Tudo muito limpo é o melhor para as crianças?

 

Quando a chupeta de uma criança cai no chão, ela é confiscada e desinfetada pelos pais, certo? Em alguns casos sim, em outros não… Muitos pais se preocupam com os germes e a sujeira que entram na boca de uma criança. Mas muitos também ouviram, nos últimos anos, a “hipótese da higiene”, que afirma que alguma exposição a germes e microorganismos, na primeira infância, é realmente boa porque ajuda a desenvolver o sistema imunológico.

“Quando falamos sobre a hipótese da higiene, as teorias que abordam os possíveis problemas que podem estar associados ao crescimento menos exposto aos germes e à sujeira, estamos basicamente falando sobre crescer dentro de casa. Estamos falando de viver em um mundo de superfícies relativamente limpas e controladas, onde mesmo as crianças pequenas, que estão constantemente pegando coisas e colocando-as na boca, não entrarão em contato com uma grande variedade de exposições”, afirma o pediatra e homeopata Moises Chencinski.

Um estudo de 2016, publicado no The New England Journal of Medicine, comparou os perfis imunológicos das crianças Amish, crescendo em pequenas fazendas familiares únicas e crianças Hutterite, que são semelhantes, geneticamente, mas crescem em grandes fazendas industrializadas. Os Amish, vivendo em um ambiente descrito como “rico em micróbios”, ou, alternativamente, cheios de poeira, tinham taxas de asma surpreendentemente baixas. O autor desse estudo, Jack Gilbert, é co-autor, com Rob Knight e Sandra Blakeslee, de um livro sobre o tema chamado “Sujeira boa: a vantagem dos germes para o sistema imunológico no desenvolvimento do seu filho”.

Durante o último século e meio, segundo Gilbert, desde a compreensão de que os micróbios causam doenças, os seres humanos tentaram o máximo possível afastar seus corpos do mundo microbiano de bactérias, vírus e fungos. E funcionou! Não há dúvida de que o aumento da higiene salvou muitos da doença e da morte. Afastar as crianças dos micróbios que podem ser encontrados em água impura, por exemplo, ou do leite não pasteurizado tem um papel importante na redução da mortalidade infantil, permitindo que milhões de crianças vivam e prosperem.

Mas também podemos perguntar, nos últimos anos, se as crianças que estão completamente isoladas dos micróbios podem crescer com algumas consequências negativas em decorrência dos ambientes extremamente limpos em que vivem.

Essa separação realmente começa mesmo antes de o bebê ser levado para o ambiente doméstico limpo. Todos os mamíferos nascem com bactérias do canal de parto. Para os bebês que mamam no peito, o período de aleitamento é geralmente de exposição ambiental menor, mas de uma exposição materna intensa, e após o desmame, os bebês entram em um período de interação muito maior com os micróbios ao redor deles.

É o fim do período de amamentação e o início de uma exploração ambiental muito grande. Isso acontece com todos os mamíferos, incluindo os bebês, que a gente bem sabe que gostam de lamber e colocar na boca tudo o que acham pelo caminho.

 

 

Portanto, precisamos estudar as consequências para a saúde do ambiente construído, mesmo o mais moderno e mais “higiênico”, não é um lugar totalmente estéril, livre de bactérias. Quando criança a gente costumava viver em ambientes muito mais “sujos”. A gente brincava na rua, na areia, na terra e estava tudo bem.

A verdade é que a exposição precoce aos micróbios pode ajudar não apenas ao sistema imunológico, fazendo com que seja possível a criança desenvolver condições autoimunes a algumas doenças como eczema e asma, mas também faz bem ao sistema endócrino e mesmo o ao neurodesenvolvimento. Diferentes bactérias e fungos afetam diferentes doenças de forma distintas e afetam crianças de formas totalmente diferentes também. Então a gente tem que aprender a balancear as coisas porque nem tudo é igual pra todo mundo.

Só não precisa virar os pais loucos da limpeza, porque a gente já descobriu que isso não é o que impede a criança de ficar doente.

Redação

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