Setembro amarelo: saiba como identificar os sintomas da depressão e como ajudar

A depressão é uma doença muito séria, que chega sem avisar. Pode começar com uma tristeza, uma vontade de chorar sem motivo, um profundo desânimo, falta de vontade de sair de casa e quando você vê, parece que nada na vida parece fazer mais sentido.

E não, não é frescura. A depressão é considerada uma doença mental afetiva, que tem como características a tristeza constante e sintomas de negatividade que podem tornar a pessoa incapaz de realizar atividades de rotina como trabalhar, estudar ou se divertir.

Para ter uma ideia da gravidade da situação, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), até 2020 a depressão será a principal doença mais incapacitante do mundo. Hoje, mais de 120 milhões de pessoas no mundo sofrem com a depressão.

Só no Brasil acredita-se que mais de 17 milhões de pessoas têm depressão e aproximadamente 850 morrem por ano. Nosso país está está em primeiro lugar no ranking latino-americano da depressão e em quinta posição no mundial.

É por isso que é essencial falarmos sobre o assunto, porque muita gente ainda considera um tabu. Por isso, convidamos a psicóloga Livia Marques, pra falar um pouco mais sobre a depressão, como identificar e como podemos ajudar quem está nessa situação.

Para a especialista é importante abordarmos o tema com responsabilidade, porque quem sofre com a doença realmente precisa de ajuda, que começa pelas pessoas próximas. “Depressão, suicídio, ansiedade, nada disso é frescura. A sociedade tem uma cultura de achar que depressão é doença de rico ou frescura. É comprovado que isso faz com que a pessoa tenha um sofrimento mental que, dependendo do nível do transtorno, vai precisar de acompanhamento médico, psicológico. A gente precisa saber que é verdade. Pessoas morrem por isso, é algo muito sério.”

 

Lívia Marques é Psicóloga organizacional e clínica, com foco em Terapia Cognitiva Comportamental.

 

O suicídio é a segunda maior causa de mortes de jovens entre 15 e 29 anos, perdendo apenas para as mortes por violência e acidentes. A psicóloga diz que chegar ao ato extremo do suicídio pra quem sofre com a depressão tem um motivo:

“Quem tenta o suicídio, tenta acabar com o sofrimento, com uma dor que essa pessoa sente. Na maioria das vezes, ela já tentou conversar, buscar ajuda de pessoas próximas, mas mesmo assim não conseguiu acabar com esse sentimento que pra ela, é uma dor sem fim, porque não consegue entender o que está passando e, por não suporta mais a dor, ela chega a esse ato extremo.”

Lívia diz ainda que algumas vezes as pessoas ao redor podem ter dificuldade em identificar um pedido de ajuda. Muitas vezes ela vem de forma muito sutil, porque quem está sofrendo com a depressão pode ter dificuldade de falar diretamente sobre o assunto, então os sinais podem vir por um determinado comportamento ou alguma fala que as pessoas não percebem.

 

“É importante que essa pessoa tenha um ombro pra ouvir de forma empática, sem julgamento e ir em busca de ajuda profissional, de um psicólogo. As pessoas que cometem suicídio são pessimistas, acham que nada vai dar certo.”

 

 A cada 45 minutos há um suicídio no Brasil, de acordo com a OMS. A psicóloga acredita que a nossa sociedade está adoecendo porque há um nível de cobrança altíssimo sobre quem elas devem ser, o que elas devem alcançar. Hoje, com o avanço da tecnologia, tudo acontece muito rápido e isso pode ser um fator que leva as pessoas a se cobrarem demais e ficarem doentes.

“O julgamento acontece o tempo todo, é tudo muito rápido. Vivemos também uma situação muito ruim no país de descrédito, de intolerância, e estamos adoecendo por isso. O brasileiro é um povo muito alegre, mas vivemos situações ruins como sociedade que acompanhamos por meio de notícias e isso chega em um ponto que não conseguimos suportar”, completa Lívia.

Quando fazemos o recorte por raça, o número de suicídios de pessoas negras é de aproximadamente 4,7% e, para Lívia, o racismo contribui muito para que isso aconteça. 

 

“Agora que estamos falando muito mais sobre raça do que antes e ainda assim encontramos resistência e esse é um dos fatores que contribuem para questões psicológicas porque as pessoas tentam nos invalidar o tempo todo.

 

 

O negro, infelizmente, ainda está em situação de trabalho e educação ainda precários. Quando conseguimos chegar à universidade, nos deparamos com a questão de cotas que me parece uma respostas imediata a todo um sistema de educação que é muito ruim. Quando olhamos as escolas públicas nas comunidades, ainda vemos um povo que é muito marginalizado e isso pode trazer consequências psicológicas.”

A psicóloga completa dizendo que nas populações mais pobres é muito difícil chegar informação a respeito da saúde mental, porque a saúde pública não é de qualidade e, com isso, o atendimento psicológico, a informação adequada sobre transtornos mentais também se torna precário:

 

Como vamos entender que essas pessoas estão sofrendo uma depressão, um estresse? Essas pessoas não têm acesso ao tratamento, elas acham que é assim mesmo, que essas coisas simplesmente acontecem. O negro sofre muito com essa questão e sequer sabe o que fazer quando está em uma situação de ansiedade, estresse, depressão.”

 

 

 

Para saber como identificar caso alguém próximo esteja sofrendo com depressão, a especialista diz que há alguns comportamentos comuns que podem ajudar a família e amigos saberem quando é a hora de procurar ajuda médica.

“Pessoas que estão com ansiedade e depressão costumam dizer que querem sumir, que a vida não tem propósito. São pessoas melancólicas, que oscilam muito o humor, hora está muito bem, hora em um estado grande de desânimo e tristeza. Elas também costumam ser pessimistas e acham que nada vai dar certo.”

Para lidar com essa situação tão delicada, Lívia diz que é importante ter o apoio da família e principalmente saber ouvir sem julgamento, porque a pessoa que está em depressão já se julga, se cobra demais e se fizer isso, há uma grande chance de piorar a situação. A família e os amigos devem estar juntos na busca por um psicólogo, para que ela se sinta acolhida nesse momento.

Pra finalizar, a psicóloga dá algumas dicas para que você saiba como agir quando identificar que tem uma pessoa querida que está passando por depressão e quer ajudá-la a sair dessa situação.

 

  • Não julgue – nunca julgue as pessoas, elas já são julgadas e cobradas diariamente.
  • Tenha uma escuta empática – se coloque realmente no lugar do outro. Você pode dar um abraço, nem precisa falar nada. Às vezes a pessoa só precisa de um olhar e um abraço honesto e a gente não percebe o quanto isso é importante na vida do outro.
  • Esteja disponível – Disponibilidade não é só vamos marcar pra conversar. É realmente estar ali, é dizer que sabe que aquela pessoa não está bem, se colocar à disposição pra ajudar realmente. É agir mais do que falar.
  • Respeite o espaço do outro – Pode ser que essa pessoa não queria se abrir com você naquele momento. Pode ser que já tenha uma outra pessoa de confiança com quem ela se sinta mais à vontade pra conversar, o importante é respeitar se ela não quiser falar.
  • Busque atendimento psicológico – Procurar ajuda médica é essencial. Acompanhe a pessoa nessa busca, vá com ela às consultas, esteja presente. O importante é que ela busque esse atendimento e se sinta acolhida.

Depressão não é só coisa de rico, como se ouve ainda dizer por aí. É uma doença que não escolhe classe social, pode acometer qualquer um, em qualquer idade. O tratamento com o psicólogo é importante porque ajuda a pessoa a trabalhar melhor os pensamentos e, com isso, ela aprende algumas técnicas pra aplicar no dia a dia que vão trazer melhor qualidade de vida e fazer com que ela saia dessa situação.

“Depressão não é frescura, pode acometer qualquer um. Não encare isso como uma bobagem, porque pode agravar. Fazer terapia é um tratamento para pessoas corajosas, que procuram qualidade de vida, pra que possamos construir uma estrutura social mais saudável.”

Nem todo mundo sente a mesma dor do outro. Só o dono da dor sabe o quanto dói. Mas você pode estar lá pra dar um abraço sincero, que pode fazer uma diferença incrível. Olhe para a pessoa com carinho, com amor. Busque auxílio, tratamento com essa pessoa, porque às vezes ela não tem força pra fazer isso sozinha, mas com alguém por perto ela pode se tornar cada vez mais forte.

 

Sobre Lívia Marques

Psicóloga organizacional e clínica, com foco em Terapia Cognitiva Comportamental.
Formada no Centro Universitário Celso Lisboa e MBA em Gestão de Pessoas pela Veiga de Almeida, a profissional Lívia Marques possui experiências nas áreas hospitalar, escolar, organizacional e Clínica.

Lívia tem mais de nove anos de experiência na área clínica com atendimentos focados em Terapia Cognitiva Comportamental. Oferece atendimento à crianças, adultos e adolescentes. Atua como palestrante, consultora e professora em cursos na Empresa Psigente onde é Sócia Diretora e é professora da Escola de Negócios das Faculdades São José.

Kelly Sá

Amante da arte, das palavras. Adora crianças, cachorros e gatos. Formada em Letras, adora trabalhar com conteúdo, fazendo das palavras o seu brinquedo preferido.