Racismo infantil: como evitar o preconceito logo na primeira infância

O Brasil é um país de maioria negra, que hoje representa 51% da população, segundo dados do IBGE. Apesar disso, os negros continuam sendo vítimas constantes de discriminação racial, que já começa a dar seus primeiros sinais ainda na infância.

Entre os vários casos de racismo que acontecem diariamente, um que aconteceu em maio deste ano, merece destaque. A empresária e youtuber Ana Paula Xongani, viu sua filha de 4 anos ser vítima de racismo e desabafou nas redes sociais, ganhando uma grande repercussão:

“É muito triste ver a sua filha sendo rejeitada! Mesmo antes de dizer ‘Olá!’. Ela chega perto e todas correm, ela se aproxima, e todas as outras se agrupam, ela chama e ninguém responde. Isolam-na, excluem-na, machucam-na”. Ana Paula ainda fez um vídeo falando sobre como é difícil enfrentar o preconceito desde criança.

 

 

A escola, como um dos primeiros ambientes de convivência entre crianças, é um dos lugares onde a criança negra mais sofre racismo. Lá, pode escutar insultos relacionados às suas características físicas e ser ainda excluída de brincadeiras, desprovida de amizades e isolada socialmente. Esse desgaste, porém, pode ser evitado por meio da ação de pais e educadores comprometidos em não alimentar o preconceito entre os pequenos.

 

O papel do adulto

É importante que o adulto, tanto pais como escola sejam agentes de transformação para a criança. É importante que os pais e cuidadores tanto de crianças negras como brancas começar a dialogar por meio de materiais que valorizem todas as raças e isso pode ser feito por meio de histórias, vídeos, ou ainda citar alguma situação que já tenha acontecido com alguém próximo relacionado ao preconceito racial, mostrando soluções e os pontos positivos da diversidade.

Os pais devem investir um tempo nessa conversa. As crianças às vezes questionam e os pais evitam falar sobre o assunto, o mais importante é estimular o respeito às diferenças.

A psicóloga Lívia Marques diz que uma boa idade para iniciar essa conversa é a partir dos 2 anos, porque é quando a criança aprende a falar e se expressar. “Mostre à criança bonecos e livros com personagens negros. Apresentar referências, nesta fase, é essencial para evitar qualquer tipo de comportamento racista.”

Para a a psicopedagoga Danielle Barreto, essa conversa aberta entre pais e filhos é essencial para evitar situações de racismo infantil. “Os pais devem estar atentos. Vivemos em uma sociedade diferente e diversa, por isso, seja exemplo para seus filhos. A criança só será racista, se perceber que as pessoas ao seu redor têm esse comportamento. Não tem hora nem idade, a conversa é a melhor solução. Fale sobre as diferenças étnicas, sobre a beleza dos diferentes tipos de cabelo e cor de pele.

 

Valorize a cor de pele mais escura. Além disso, estimular o uso de bonecos de diferentes raças é uma forma de estimular essa criança para a diversidade. Conte histórias interessantes sobre a cultura do povo negro, dê estímulos, porque só assim seremos agentes transformadores.”

 

 

 

Como saber se a criança é vítima de racismo

Não são todas as crianças que falam quando são expostas a uma situação de preconceito. Mas, ainda assim, é possível perceber que há algo errado quando a criança apresenta mudanças no comportamento como ficar mais calada, ter problemas para dormir ou não querer mais dormir sozinha, nervosismo, excesso de transpiração, perda ou aumento de apetite ou desinteresse em ir à escola.

Caso perceba alguma dessas situações, vale a pena procurar a escola para saber se a criança está sendo discriminada.

 

O papel da escola no combate ao racismo infantil

A escola é o espaço de maior socialização da criança e também é onde costumam acontecer situações de preconceito, de racismo infantil. Por isso, o papel da escola é essencial no combate ao preconceito.

A psicóloga Lívia diz que um ponto importante para a transformação é trazer para a sala de aula, a cultura afro. “Nossa cultura social considera que tudo que vem da cultura africana é primitivo. Músicas do candomblé, umbanda, rap, islã, tudo isso as pessoas enxergam com um olhar o primitivo.

 

Há escolas que fazem um movimento diferenciado, mas ainda são poucas. Uma das soluções é levar para a sala de aula livros didáticos voltados para a cultura negra, que mostrem Mandela, que falem da África do Sul, dos deuses da Paió, por exemplo. É importante que a gente fale da escravidão, mas contando seu olhar da história, como ele veio parar aqui, como os ancestrais deles eram tratados.

 

Quando estudamos história, vemos negros sendo chicoteados, em navios negreiros, mas poucos questionam o que realmente aconteceu, precisamos pensar nos negros como pessoas e contar suas histórias dentro da sala de aula.”

A psicopedagoga Danielle Barreto completa dizendo que o papel da escola é discutir a questão da diferença, da diversidade, formando, assim cidadãos melhores. “O papel da escola é mostrar que não existe diferença. Apresentar brincadeiras, jogos, reportagens, no caso de crianças maiores. Já para os pequenos, uma ideia é começar a trabalhar com a questão do lápis de cor chamado ‘cor de pele’, explicando que existem vários tons de pele diferentes e que essa diversidade é positiva. É importante formar com os alunos o que a escola pensa e qual o papel das crianças como cidadãos.”

 

 

Como a escola deve agir em caso de racismo infantil

A escola deve, em primeiro lugar, chamar a família das crianças envolvidas e conversar, separadamente, com cada uma delas e apresentar ações para melhorar o convívio entre os alunos. É importante dizer o que não pode ser falado para alguém, ressaltar suas características, não invalidar a dor de quem sofreu o preconceito, nem a opinião da criança que ofendeu, porque o que diz, é porque ouviu em algum lugar e ela apenas reproduziu aquilo que escutou.

Os professores precisam estar preparados para trabalhar a diversidade e inclusão. Realizar trabalhos relacionados à diversidade, representatividade. O coordenador e diretor, devem levar essas questões para os professores para que eles saibam agir no momento certo”, diz a psicóloga Livia Marques.

Agir em casa e na escola é importante para evitar e acabar com o racismo infantil. Os adultos são referências para as crianças e o exemplo deve partir deles, especialmente apresentando personagens, brincadeiras, brinquedos, contando histórias que tenham negros dentro do contexto e mostrar como essa diferença é bela e natural.

Para começar a trabalhar nesse contexto com as crianças, separamos aqui alguns materiais recomendados pelas especialistas Livia Marques e Danielle Barreto para serem trabalhados com as crianças, mostrando a elas o valor da diversidade:

 

Livros:

O Mundo no Black Power de Tayó – Editora Peiropolis

Zekeyê vai à escola – Editora Scipione

Caderno de Rimas da Maria e Caderno de Rimas do João, de Lázaro Ramos – Editora Pallas

Livro Menina bonita do laço de fita – Editora Ática

Meu crespo é de rainha – Editora Boitatá

Ana e Ana – Editora DCN

A África de Dona Biá – Editora Cedic

Siara descobre a África – Editora EDB

 

Filmes e desenhos:

Princesa Tiana

Meu Amigãozão

Doutora Brinquedos

Nella, uma princesa corajosa

 

 

 

 

 

 

Kelly Sá

Amante da arte, das palavras. Adora crianças, cachorros e gatos. Formada em Letras, adora trabalhar com conteúdo, fazendo das palavras o seu brinquedo preferido.