Resenha Crítica: Como Nossos Pais e os Esquerdomachos das nossas vidas

Comecei o ano de 2018 assistindo ao filme: Extraordinário. De fato a escolha em assisti-lo teve razão mais por questões que envolviam o que o cinema oferecia, do que o que gostaria de ver. Então, estava eu lá vendo mais um filme com personagem feminina sobrecarregada, que tinha deixado a carreira de lado pelos filhos e que é tida como amarga, em oposição ao homem pai que tinha continuado sua carreira, era leve e admirado pelos filhos. A mesma coisa de sempre:

homens que não carregam nas costas o próprio peso de suas vidas, pois transferem tudo para suas companheiras e nem sequer são culpados por isso. Afinal, o destino das mulheres é sempre esse de carregar sua família nas costas e a sociedade inteira acha que isso é justo.

Depois deste filme, já no segundo dia do ano, me vi assistindo o filme Como Nossos Pais. E é claro que existe uma conexão entre esses filmes para citá-los aqui, e a ligação está na forma como mulheres são retratadas com naturalidade sobre estarem sobrecarregadas e, de certa forma, negligenciadas pelos seus parceiros nas narrativas que protagonizam. Seja em filminhos estilo sessão da tarde norte-americanos, ou filmes nacionais que mobilizaram público e prêmios, a narrativa feminina de mulheres casadas e mães têm sempre um peso que os homens “heróis” não carregam.

O filme Como Nossos Pais, nao intitula esse texto à toa, foi o filme que mais me deixou desconfortável ao pensar nossos modos de vidas e escolhas. Acho que essa é uma narrativa ao estilo: problemas de pessoas brancas de classe média. Ao mesmo tempo que me interessa um filme brasileiro que questiona o padrão nocivo propagado por homens ditos progressistas, tendo em vista que nossa elite cultural de esquerda, não só defende esses homens, como acredita que racistas e machistas são apenas os outros. Muitos desses ditos esquerdomachos, continuam falando dos racistas/machistas em terceira pessoa, enquanto nem sequer se mobilizam para mudar o que lhes privilegia.

 

 

Pior do que isso, muitos desses homens acham que estão imunes ao próprio racismo e machismo, pois mantêm contato com feministas e ativistas negros. Falácia.

Alguns esquerdomachos usam nosso discurso de debate de gênero em seus palanques para atacar conservadores, enquanto deixam um rastro de destruição entre mulheres que acreditam nas suas falas bonitas, mas que são pegas de surpresa nas suas condutas mais do mesmo no que diz respeito ao machismo.

Então, de alguma forma, vi nesse filme uma denúncia evidente à conduta dos machistas da esquerda burguesa brasileira.

 

(A partir daqui contém spoilers)

Os esquerdomachos são homens que se dizem pró-mulheres e lutas emancipatórias, enquanto mantêm suas condutas nocivas machistas e seus privilégios estruturais. Podemos dizer que no filme a personagem principal Rosa (Maria Ribeiro), tem sua vida cercada por esquerdomachos, inclusive por ser de uma família evidentemente progressista:

  • Um pai que apalpava os seios de uma mulher em plena festa de aniversário da filha Rosa e, além disso, quando ela era apenas uma criança, dizia que iria viver da própria arte, preferindo investir o dinheiro que tinha nesse “sonho” do que no colégio de sua outra filha, fazendo ela perder sua vaga no colégio. E usando mulheres que têm recursos para sustentá-lo e assim, tentar um dia quem sabe “viver da própria arte”;
  • Um irmão que tem filhos e não colabora em nada com sua parceira para criá-los, e age de forma imatura preferindo fumar um beck na varanda do que cuidar das próprias filhas sobrecarregando a parceira;
  • Um marido que coloca no seu trabalho humanitário a justificativa para ser um parceiro e pai ausente, não dividindo as tarefas domésticas básicas com a parceira, vivendo a vida como se fosse solteiro e só tivesse a si mesmo como foco, ignorando totalmente que quem tem duas filhas não pode simplesmente viajar por meses e achar que as crianças se criam sozinhas. E ainda por cima, mantendo uma relação com uma mulher mais jovem, que pode ser enquadrada como um flerte/traição;
  • Um amante que em meio a cantadas baratas se traça como diferente dos outros homens, quando na verdade só se enquadra em mais do mesmo. Um homem que é capaz de tudo para conseguir sexo, agindo inclusive de forma desonesta e machista;
  • Um pai biológico, que prefere esconder uma filha a assumi-la, pois tem medo de sujar sua carreira política.

O clássico dos homens de esquerda brasileiros, que só dialogam com seus iguais outros homens, brancos de famílias privilegiadas. Conseguindo ampliar seu debate no máximo para mulheres brancas, de famílias privilegiadas, que podem não lavar a louça no fim do jantar, mas que provavelmente definem quem serão as empregadas contratadas para limpar a sujeira diária da esquerda intelectual e artística brasileira. Isso dá vergonha? Para essas pessoas nenhuma. Afinal, a manutenção dessa lógica se dá porque esses homens se defendem e são defendidos por todos nós, que também fazemos parte desses movimentos políticos.

Muitos esquerdomachos, assim como o personagem Dado (Paulo Vilhena), acham mesmo que seus sonhos de mudar o mundo e suas causas humanitárias fazem deles pessoas não passíveis de críticas, e muitos de nós nos abstemos de falar de suas condutas achando que temos “questões maiores”. Como se o debate de gênero fosse uma questão de menor escala para a emancipação de classe e raça, e vice-versa. Sendo assim, alguns mesmo após serem taxados como abusivos por ex-parceiras, de serem pegos em flagra em condutas assediadoras, de defenderem que movimentos raciais são censuradores e de acharem que são donos da verdade escrevendo livros que analisam movimentos sociais que sequer fazem parte, são extremamente blindados, não só por seus privilégios, mas por mulheres como Rosa (Maria Ribeiro) e Clarice (Clarisse Abujamra). Mulheres brancas evidentemente cientes do que é feminismo, influenciadas por intelectuais como Simone de Beauvoir, que continuam falando sobre gênero, mas não conseguindo aplicar isso em suas vidas no que diz respeito aos homens próximos que denunciam.

Muitas se tornam não só as vítimas, mas as principais protetoras desses esquerdomachos e dessa estrutura. A mãe de Clarice é um exemplo disso, as atitudes dela ao defender Dado não são um ataque à filha, na verdade é a forma como mulheres agem quando influenciadas pela estrutura machista. Com isso, muitas acabam passando pano para uma série de homens, no caso em especial homens brancos. No fundo porque muitas não conseguem se distanciar de fato deles, por questões que envolvem classe e raça.

Então sim, eu tenho aflição dos homens de esquerda que vivem de sonhos, que não pagam o aluguel, e dependem da mulher e da família classe média alta para viver seus anseios de “mudar o mundo”, pois a forma como eles são eternamente defendidos me mostra como a estrutura de racista, machista e elitista é ainda tão vitoriosa e difícil de ser combatida. Continuamos nossas práticas de falar dos outros em terceira pessoa, esquecendo dos que estão próximos a nós pois isso é, inclusive, confortável.

Homens continuam contando com a suposta imaturidade permanente como desculpa para todas as suas condutas, que muitas vezes se tornam lideranças intocáveis da esquerda. Esquerda essa que sequer percebe o quanto a maioria dessas lideranças são homens brancos, filhos da elite e que gozaram de todos os seus privilégios. Quando assisti ao filme Como Nossos Pais, parecia que estava assistindo o feed da minha timeline nas redes sociais: eu realmente quero que todas as minhas amigas e leitoras que se envolvem com esse tipo de homem, assistam pois é importante entender que existem padrões que vão além da vestimenta, da barba para fazer e do curso de humanas, o padrão mora nas condutas de quem está ao seu redor, em especial mulheres e filhos. Condutas que quando vemos em filme, podem nos trazer o alerta sobre o tipo de furada que estamos nos metendo ou defendendo.

O desleixo desses homens com a responsabilidade afetiva e com os que dizem amar, que se distancia totalmente do que é pregado em textos, teses, fotografias e debates promovidos por esses mesmos homens, precisa ser entendido não só como mera personalidade, e sim como nenhum tipo de preocupação com o fim da estrutura machista. Homens que são nossos pais, irmãos, maridos e amantes. Homens metidos a intelectuais de esquerda e eternamente opressores de mulheres, com suas bicicletinhas e amiguinhos barbudinhos de humanas. Homens que precisamos expor sim, e entender que a exposição não é ódio, é um grito pelo fim do que impossibilita nossa plena humanidade.

Fiquei pensando muito sobre o futuro, sobre o tipo de relação vendida para nós, as “engajadas”, com os supostos “engajados” que sequer lavam a própria louça e pagam o próprio aluguel. Achei o filme uma crítica à esquerda classe média cheia de homens machistas que se alçam como “diferentes”, quando são apenas mais do mesmo na perspectiva de gênero (no meu caso também racial).

Por isso, recomendo e peço que continuemos essas reflexões e possíveis denúncias em relação a esses homens. Afinal, a pior coisa que pode acontecer nas nossas vidas de mulheres feministas, é se envolver com machistas de que se dizem de esquerda e continuar o ciclo que começou com nossos pais, e que vamos aceitando por pensar que não existe outra forma de viver.

Digo que se dizem de esquerda, pois oprimir mulheres, abandonar filhos, deixar de lavar a própria louça sobrecarregando quem está ao seu lado, não são condutas que condizem com modelos emancipatórios. Termino com trechos retirados do livro A Revolução das Mulheres da Editora Boitempo em que Anna A. Kalmánovitch, em 1908, denuncia essas condutas:

“Anseio convencer as mulheres de que não devem esperar a liberdade dos homens, não importa como eles se nomeiam: liberais, conservadores ou sociais-democratas. Enquanto o homem tiver a oportunidade de oprimir e humilhar a mulher, ele o fará. ‘O que há para mim em seu nome?’ A questão não está no nome, e sim no poder que os homens atribuíram para si e que protegem com tanto fervor. (…) . Infelizmente, ele não encontra guarida em nenhum partido. (…) .Somente o movimento feminista libertará a mulher. ‘A tirania do homem sobre a mulher”, disse August Bebel, “é semelhante a tirania da burguesia sobre o proletariado’. Bebel enumera duas classes interessadas em mudanças na ordem vigente: as mulheres e o proletariado. ‘Uma mulher proletária”, afirma ele, “está mais próxima de uma burguesa ou de uma aristocrata do que um proletário está dos representantes das mesmas classes’.”

Talvez seja preciso que mulheres como Rosa rompam com essa estrutura, não só por elas, mas por todas nós que queremos um mundo realmente justo para nós, mulheres.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.