Ser uma mulher empoderada não te livra do abuso

 

Hoje em dia se enaltece a figura da mulher empoderada. Muitos, inclusive, associam erroneamente empoderamento a ter dinheiro, pois quando uma mulher rica e bem sucedida não necessariamente está empoderada, tão pouco seu empoderamento fortalece outras. Num texto recente a filósofa Djamila Ribeiro elucida que:

O empoderamento não pode ser algo autocentrado, parte de uma visão liberal, ou ser somente a transferência de poder. Vai além. Significa ter consciência dos problemas que nos afligem e criar mecanismos para combatê-los. Quando uma mulher empodera a si, tem condições de empoderar a outras.

Empoderar é uma ação social que age, portanto, em grupos sociais, em especial as minorias que ainda necessitam disputar narrativas em prol da visibilidade para sua luta e emancipação para seus indivíduos. Partindo da premissa que o empoderamento só existe quando impacta o coletivo, é preciso compreender que não se empodera apenas por uma linguagem outras pessoas. Existem inúmeras linguagens a serem exploradas no processo de empoderamento, e com certeza para alguns grupos, que são socialmente marginalizados pela sua beleza, corpo e traços, discussão e representatividade estética, essas múltiplas linguagens, são importantes. Como disse uma conhecida minha, a filósofa e feminista Daniela Lima:

“O processo de empoderamento é um fenômeno político, social e subjetivo. Não acontece de forma linear, de modo que não é possível separar seu impacto “individual” do impacto “coletivo”. O empoderamento é dinâmico: existe uma relação imbricada entre o sujeito empoderado e o empoderamento grupo ao qual ele pertence.”

Precisamos compreender que a subjetividade precisa ser compreendida nesse processo, que sujeitos de uma minoria também são indivíduos distintos e que existem necessidades coletivas e individuais que interferem no processo de empoderamento. No que diz respeito ao empoderamento feminino, há muito sobre o que se falar. Eu realmente não gosto da premissa de dizer “mulher veste uma roupinha e já posta #empoderada, isso não é empoderamento”. Acho que temos que partir do princípio interseccional e sempre nos perguntar: de que mulher estamos falando? Para algumas que tiveram seus corpos extremamente controlados e criticados, como as mulheres gordas, dependendo da blusinha, é um processo muito difícil de ser realizado e que pode vir acontecer só depois do contato com outras mulheres gordas, inclusive em ver a forma como estas lidam com seus corpos. Sendo assim, uma vestimenta pode ser um processo importante nesse sentido.

Para quem deseja se aprofundar nisso, recomendo o texto: O que é o empoderamento feminino?”, de Djamila Ribeiro citado aqui no começo, afinal, esse texto aqui não é sobre Empoderamento Feminino, e sim sobre como mulheres que são empoderadas não estão livres de sofrerem os mais diversos abusos, seja de parceiros afetivos, de amigos, de colegas de militância, de familiares. Por mulheres empoderadas quero dizer: mulheres atuantes em suas comunidades em prol da emancipação e empoderamento de outras mulheres, muitas das quais são lideranças e destaque em suas atuações no campo de debate de gênero. Ser feminista não é sinônimo de que você não estará suscetível a abusos nas suas relações afetivas; ao mesmo tempo, ser vítima de abusos não te faz menos feminista e/ou menos empoderada.

Eu, desde que me posicionei publicamente como feminista, já fui chamada de BURRA e LOUCA várias, várias e várias vezes por pessoas, em sua maioria homens, que me relacionei. Todos homens de esquerda. Todos que faziam parte do mesmo mundinho desconstruído. Todos que lutaram efetivamente contra o Golpe. Todos pró-mulheres nos discursos. Todos que são premiados em seus campos e atuações. Todos que são vistos como ilustres. Todos me taxaram como BURRA e LOUCA quando eu quis dar minha opinião, colocar meus limites e dizer o que eu aceitava ou não.

Nós, mulheres feministas, estamos atuando em diversos campos e debates públicos, deixamos muitas vezes de debater o quão estamos sujeitas a agressões, em especial as psicológicas no campo privado. Muitas de nós achamos que o feminismo vai ser equivalente a fazer um trabalho aprofundado sobre nosso psicológico com um especialista, quando na verdade o feminismo não é um tratamento, é uma luta social. Por mais que mulheres apoiem outras mulheres, precisamos lidar com nossa saúde mental com profissionais especializados, pois ao longo de nossas vidas estamos muito sujeitas às violências. Pessoas que se dizem pró-mulheres e que se aproximam, mas que diante do nosso posicionamento começam a nos controlar, se tornam comuns na narrativa de feministas. Fui percebendo que quanto mais eu me posicionei publicamente sobre meu feminismo, mais homens se viam atiçados para me dominar e fazer eu me sentir um lixo.

Todos esses homens, inclusive, não perderam a chance de caso eu não quisesse algo que me pediam, me taxar como MORALISTA e CONSERVADORA. Todos me afundaram e me fizeram acreditar que eu era menos do que eu podia e queria ser. Então mesmo eu sendo feminista, mesmo eu sendo vista como bonita, mesmo eu sendo uma garota capaz e inteligente, mesmo eu assumindo meus espaços e sendo forte sem perceber, eu acreditei que eu era LOUCA e BURRA e que merecia as “migalhas” que eles, “incríveis”, davam para a “louca e burra” pois estavam me “ajudando” e eu tinha controle da situação. Não, não tinha.

Além disso, predominava a visão de que eles eram “bons moços” e que, de alguma forma, eu era “rebelde” por apresentar as minhas opiniões publicamente. Rebelde por não me conformar com o lugar social que me foi dado. Impressionante como muitos dos “conselhos” de “bons moços” são cercados de controle social, um belo exemplo disso na ficção é o personagem Nate, o namorado de Andrea no filme “O Diabo Veste Prada”. Nate não aceita o novo emprego da namorada e não é capaz de dar uma palavra de apoio para a parceira, mesmo assim, ele se julga apto para tecer “dicas” e “comentários” negativos sobre o novo caminho profissional dela. Afinal, ela estaria perdendo a “essência” ao focar na própria carreira e com isso se distanciar dele, que em paralelo tem uma carreira em decadência e frustração. Em nenhum momento ele se questiona se a parceira pode estar feliz com a nova carreira e descobertas, assim como não cogita que seu comportamento pode levá-la a desistir das próprias conquistas. Impressionante que no mundo patriarcal se as energias de uma mulher não estão sendo gastas para agradar o que um homem espera dela, se entende que ela então tem um problema que precisa ser “consertado”.

Quando vemos mulheres que atuam em prol de outras ainda serem vítimas tão fáceis, mesmo que os parceiros bebam de seu discursos, é porque esses continuam tentando “consertá-las” e muitas vezes essas nem percebem. Com tudo isso, Nate ainda é colocado como o mocinho da história em que a megera é a mulher focada demais no próprio trabalho. Somos socialmente educados para acreditar que relacionamento abusivo é sinônimo de amor.

Por isso, não acreditem que uma mulher num relacionamento abusivo é alguém que gosta, é muito complexo você conseguir quebrar e acreditar que você não é o que o outro, que você gosta, está te fazendo acreditar que é. Ainda mais num contexto que te ensinam que isso é a norma,. Eu conheço feministas incríveis e superdominadoras da teoria feminista, cheias de argumentos, que não conseguem ter uma relação que não seja com um sanguessuga. E não é culpa delas, nossos discursos nem sempre compreendem e dão conta das nossas vulnerabilidades psicológicas, é preciso mais que bons discursos para a gente sair de alguns buracos cavados no patriarcado. Portanto, o domínio da teoria não apaga viver numa sociedade machista e todas as vivências e naturalizações disso. E foi inclusive conviver com algumas dessas mulheres que me fez dizer basta, mas na maioria das vezes a gente só se toca do nosso lugar, quando olha do lado de fora. Eu fico triste por ter precisado disso, precisei perguntar a mim mesma: que tipo de relação eu queria ter aos 30/40 comigo, com meu corpo, com minha liberdade e com os outros? Só assim consegui assumir que eu não queria o que eu via na vida de algumas amigas, eu queria e merecia mais do que as pessoas que diziam me “amar” estavam me dando.

A questão é que, desde que mudei para São Paulo, venho percebendo como minhas amigas em nossas conversas têm problema em assumir o que querem, não só porque são mulheres, mas porque na “cidade grande” o moderno é mostrar que você não tem interesse, ou que não se importa. As pessoas acreditam que mostrar que está “ressentida” e que se saiu machucada depois de uma relação que não correspondeu às suas expectativas é ser “imaturo”. Algumas rodinhas de “dicas” sobre relacionamentos sempre dizem que a expectativa é o problema, como se fosse possível viver sem expectativas, e como se a gente fosse criminosa por querer algo. Sendo assim, imaturidade é fingir que estamos bem, quando não estamos, para se moldar num modelo que nem nos contempla.

Colocar nossas expectativas, sentimentos e anseios à frente não é um problema! E não deve ser chamado de egoísmo. Vejo várias amigas achando que ser “empoderada” é se colocar como amiga de uma pessoa que te fez mal, só para não soar “ressentida”, ou fingir que “quer só sexo” quando estava querendo algo mais, mas temos vergonha de deixar claro, pois podemos soar “desesperada”. Para nós, mulheres, isso tem um peso enorme, pois não estamos no lugar de gênero da decisão final geralmente, e acabamos nos metendo em relacionamentos doentios e achando que se a gente colocar nossas decisões à frente estaremos sendo egoístas ou “conservadoras” demais.

Nossa saúde mental não é brincadeira, e cuidar dela não é conservadorismo. Vamos lembrar que Responsabilidade Afetiva não é só algo que temos quando estamos namorando, noivos ou casados com alguém. Responsabilidade Afetiva temos que ter com todas as relações que mantemos ao longo das nossas vidas, pois nos relacionamos com pessoas ao longo das nossas vidas. Por isso, se nos responsabilizamos afetivamente, e isso significa sempre deixar claro nossos anseios e limites para com o outro, podemos esperar o mesmo.

Vejo várias amigas sofrendo, não porque elas estão querendo demais. E sim porque mesmo abertas para experiências e propostas, ainda sofrem com irresponsabilidade afetiva, mentiras e abusos diversos. Muitas vezes começo relações, mesmo aquelas sem cunho amoroso-sexual perguntando:

  • O que eu quero nesse momento e com isso?
  • O que essa pessoa pode me oferecer se encaixa no que quero?

Parece bobagem e até frieza essas perguntinhas, mas quando já se foi vítima de um latro de destruição de alguns homens, é preciso criar métodos para se defender. Quando falamos de padrões de gênero, discutimos sexualidade e afetividade, não estamos aqui só problematizando porque achamos divertido, e sim porque estamos pensando essa sociedade e refletindo para termos pessoas, em especial mulheres, vivendo plenamente sua vida afetiva sexual. Não existe egoísmo nenhum em colocar seu bem-estar, quando se é mulher, à frente. Não existe erro nenhum em querer ter um relacionamento nos modelos que alguns não julgam ser “descolado”. O importante dos relacionamentos é o quanto estamos saudáveis, e o quanto nossas relações e interações são saudáveis. Nós, mulheres empoderadas, estamos sujeitas a vidas não saudáveis quando não entendemos que nossas prioridades podem e devem vir primeiro em relacionamentos numa sociedade tão doentia.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.