Somos mulheres de sorte?

Não sou especialista no assunto. Não me formei e sequer estudei sobre gênero, direitos, tragédias, feminismo, maternidade ou qualquer coisa que se relacione cientificamente a tudo isso. Eu sou só uma mulher.

Até falar mulher soa pesado. Parece que saímos da faculdade, entramos na vida adulta e muitas de nós nos consideramos meninas. Independentemente se pagamos nossas contas, moramos sozinhas, temos todos os certificados de vida adulta, “mulher” parece pesar demais. Parece pertencer a uma maturidade que vemos em nossas mães e tias, mas talvez por “ser jovem” a aparente única maravilha do universo moderno, rápido e em transição ultrassônica, parece que não temos tempo de nos tornar mulheres – mas só parece.

E então eu queria falar sobre a sorte que temos. Nós, mulheres brasileiras temos muita sorte. Chegou este vídeo hoje pra mim e eu agradeço todos os dias por não viver na Índia e correr o risco de perder meu rosto. Imagina o sofrimento físico, mental e moral pelo qual passam essas mulheres?

Da mesma forma, a fotógrafa Stephanie Sinclair, ao fazer uma reportagem para a National Geographic, se deparou com meninas que são forçadas a um casamento antes da puberdade. Assim, além de fotos fundamentais que nos abrem os olhos para este outro pedaço do mundo, fundou a Too Young to wed e eu penso novamente que temos sorte, que não somos obrigadas a casar com ninguém em nenhum momento.

Vivemos do outro lado do oceano, do lado moderno e desenvolvido em que mulheres podem votar, trabalhar, ser presidentes, cientistas e até defensoras de nossos direitos. Vemos notícias como as já citadas ou como a que está no documentário Filha da Índia*, sobre a garota estuprada dentro de um ônibus que não resistiu aos ferimentos e morreu, e achamos assustador, obsceno, brutal.

Comecei a ver o trailer do documentário e não aguentei, parei no meio de um depoimento que culpava a garota e descrevia parte das atrocidades. Ela havia pegado um ônibus com um amigo no início da noite, após sair de uma sessão de cinema. Eu pego ônibus quase todos os dias no horário que ela havia saído e muitas vezes sozinha.

Mas que bom, no Brasil não é assim. Chorei um pouco no ônibus, sem entender porque essa perversidade, porque é tão impossível para estes homens entender que a mulher é mais do que um corpo à sua disposição, para qualquer ação, qualquer massacre.

No Brasil que eu vivo, não dá pra andar tranquila na rua, entretanto. Como minha amiga diz, não dá pra pegar o caminho mais curto para chegar a algum lugar, se for o mais escuro. Não dá pra usar a roupa que se quer. Não dá pra andar sozinha na rua o tempo inteiro, ainda que sejamos ocidentais e nossas leis laicas não discriminem gênero.

Não dá para pegar um ônibus e não olhar para todo mundo que está sentado, checando uma possível ameaça. Não dá para andar sem olhar para trás. No nosso Brasil não dá para pegar táxi sozinha em Olinda – ou qualquer lugar, não é privilégio dessa cidade – sendo gay e tendo que justificar isso ao motorista, que inaugura uma série de safadezas, baixo calão e nem estou falando do profissionalismo do sujeito – impensável chegar nesse requinte. E a amiga que desabafou na rede social saiu com o mesmo medo que nos apavora em todos os parágrafos.

No nosso Brasil não tem ácido no rosto, tem água fervendo. “Não” tem casamento infantil, “não” tem estupro. Não temos mesmo os índices e as discrepâncias de um continente como a África ou a Ásia, mas estamos longe de um desenvolvimento e igualdade. Havendo, as feministas poderiam sair de férias.

No nosso Brasil, não dá para ter 32 anos, sem namorado, sem casamento, sem filhos. Aliás, até dá, mas é um enchimento de saco. Aparentemente esse é o deadline de sua vida, se não tiver filhos até aí se prepare para um suplício familiar e dos amigos, cujos desejos sobre a sua reprodução anulam os seus próprios desejos de vida.

No outro extremo, ser simpática é confundido com dar mole e mesmo comprometidos, esses homens se acham no direito de achar que podem flertar com você. Ainda assim, é você a safada, como é safada a mulher em desespero, que pariu um filho no quarto de empregada da casa onde trabalha. Ela não pôde abortar – em nossa república não temos direitos sobre nosso corpo – e deixou o bebê sob uma árvore, vigiando à espera de uma boa alma que levasse sua criança para uma vida melhor. Ela é a safada, enquanto nada se sabe ou se pergunta sobre o homem com quem esteve nove meses antes e desapareceu no mundo.

Eu sei que são muitos os assuntos e são todos diversos, mas todos eles tratam dessas mulheres, esse gênero que responde por tudo o tempo inteiro, sofre mais do que o outro em qualquer aspecto e segue aí, parindo mulheres e homens – sem saber quais destes serão seus futuros algozes.

Talvez ser mulher seja disso, entender quem somos, o poder que temos, no que nos tornamos e o que queremos. Não gosto do termo empoderar, que me perdoe quem usa. Acho que parte de uma definição de que não tínhamos poder e não acho que seja sobre aquisição, mas retomada. Se queremos uma sociedade igualitária como bem disse Meryl Streep outro dia, ou todos temos poderes, ou nenhum de nós tem. Sem distinção de gênero. Não sei como mudar isso, mas inundando os cérebros jovens e maduros com overdoses de educação já ajuda.

É só um desabafo mesmo, um cansaço disso tudo, uma falta de entendimento diante das maldades, do descaso sobre o humano. E olha que nem listei nossas misérias cotidianas ou, mais leve um pouco, nossas questões subjetivas. Está na hora de estudar.

Tati Reuter Ferreira

Cineasta

Baiana, mora no Rio há menos de uma década. Cineasta e coordenadora de produção na tv, é crítica e eterna estudante de cinema. Varia entre Beatles e Luiz Gonzaga, escreve no blog Café: extra-forte e no Blah Cultural. Não vive sem café, rede, livros e praia.