Netflix: Transição capilar virou tema em Hollywood – finalmente!

Alisamentos violentos ainda na infância, a cobrança que outra geração de mulheres negras sofreu para se igualar aos padrões de beleza europeus e como isso é passado para outras gerações, o dia a dia cansativo de se manter um cabelo liso não natural, as dores de um processo ao qual precisamos passar para, finalmente, encontrarmos uma identidade.

Histórias de transição capilar têm muitas camadas e não são fáceis de narrar. Mas o filme da Netflix, Felicidade Por Um Fio – comédia romântica dirigida por Haifaa al-Mansour e lançada pela Netflix no último fim de semana – fez a tarefa parecer muito fácil com um roteiro leve, divertido e motivador, mas que não toma riscos ou se aprofunda demais, para não errar no tema.

Talvez esta facilidade seja por conta das fontes: o livro de Trisha R. Thomas, no qual o filme da Netflix é baseado, e no fato de que transição capilar já não é mais, há muito tempo, assunto tabu ou novidade entre mulheres negras e está por toda a internet, na voz de mulheres negras.

Tendo tantas referências e histórias contadas, o filme narra a jornada da publicitária Violet Jones (Sanaa Lathan) dando check em todas as mensagens que o movimento por beleza natural das mulheres negras querem passar. Talvez o único incômodo venha dos pontos de vistas masculinos, tão grosseiramente submetidos à história da protagonista, mas o roteiro consegue salvá-la já na reta final, fazendo a sessão valer a pena.

No começo, é difícil gostar de Violet Jones. Ela é uma reprodução ambulante de todas as normas mais chatas ditadas pela sociedade, as quais ela absorve diretamente da mãe (Lynn Whitfield) obcecada por aparência e por casamentos e do namorado bonitão (Ricky Whittle) e suposto bom partido. Ela nos é apresentada como uma executiva de publicidade que é irritantemente perfeita em se comportar, embelezar e vestir como uma típica mulher branca.

Violet trabalha para conquistar uma vida que acredita ser perfeita – o amor e aceitação de um homem inclusos no pacote – e quando ela ganha um filhotinho de cachorro ao invés de um anel de noivado, suas crenças desmoronam e ela cai em surto, onde concentra seu ódio no que mais lhe dá trabalho em manter perfeito: seu cabelo.  

 

As mudanças no cabelo de Violet nunca demonstram quem ela é, mas sim os ideais que a sociedade e a mídia colocam sobre as mulheres. Quando ela usa uma peruca, torna-se a versão ultracomportada dela mesma. Quando vira loira, decide ser sexy. É uma pena que, quando raspa a cabeça, a associação imediata seja um momento de loucura e frustração.

 

Eu entendo demais a estratégia da Netflix em associar a transição ao desespero por esse encontro consigo mesma, ainda que inconsciente, como no caso de Violet. É assim para muitas de nós. Mas a conversa já avançou suficiente para podermos passar essa mensagem de maneira mais positiva e pé no chão. Considerando principalmente que as transições capilares agora, apesar de ainda serem processos difíceis de maneiras diferentes, são decisões tomadas cada vez mais, racionalmente.  

Ainda assim, vale a pena vê-la evoluindo depois do Big Chop, como se chama o corte que elimina todo o cabelo alisado, forçado. O momento rendeu uma cena forte protagonizada por Lathan e momentos de evolução para a personagem: ela repensa sua carreira, seus relacionamentos e crenças. Para a audiência, parece que aquele vai ser o momento da jornada da heroína em que teremos o desenrolar das descobertas: quem é Violet fora das expectativas dos outros?

 

 

Esse momento, porém, é interrompido por outros personagens: Will (Lyriq Bent), um cabeleireiro sexy que prega a beleza natural, e sua filha Zoe (Daria Johns). Na verdade, é Will que fica no caminho do descobrimento de Violet pois, sem admitir, ele também tem seus próprios padrões, apesar de não serem os mesmos da mídia.

Com poucas interrupções de Violet para que possa se colocar, Will fala sobre a dor das mulheres negras como se fossem dele. Em certo momento, ele compara o alisamento de cabelos crespos – que podem ser uma escolha das mulheres e pode também ser feito de maneira saudável – como o abatimento de um animal.

Com a volta de Clint e a tentativa de tornar Violet perfeita novamente, Will acaba parecendo se tornar o par romântico ideal para o final da trama. Entretanto, a verdade é que o par ideal seria a própria personalidade de Violet, ainda perdida no fim da trama, e assim ela seria salva de mais uma prisão do olhar masculino – assim como a mãe dela é prisioneira do próprio olhar.

No fim das contas, a Netflix consegue entregar um filme necessário depois de tantos anos de conversas sobre cabelo natural entre mulheres negras, mas permanece no básico da narrativa, sem se desdobrar a personagem principal para que ela não perca o apelo de identificação com o público alvo do filme. Felicidade Por Um Fio joga em um campo seguro de representatividade e diverte na medida certa.

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.