Por que até mesmo as feministas querem viver conto de fadas?

Neste ano venho refletindo, enquanto feminista, como é muito complexo se desvirtuar da imagem do amor romântico, mesmo que, desde a segunda onda do feminismo, mulheres estejam questionando esses padrões afetivos nocivos. Não é por falta de debate sobre o tema, mas é por falta de que sejamos escutadas e seja revisto o padrão que o amor é construído no nosso imaginário, que mesmo feministas ainda buscamos nosso príncipe com cavalo branco.

Não, não me venha dizer que isso não é verdade.

Muitas de nós não questionam o próprio desejo, aceitações e buscas afetivas. Não estou aqui para cobrar que mulheres feministas sejam perfeitas e 100% coerentes, pois somos humanas, mas é óbvio que mesmo feministas fomos e somos influenciadas pelos padrões sociais patriarcais. Uma das provas disso é a insistência que temos em defender e acreditar em contos de fadas da vida “real” e até mesmo da ficção. Veja, esse ano alguns grupos feministas insistiram em defender o filme “A Bela e a Fera”, pois a Bela sendo interpretada pela então feminista Emma Watson, supostamente teria um “ar feminista”. Como uma narrativa de uma menina sequestrada e presa num castelo por um homem pode ser tido como feminismo?

Insistiram em dizer que Bela é “empoderada” e que, no fundo, ela salva o príncipe do seu sofrimento e maldade. Na vida real, mulheres morrem esperando que seus sapos virem príncipes por conta do amor que elas dão, e se anulam por homens que são seus maiores inimigos. E o “final feliz” do filme, se torna o feminicídio da semana, pois estamos sendo mortas e a sociedade como um todo não foi capacitada para perceber o dano que algumas relações representam, pois a nossa narrativa de amor romântico é pautada na naturalização da manutenção da subalternidade da mulher em relação ao homem.

Pensando com esse foco, outro caso que também marcou esse ano, foi a forma como uma parte das mulheres e até mesmo portais feministas estão comemorando o casamento de Meghan Markle com o Príncipe Harry. E isso mesmo após parte dos movimentos sociais terem denunciado que Meghan, sendo negra, está se envolvendo com um homem que se vestiu de nazista numa festa. Um homem herdeiro de uma monarquia colonizadora e que até hoje seu país promove ações violentas e colonizadoras. Me disseram que o amor supera tudo, e que claro, Meghan poderia mudar todo esse histórico, pois ela é ativista. Vale lembrar que ela tem poucos poderes em relação a toda essa estrutura de uma MONARQUIA histórica! Contudo, o que mais achei simbólico das defesas desse “amor de conto de fadas”, foi que os “erros” dele ficaram no passado e que ela vai “ajudá-lo” a ser uma pessoa melhor.

Tenho a impressão de que muitas pessoas acreditam que a vida é uma grande comédia romântica. E que um homem racista pode superar seu racismo pelo amor, como muitos filmes já tentaram nos fazer acreditar. Enquanto isso, Meghan terá que seguir uma série de regras e condutas machistas para ocupar o “cargo” de mulher de um príncipe. Uma das principais ações do anúncio desse relacionamento, e a que mais me impactou, é o fato de que ela vai acabar com sua carreira de atriz. Condutas essas nos contos de fadas são chamadas de sacrifício pelo amor, mas por que os sacrifícios de amor são só femininos?

Não existe problema nenhum em ser feminista, casar e ter filhos. Mas é estranho como mesmo ainda não conseguindo total emancipação de mulheres pelo mundo, vemos que nos é vendido agora com embalagem de empoderamento feminista, condutas que o próprio patriarcado usava para nos oprimir. Dificilmente homens largam suas carreiras para se dedicar ao lar e aos filhos, mesmo que muitas vezes nosso sucesso seja maior que de nossos companheiros. Mesmo assim, infelizmente dada a nossa educação machista, a gente tenta ver feminismo onde não tem. Literalmente, muitas vezes buscamos pelo em ovo.

Veja bem, não estou me tirando desse time. É realmente muito difícil desconstruir a ideia de amor romântico plantada em nossas mentes.

Desde criança,  somos bombardeadas para achar que abuso é amor, e mudar nossa visão sobre isso é muito difícil. Não basta apenas querer, é preciso muito mais, repensar educação, repensar o que a mídia coloca como: ideal de amor, relacionamento e de mulher. Repensar se o que desejamos são escolhas genuínas ou influenciadas por toda essa sociedade.

Veja, não estou dizendo que a Meghan Markle está num relacionamento abusivo, mas estou dizendo que existem inúmeros indícios de que sempre nós, mulheres, temos que abrir mãos de nossas escolhas, talentos e independência por homens, caminhamos para isso. Indícios de que muitas de nós feministas conseguimos visualizar até mesmo em nossos relacionamentos, mas que por força maior fingimos que são menos do que são. Esquecemos que geralmente, homens usam esse poder estrutural que detêm, a partir do momento que nunca abandonam suas vidas por nós, para nos controlar. Mas digo que não estou fora desse time, pois enquanto me questionava sobre esse assunto, lembrei do filme: Uma Linda Mulher.

 

 

Desde menina eu adoro esse filme, fico pensando que a Julia Roberts é maravilhosa como Vivian e toda vez que assisto, torço para que no final eles sejam felizes para sempre. Mesmo que o meu lado racional diga que isso é muito pouco provável, pois é a história de uma mulher que nem completou os estudos, jovem e que se prostitui. Se relacionando com um empresário que tem ensino superior completo, muito dinheiro, uma empresa de sucesso, veio de uma família com bens e que em inúmeros momentos lembrou a ela seu lugar como mera prostituta que servia a ele. Não tem muita possibilidade de acontecer e nem de ter final feliz essa história. Mas…

E então você pode pensar? Mas não era bem assim, a Vivian era independente.

Foi essa a justificativa que dei para meu namorado quando ele me perguntou porque eu gostava tanto desse filme. Eu tentava ver uma independência onde não existia, por mais que a personagem fosse legal, divertida e esperta. No final do filme, ela até diz que “salvou” ele também, mas sabemos muito bem que a maioria das relações abusivas se dão na disparidade de poder entre os envolvidos. E no caso, Vivian (Julia Roberts) está na pior situação possível e ela pode até achar que “salvou”, porém muitas mulheres acreditam que vão salvar homens imaturos, agressivos e egoístas e acabam colocando sua própria integridade em risco. Então por que mesmo assim eu e tantas outras mulheres feministas gostamos desse filme? Gostamos dessa história? E muitas vezes até nos colocamos em situações semelhantes tentando ser notadas?

É muito simbólico para mim, assim como mulheres feministas que conheço, mesmo que queiram desconstruir os padrões patriarcais, ao relatar seus envolvimentos e afetos em rodas de conversa, deixam claro que a ideia do príncipe encantado é tão forte, que mesmo diante dos indícios de violência vindos dos nossos parceiros insistimos pelo suposto final feliz. Muitas vezes isso custa nossa saúde física/mental e vida. Damos um aval enorme para homens, enfatizamos suas atitudes, principalmente quando são brancos, tirando deles a total responsabilidade pelo que causam. Nem podemos ser responsabilizadas, pois nossas escolhas são construções sociais, e a sociedade diz que o correto é isso.

 

 

Nós sabemos muito bem que contos de fada não existem, mas invariavelmente somos socialmente educadas para amar contos de fadas, reis, rainhas, príncipes e claro, plebeias que se tornam princesas. Veja, sempre nessa ordem: plebeias que se tornam princesas. Até mesmo no filme: “O Diário da Princesa”. Temos a narrativa plebeia que se torna princesa e tem sua vida toda mudada. Parece um sonho, plantado na cabeça de toda menina: ser a plebeia que se torna linda e amada. Pode ser como “Betty a Feia” ou como a mocinha do “Diabo Veste Prada”. A virada na vida de uma mulher sempre vem com transformação visual e com um homem bem-sucedido e muito bonito.

Se o final da linha da “meritocracia” para um homem é ser um cara de sucesso e com dinheiro, a “meritocracia” de uma mulher é se tornar bela, recatada e do lar, para um cara de sucesso e com dinheiro.

Olhe, é por isso que as plebeias da realeza inglesa nos influenciam tanto, elas alimentam que ainda é  “possível” para “qualquer uma”. E isso ainda faz nosso imaginário e é considerado por nós como ideal, ainda buscamos o homem “salvador”, que é um príncipe.  

É só ver a reação de mulheres pelo mundo com o novo anúncio do casamento da família real inglesa, todo mundo quer saber a data, como, quando, as roupas que Meghan e Kate usam para usar igual. Nossa paixão pela família britânica é muito determinada pelo nosso gênero. Vejo muito mais mulheres comovidas com esse assunto, defendendo fortemente essa família e seus laços monárquicos. Isso é a prova que nós ainda acreditamos em conto de fadas, mesmo que isso seja contra a nossa racionalidade. Sabemos muito bem que o enredo é o mesmo:

Moça estruturalmente mais vulnerável, namorando jovem rico e poderoso, largando toda sua carreira para casar com ele e viver numa casa em outro país. Parece 50 Tons de Cinza (50 Shades Of Grey), mas, é apenas a família real britânica e a história que não sai da mídia e está sendo comemorada por várias mídias com foco feminino.

O príncipe Harry e até mesmo seu irmão e pai, casaram com mulheres que mexem com o imaginário de todas nós, pois elas são as “plebéias” que conseguiram…. sabemos que 90% dos filmes feitos pelos grandes estúdios, que as grandes revistas e até mesmo que as histórias contadas pela nossa família, têm o foco em mulheres, que seu maior mérito é o casamento. E todas as narrativas nos fazem acreditar e querer “príncipes encantados”, mesmo que a gente saiba que na vida real a conta de mulher emancipada mais príncipe encantado nunca vai fechar, e a corda sempre vai estourar para o lado mais fraco, nós.

 

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.