A masculinidade só está em pauta porque ela mata, lembre-se disso

Este ano eu escutei uma conversa de um homem com outro, pois estávamos dividindo o mesmo carro. Na conversa ele disse que não concordava e não aceitava os debates levantados pelas mulheres negras sobre os homens negros, disse que era um homem negro, casado, pai presente e que via mulheres jovens gritando que os homens negros eram abusivos e abandonavam filhos, mas não se reconhecia nisso. No fundo por ele não ser nocivo, acreditava que as mulheres estavam exagerando.

Pensei em responder, mas é difícil responder quando as falas das pessoas deixam evidente que elas não acreditam na existência da opressão de gênero. Muitos homens negros héteros acreditam na violência racial, que de fato existe, então provavelmente se incomodariam se um branco dissesse: nem todo branco é culpado pelo racismo, afinal, têm bons brancos que se comportam de forma humana e digna para com sujeitos negros. Mas eu sei que um debate estrutural não se faz nas vivências de poucos e sim na análise de uma conjuntura que aponta que o Brasil tem mais 11,6 milhões de “mães solteiras” segundo o IBGE, e segundo o Instituto Data Popular esse número sobe para 20 milhões, números que se complementam com o fato de que o país tem mais de 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro.  

Então, com base em dados reais, faz sentido sim mulheres estarem gritando e com raiva. A questão é por qual motivo incomoda mais os gritos de dor, do que os fatos que causam essa dor?

Existe muita mulher tendo sua vida cerceada e criança se tornando vulnerável na ausência do pai. O problema é que infelizmente vivemos tempos em que as pessoas negam dados conforme seus interesses, é cansativo ser uma mulher negra no Brasil, mas é doentio ser feminista negra no Brasil. É totalmente violenta a forma como toda e qualquer discussão levantada por nós, feministas negras, passa nos ouvidos de muitos e sai do outro lado como se não fosse nada, tanto de feministas brancas, que continuam nas suas práticas racistas, quanto de homens negros que mantêm suas lógicas de masculinidade nociva, e, no que diz respeito a homens brancos, esses continuam detendo todo o poder para si.  

 

 

Já tive debates absurdos e calorosos com homens negros héteros que querem “disputar” quem sofre mais, se esquecendo do mero detalhe que eles estão morrendo nas mãos do Estado assim como nós, mas que apenas nós correspondemos aos dados de 1,5 milhões de mulheres negras violentadas dentro de suas casas por conhecidos. Sendo assim, têm mãos que matam e morrem. E têm mãos que criam, educam, amam e morrem. Muitos homens negros apanham da polícia da porta para fora, e dentro de suas casas alguns batem em seus filhos e parceiras, afinal, não são só parceiros brancos que fazem as mulheres negras serem as maiores vítimas de violência doméstica do Brasil, representando 60% das agredidas por pessoas conhecidas no país que a taxa de feminicídio é a QUINTA maior do mundo.

Por isso eu escrevo esse texto no mês de novembro, acredito que para ter consciência racial, é necessário  ter consciência de gênero.

Deveríamos estar caminhando, nós negros, no debate sobre masculinidades, mas ele não caminha pois ninguém escuta as mulheres que dizem coisas que não são confortáveis. Continuamos querendo fazer revolução sem sair do nosso lugar confortável no privilégio de gênero. É impossível a emancipação negra sem uma nova construção de papéis de gênero. O racismo existe e não nego que ele pauta nossas escolhas e individualidade, mas é impressionante a fuga de um debate mais sério sobre questões de gênero dentro das comunidades negras. Sempre que esse assunto surge, alguém diz: mas na África existe o matriarcado. Como se ainda estivéssemos há 500 anos vivendo na África, e não após uma diáspora forçada num país racista feito na base do trabalho escravo dos nossos, em que o processo da escravidão mudou muitas de nossas relações pessoais.

Se a escravidão nos fez coisas, ela também reformulou nosso olhar sobre nós mesmos de forma que muitos ainda se veem como escravos reprodutores, e as mulheres negras como cuidadoras, “mães pretas”, solitárias e claro, um objeto que em relação a mulher branca tem um “status diferente”. Eu não tenho a menor pretensão de impedir homens negros de se relacionarem com mulheres brancas, mas eu tenho razão ao perceber que para muitos a mulher branca não é uma pessoa, e sim uma coisa que eles querem ter acesso achando que com isso vão estar mais próximos do seu ideal que é ser um homem branco. E na sua tentativa de perfomar até chegar a esse lugar, muitos vão deixando um rastro de destruição de abusos para com mulheres, filhos, familiares, lastro de violência psicológica, violência física e negação da sua responsabilidade na manutenção do racismo nessa quantificação do valor de mulheres a partir da sua identidade racial.

 

 

É muito cansativo a forma como nós, mulheres negras, estamos sujeitas à violência de homens negros héteros, não só a violência física, mas a negação constante da nossa existência. Até quando se colocam para debater masculinidades como presenciei recentemente, esses homens são capazes de falar que querem namorar mulheres brancas, do que rever padrões nocivos implícitos no que é ser homem numa sociedade patriarcal. Leio muitos textos escritos por homens negros sobre masculinidade e percebo que falam muito de si enquanto vítimas, buscando inclusive justificativa para seus atos, mas se esquecem de falar o que homens causam. Poucos se lembram que os índices de violência contra mulheres negras aumentam, enquanto o índice em relação a mulheres brancas diminuem, que na geração de mulheres grávidas na infância e adolescência pobres e negras se tornam estatísticas sendo a maioria daquelas que nem trabalham, nem estudam. Além disso, a mortalidade materna entre mulheres negras só aumenta, assim como somos as maiores vítimas de abortos clandestinos.

Isso não é só um problema de mulheres. Isso é genocídio também. Isso é ação do estado, do patriarcado, da violência racial. Isso é um problema dos homens negros também.

Mas muitos querem ver só como violência de gênero, outros só como violência racial. Se esquecendo da intersseccionalidade das suas opressões. Se esquecendo que muitos homens negros numa discussão de masculinidade falam muito mais sobre mulheres brancas, do que sobre mulheres negras. Afinal, o que vocês querem? Querem se envolver com mulheres brancas? Por favor, vão! Por favor, vão logo. Vão! Vão e deixem a nossa sanidade mental em paz! Você quer namorar uma mulher branca, namore.

Não quer ser chamado de palmiteiro? Não chamaremos mais, mas só quero lembrar que somos 1,5 milhões de mulheres negras que por ano estão sendo violentadas. É violento sair com meu namorado, chegar um garoto negro na nossa mesa, começarmos a debater padrões de masculinidade e ele começar a falar como é apaixonado por uma mulher branca. Por que quando falamos de masculinidade muitos homens negros só querem falar que possuem o direito de namorar mulheres brancas? Para mim, parece que nós, mulheres negras, e toda a toxidade da masculinidade que é jogada em cima de nós, não existimos. Por incrível que pareça desde que meu namorado começou a falar de masculinidades, homens vêm buscar um aval, mesmo na minha frente, para abandonarem seus filhos, ou dizer que negras são difíceis demais e que não topam os mesmos acordos que mulheres brancas.

 

 

Me sinto extremamente ofendida com tais condutas, pois me sinto invisível.

SOLIDÃO DA MULHER NEGRA não é sobre ter um “homem do lado” e sim sobre como mulheres negras são vistas como cidadãs de segunda classe até mesmo por homens negros, sendo assim desrespeitadas e agredidas por seus semelhantes.

Se você acha violento ser apontado pelas suas escolhas, imagina como é ser invisível para alguém que é semelhante! Fico impressionada como a “categoria” palmiteiro, uma gíria idiota, preocupa mais aos homens negros do que o fato que nós mulheres negras somos as maiores vítimas de violência doméstica NESTE PAÍS!!! A nossa morte vale menos que a suposta ideia de uma censura, que nunca de fato existiu. Namorem quem vocês quiserem! Namorem! Casem! Façam filhos! Mas parem de matar mulheres psicologicamente e fisicamente!

Dizem que nossa discussão é mais avançada. Só é mais avançada porque quem estampa matéria de feminicídio somos nós. Só é mais avançada porque quem cria filhos sozinhas somos nós. Só é mais avançada porque quem leva surra do marido depois que ele se vê frustrado na vida pela ausência de poder, somos nós. Quem sofre violência psicológica dos “bons homens”, somos nós. Nós só estamos avançadas na discussão porque somos nós que temos empatia com nós mesmas! 

Às vezes tenho receio da forma como as discussões de masculinidades estão se dando, parece que homens queriam um palco com a desculpa que iriam falar sobre si e suas práticas nocivas. Demos o palco e eles usaram para justificar, amenizar e nos violentar negando, inclusive, o que já tínhamos construídos. Se justificam dando voltas e mais voltas, continuam na tese de que por serem homens negros periféricos suas práticas são essas, ou que por verem suas mães sofrendo, suas práticas são essas, etc etc, se esquecendo que as práticas são estruturais, que essas são corriqueiras em homens que têm seus pais em casa e que moram nas áreas centrais estudando a vida toda em colégios particulares. Uma vez numa mesa sobre um debate de masculinidades, um homem ficou falando alguns minutos sobre a importância do homem chorar, e de como queria levar isso para outros homens. Então uma mulher perguntou: Você fala para eles como é importante eles pararem de nos bater e matar?

Provavelmente nós, mulheres negras, vamos ter que sentar e esperar os homens lembrarem que ELES ESTÃO NOS MATANDO FISICAMENTE e PSICOLOGICAMENTE. E talvez vão dizer que a gente é “chata” demais, mas NÓS estamos aqui lutando por nossas vidas.

Não aguento mais pedidos de desculpas, eu quero saber quando eu vou deixar de ser estatística.

Por favor, falem da sua masculinidade, mas não se esqueça de que ela só é pauta porque ela mata.

 

 

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Lembrando que este texto é direcionado a homens negros, porque realmente acredito neles lutando ao meu lado. Sobre os homens brancos? Desisti da maioria, não acredito ser possível um diálogo aberto enquanto esses estão no topo da pirâmide se negando a realmente refletir e ceder espaço.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.