Até que a morte nos separe

Desde pequena, quando ia aos casamentos acompanhada de meus pais, usando aqueles vestidinhos de mangas bufantes e laços no cabelo, ficava atenta ao momento que considerava o mais tenso e por que não dizer, bizarro, da cerimônia. O padre sacramentava a união da noiva e do noivo com a frase mórbida aos meus ouvidos de menina:

“Que sejam felizes até que a morte os separe.”

Rapidamente eu olhava para os olhos do casal – que sempre estavam brilhantes e felizes. Queria de alguma forma entender o que aquela frase representava para eles, mas nunca entendi. Até crescer. Até vivenciar muitas mortes. Até entender que mesmo ainda vivos, podemos ter morrido para muitas coisas e pessoas durante nossa vida.

Quantos casamentos e relações mortos-vivos existem por aí?

Um casal que mal conversa. Que consegue sair para jantar e não trocar mais que meia dúzia de palavras. Que já não tem mais planos juntos, está vivo? Acho que não.

Estes dias fiquei observando um casal, enquanto jantava sozinha num restaurante bacana da Vila Olímpia e imaginando que eu estava melhor acompanhada do que aquela mulher, que tentava puxar assunto com seu companheiro e ele apenas respondia balançando a cabeça – atento ao celular (nem vou comentar sobre isso, porque né?).

Talvez eles estivessem brigados, talvez ela fosse uma mala e ele estivesse cansado. Talvez ambos se cansaram. Não sei, mas os dois estavam ali, diante da morte da cumplicidade, do carinho, da atenção, dos olhos brilhantes. Parecia ser o fim. Uma união falecida.

Então fiquei pensando que aquela frase cheia de morbidez que o padre costuma falar em casamentos e que sempre me incomodou na infância poderia ter um sentido figurado.

Falar de morte é complexo. É tabu. Talvez você tenha aprendido com sua avó a fazer sinal da cruz toda vez que ouvisse ou lesse esta palavra. Calma, precisamos falar sobre isso. Precisamos entender a importância da vida e da morte para vivermos melhor. E, sobretudo, como nossas escolhas nos fazem viver ou morrer a cada dia.

Kastenbaum e Aisembesrg dizem que apesar da morte sempre ter existido, nem sempre teve representações nítidas em nossas mentes. Ou seja, a gente insiste em acreditar que somos eternos. Não somos. Muito menos nossas relações e precisamos entender isso.

Às vezes, entender que acabou é a melhor forma de morrer para uma coisa e nascer para outra. Viver novas experiências. Se libertar e libertar o outro. Renascer.

Se você estiver passando por um luto sentimental, se a ficha caiu e você entendeu que a morte chegou, não se deprima. Nem se desespere. Aceite esta realidade, sofra o tempo que precisar para lidar com esta dor e depois se levante. Aprenda a lidar com a ausência de quem já não está mais ali descobrindo outras formas de viver, de amar. Ainda existe vida. Viva e não se separe dela.

Viviane Duarte

Fundadora

Jornalista e Fundadora do Plano Feminino. Sua paixão está em criar estratégias que inspirem e gerem conexões com propósito por meio de conteúdos e projetos especiais que promovam a igualdade de gênero e o empoderamento feminino na publicidade e sobretudo, na sociedade.