. Dá-se às mulheres o dever de cuidar dos filhos. Quando alguém que não recebeu aquilo como dever passa a fazê-lo, o mundo acha lindo, mas não questiona o dever pertencer à mulher.

Eu sempre me pego com cara de “ahh, que fofinho”, quando vejo um pai e um filho juntos – sem a presença da mãe. Exatamente por ainda não ser tão comum. E não faço o mesmo quando vejo mulheres com seus filhos – pra mim é normal. Entende? São percepções que temos a partir de nossas vivências, a partir do que presenciamos em nossos dias e círculos sociais. São destes lugares que construímos o que é e o que não é. E fica tudo dentro da gente. Cria raíz. E passamos a reproduzir impressões que muitas vezes não são tão reais, ou que poderiam ter outro tipo de percepção.

“Ihhh, sobrou para você, né?

Recentemente li no Facebook de uma amiga um comentário que ela ouviu de dois homens na rua. Um estava com o bebê no sling e o outro disse: “Ihhh, sobrou para você, né?! Hahahaha”.

Não consigo entender por que “sobrou para ele” sendo que é filho dele também e, por que a risada? Quando vai ser algo comum para nós ver atitudes como esta?

A Suécia, por exemplo, quer acabar com essa divisão nada injusta no qual o homem vai trabalhar e a mulher fica o dia todo com os bebês pequenos dando conta de tudo sozinha. O país, que já é um grande exemplo de igualdade de gênero no mundo quando o tema é filhos, agora irá aumentar a licença paternidade para três meses. Os pais poderão ficar no mínimo este tempo em casa quando tiverem um filho.

Não quero mais me surpreender ao ver um pai com seus filhos sem a mãe, babá, avó ou vizinha por perto. Quero ver notícias como esta no Brasil também! E vocês?

 

Naila Nunes

Estudante

Estudante de publicidade, mas o Plano A era seguir carreira de bailarina. É mãe da princesa Sarah que além de fonte de inspiração para seu blog pessoal é parceirinha de tardes culturais pelo Rio de Janeiro. Apaixonada por livros com cheiro de velho, acredita que a arte pode modificar o mundo.