Bárbara Bono tem um plano: quer ser a ponte para que mais mulheres realizem os seus planos

Bárbara Bono é uma mulher forte, uma profissional com grandes planos e com muita inspiração. Hoje ela é Head de Conteúdo e Criação da Fiat Chrysler Automóveis (FCA) e tem uma história incrível que a fez chegar onde está.

Foi criada na Zona Norte do Rio de Janeiro, entre o Grajaú e o Engenho Novo, mais especificamente na favela do Morro do São João, onde sua família sempre morou. Como toda pessoa que vive em uma comunidade, viu muitas coisas que acredita que foram fundamentais para seu crescimento.

Babi, como gosta de ser chamada, vivia em uma região perigosa, que fazia divisão entre duas facções criminosas rivais. Cresceu em meio a guerras de tráfico, perda de amigos e um olhar muito próximo em relação à violência e desigualdade. Seu objetivo era crescer e sair dali, mas como ela mesma diz: “ainda assim eu fui uma privilegiada lá. Tinha uma família e oportunidade de estudar em boas escolas”. 

Começou a trabalhar de maneira informal aos 15 anos pra ter um mínimo acesso ao que os amigos da escola particular também tinham e ter seu dinheiro sem precisar depender dos pais. Estudou com bolsa de estudos em bons colégios da região e isso, de certa forma, a deixava ainda mais desconfortável ao voltar pra casa. “Queria que todos os meus amigos tivessem o mesmo aceso que eu tinha”.

De certa forma, também foi um motivador pra ajudar outras pessoas por lá. “Eu dei aula para os pedreiros da minha avó, para o meu vizinho que era completamente analfabeto e, por um tempo, para algumas crianças da minha vila. Isso me fazia muito bem, era uma forma de retribuir a oportunidade que eu tinha e eles, não.

O dia que o meu vizinho, que era porteiro, leu a primeira notícia de jornal, chorou ele de um lado e eu do outro. Nunca vou esquecer o ele me disse: uma pessoa que não sabe ler é uma pessoa cega”.

 

 

Babi já fez de tudo um pouco em relação a trabalho, a veia do marketing vem desde cedo: aprendeu a fazer sabonetes e óleos, vendeu calcinhas, chocolates, até cordões, tudo com o objetivo claro de juntar dinheiro pra sair da favela e com 20 anos ela conseguiu, já tinha ali seu primeiro emprego na área de Comunicação.

Até lá se dividiu em poucas noites de sono, fez duas faculdades ao mesmo tempo (Jornalismo e Publicidade), chegou a ter dois empregos ao mesmo tempo e pegar 5 ônibus por dia pra dar conta de tudo isso. Nessa matemática, sobravam apenas cinco horas de sono por noite, mas foi assim que seu primeiro plano foi realizado: sair daquela região.

Sua principal ajuda veio quando entrou na faculdade. Babi falou com uma professora das suas necessidades e que precisava de um emprego. Essa mulher foi quem a ajudou a conquistar seu primeiro emprego na área de Comunicação. Para ela, uma mulher inspiradora, sua primeira chefe e que é uma grande amiga até hoje.

Na época em que vivia na comunidade, Bárbara disse que algumas vezes passou semanas sem dormir por conta de invasões da guerra do tráfico. Foi aí que veio a vontade de mudar o que estava a sua volta e ela tem esse objetivo muito forte até hoje. Babi quer poder ajudar o outro, ajudar a mudar o que está ao redor.

“Eu acho que é meu papel furar a bolha. Não vou consertar o que está aí, mas posso influenciar o meu perímetro. Gosto de contratar pra trabalhar comigo pessoas que sei que precisam, pessoas que vivem nos subúrbios, periferias, enfim, que normalmente têm poucas oportunidades, pouca rede.

Mesmo que a pessoa não tenha tantas habilidades técnicas porque não teve grana pra ter ao longo da sua formação os melhores cursos ou escolas, eu mesma não tenho algumas dessas habilidades também por conta disso, sei que o mais importante é ter por perto pessoas que querem fazer acontecer. E eu tive a sorte grande de montar e ter por perto a melhor equipe com a qual já pude trabalhar. Diversidade é um lema pra mim.“

E a Bárbara sabe bem do que está falando. São 14 anos trabalhando com estratégia, conteúdo e criação. Só pra ter uma ideia, ela já trabalhou para Tim, Amil, Niely, O Globo, entre outras grandes marcas, atuando com estratégias digitais.

Em 2013, Babi foi convidada para trabalhar na ArtPlan e montar um núcleo multidisciplinar. Uma área que pensava em projetos especiais, projetos digitais, de conteúdo, gestão de redes sociais e um jeito diferente de fazer propaganda. Foi por conta dessa experiência que, no mesmo ano, se tornou Head Digital do Rock in Rio, atuando em três edições do evento, em 2013, 2015 e 2016, em Lisboa.

“Foi uma experiência incrível, era um trabalho de conteúdo em real time, a gente tinha que falar com as pessoas o tempo todo, 24×7. Foi uma experiência realmente inesquecível, que me trouxe muito aprendizado e juntou duas paixões: a música e contar histórias.”
Por conta desse trabalho, Babi recebeu um convite para ir para a FCA, em 2017, para atuar na mudança cultural que estava acontecendo na empresa. A ideia era ajudar a disseminar nas redes sociais das marcas do grupo, um olhar multiplataforma para o storytelling dos projetos de conteúdo.

Foi assim que montamos o CRIE, o Núcleo de Conteúdo, Realtime, Insight e Engajamento da FCA. Eu cuido da parte de Conteúdo e Criação, tem uma pessoa Responsável por mídia e outra por Performance. Juntos somos um time incrível. Ganhamos muito em agilidade, inovação, entrega, qualidade, enfim, em todos os sentidos. Essa operação completou um ano este mês com os melhores níveis de engajamento pra Fiat e Jeep, tem sido um grande desafio.”

Sobre o mercado automotivo, Babi acredita que esse é um dos setores que mais teve dificuldade em fazer a transição, a colocar mais mulheres no mercado e que ainda pena um pouco nesse processo.

 

 

Ter personagens como eu e tantas outras mulheres na indústria, é sinal de que as coisas estão mudando. Temos poucas mulheres em cargos de liderança no setor automotivo como um todo.

 

Recentemente, participei de uma reunião onde tinham 37 homens e 4 mulheres. Me deixa feliz perceber que a FCA está trabalhando em uma política de equidade de gênero e visando ter equilíbrio nas funções dentro da empresa, ter mais mulheres na tomada de decisões desse mercado. Nada mais natural, mesmo porque várias pesquisas mostram que as mulheres escolhem o carro da família, possuem papel fundamental na compra do veículo, adoram dirigir… temos que falar com essas mulheres.

Já foi o tempo em que futebol, política, carro e cerveja eram assuntos masculinos. Na verdade, nunca foram. Como mulheres, também temos o poder de falar sobre qualquer assunto e ocupar espaços. O setor automotivo também está mudando, não é rápido, mudar cultura é difícil, mas estamos caminhando pra isso porque é um caminho sem volta e mais do que necessário.

Criamos recentemente junto com o RH, um grupo pra discutir questões de gênero dentro da empresa. Vejo que estamos no caminho certo quando ouço do presidente a preocupação de como e em qual contexto as mulheres estarão representadas na nossa comunicação. E ele faz questão de que estejamos no processo criativo”.

 

 

Babi diz ainda que já sofreu muito preconceito, principalmente por ser uma mulher jovem ocupando cargos de liderança. “Quando você chega cedo nestes espaços, tem que provar todo dia porque está ali. As pessoas ainda criam um estereótipo a seu respeito, te taxando como nerd, que só vive pro trabalho, é infeliz… como se fosse apenas essa a justificativa pra você estar naquela posição.

Mas, quando um homem jovem ocupa altos cargos, eles são vistos como prodígios. Mulheres não ouvem esses adjetivos, você é sempre a brava. Já viu alguém chamar algum homem de bravo e alguma mulher de prodígio?”

Ainda falando sobre diferença de gênero no mercado de trabalho, na primeira semana na FCA, Babi disse que um colega de trabalho subiu no elevador com ela e perguntou se era a nova estagiária. Educadamente ela disse que não, e o que fazia ali. Mesmo tendo um cargo maior do que essa pessoa, ela acredita que a pergunta surgiu porque esse é o lugar que os homens conseguem enxergar as mulheres. Eles ainda não veem mulheres jovens como líderes. “Infelizmente é cultural”.

Na FCA, Babi está realizando um trabalho incrível e diz que os resultados estão cada vez melhores, especialmente porque as mulheres têm empatia com as marcas da companhia. “Quando fazemos ações que envolvem a participação do público, as mulheres se interessam muito. Um dos pontos fortes da nossa área é criar histórias que as pessoas querem ouvir e muitas vezes essas histórias surgem da interação dessas pessoas por meio das mídias. É muito gratificante.

Quando fazemos uma ação como o Jeep Experience e levamos as pessoas para viverem essa experiência, elas falarão por nós o que é ter espirito off road, o significado do que a marca diz ser, e isso se torna um conteúdo genuíno, criado com essas pessoas. O engajamento surge com empatia, ninguém se engaja com algo no qual não se reconhece, não se sente representado.

Nas mídias sociais, a gente concorre com feed de família, o gatinho fofo, a crise política, o meme da semana… são muitas coisas disputando a atenção das pessoas, e eu sou só mais uma marca querendo falar com elas. Tentar entender o que o consumidor quer, o que ele fala e voltar com a história que conversa com o que ele quer ouvir de nós, é o mínimo que podemos fazer.

As redes sociais nos ajudaram a estar mais próximos do consumidor de uma forma que faça mais sentido pra ele. O carro não é só uma ferramenta que te leva aos lugares, mais do que isso, conta histórias do que você vive por meio dele. Seja numa conversa com o filho na hora de levar pra escola, as viagens com os amigos, o tempo com a família. O carro é um lugar para encontros e conversas memoráveis e é isso que o nosso público quer ver.”

Já deu pra perceber que a Babi é uma mulher que faz acontecer, né? Claro que o que não faltam pra ela são Planos e ela dividiu tudo isso com a gente. “São tantos… quero, sem dúvida, abrir portas para que outras mulheres, principalmente as de periferia, alcancem seus planos. Se eu não posso interromper essa realidade, que pelo menos eu seja o acesso pra que essas pessoas entrem. Se as portas estão fechadas, eu quero abrir. Outro plano é ver mais mulheres na tomada de decisões dentro das empresas.

Como profissional, meu plano é ser alguém que faz a diferença tanto para a empresa como para as pessoas que estão comigo. Se eu puder fazer uma diferença mínima ou causar um mínimo de impacto que seja para o que está ao redor, esse é o plano! É muito melhor trabalhar num ambiente com pessoas que você gosta. Procuro criar essa ambiente, de alguma forma.

Quero ser rede para outras mulheres, ser inspiração e ser elo para que possamos fazer uma mudança positiva no mundo. Simplesmente poder ser. Poder levar adiante o que acredito, poder ser respeitada pelo que faço.”

Para as mulheres que estão aí na luta para ocupar espaços, para fazerem acontecer, independentemente de sua área de atuação, a Babi contou pra gente que uma das dicas que ela quer dar às mulheres, veio de uma amiga:

“É uma frase que uma amiga me falou  uma vez e que gosto muito: Não devemos perder nossa capacidade de ser mulher. Crescemos e entramos em ambientes de culturas extremamente masculinas e muitas vezes as mulheres tiveram que se masculinizar para ocupar esses espaços. Cansamos de ouvir ‘tem que botar o pau na mesa’, mas não é isso, se for pra botar, vai ser outra coisa, não tenho pau (risos)… não vou me masculinizar pra ocupar espaço nenhum.

Devemos ocupar espaço representando aquilo que a gente realmente é, representando o que faz a gente ser mulher, o que faz a gente ser diferente, sentir diferente e não se adaptar a um determinado padrão ou deixar as suas crenças de lado pra se adequar ao que o mundo ou trabalho pede pra você.

Não é fácil, ainda não ganhamos o mesmo que os homens, demoramos a ocupar os mesmos lugares que eles. Tem muito homem que se acha tanto, sem ser, enquanto muitas mulheres maravilhosas se questionam todo dia se são boas o suficiente. Precisamos acreditar mais na nossa força, na força do feminino. A gente cresce quando cresce juntas, ocupamos quando vemos outras mulheres ocupando espaços. Precisamos nos unir mais para poder conquistar. Depois as coisas fluem, acontecem.”

Que inspiração a Babi! Os planos dela são o desejo de muitas mulheres. Vamos juntas ocupar espaços, ajudarmos umas às outras a subir, a ganhar destaque. Vamos fazer a diferença e mostrar pro mundo o quanto somos fortes.

E você, tem uma história de uma mulher inspiradora pra contar pra gente? Você é essa mulher poderosa? Manda pra gente, então, essa história pro nosso e-mail elatemumplano@planofeminino.com.br, que queremos compartilhar mais histórias incríveis por aqui!

Kelly Sá

Amante da arte, das palavras. Adora crianças, cachorros e gatos. Formada em Letras, adora trabalhar com conteúdo, fazendo das palavras o seu brinquedo preferido.