Bolas, produtos de limpeza e estereótipos masculinos

Que as propagandas estão cheias de estereótipos não é lá muita novidade. Mas a ver homens incomodados com modelos ultrapassados de gênero é.

Esses dias um amigo soltou um comentário aparentemente aleatório: “Você viu aquela propaganda de cerveja das bolas? Ela me tira do sério, é uma das coisas mais revoltantes que já vi”.

Fiquei surpresa. A propaganda em questão não é o cúmulo da inteligência, mas eu imaginava que estivesse bem alinhada com o público masculino consumidor de cerveja. Mas parece que não é bem assim.

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Mais curiosa foi a frase seguinte desse meu amigo: “uma propaganda que diz que o homem de verdade é movido pelas bolas dele? Já não basta a Verão, agora os próprios homens estão sendo estereotipados e vulgarizados. Eu não penso com os testículos!”

Eu fiquei meio sem reação na hora e fui procurar no YouTube o que as pessoas estavam falando sobre o vídeo. Os comentários eram mistos –  a maioria havia adorado e se sentia representado longe do “mimimi politicamente correto”, mas havia sim alguns homens descontentes.

Porém, não tantos quanto os que viram a da Bombril. No canal oficial da marca, o vídeo “Toda Brasileira é uma Diva” já soma mais de 415 mil views desde 31 de julho de 2015 e mais de 500 comentários em discussões acaloradas, além de uma enxurrada de artigos e até piada no site de humor Sensacionalista 

 

Comercial BomBril

Alguns comentários de usuários no mais recente comercial da Bombril postado no Youtube.

 

A repercussão foi tanta que o caso chegou ao Conar, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, com cerca de 15 queixas de consumidores, alegando “discriminação de gênero”, pois consideraram a campanha uma “ofensa à figura masculina”. 

O motivo? Uma comparação feita pela humorista Dani Calabresa “Toda mulher é uma diva e todo homem é “diva-gar”. Não é a primeira propaganda da Bombril a enfrentar essa polêmica. Em 2011, Marisa Orth, Dani Calabresa e Monica Iozzi sugeriram que os homens fossem adestrados para ajudar na casa, pois não seriam seres evoluídos como as mulheres.

Esse também, mal recebido pelo público masculino, com 300 reclamações no Conar – que arquivou o pedido de retirada da campanha.

A Bombril se defende falando que essa campanha foi “estrategicamente desenvolvida para valorizar o protagonismo feminino” e que o vídeo “usa uma linguagem bem-humorada para ressaltar o valor da mulher na sociedade brasileira e não tem a intenção de ofender os homens ao fazer uma brincadeira com a palavra diva”.

O mito do homem incompetente x o anjo do lar

Na época da primeira polêmica, o blog “Escreva Lola Escreva falou um pouco sobre o mito do homem incompetente, usado na verdade para reforçar a tradicional divisão de trabalho dentro da casa, em que o homem precisa de ajuda para tudo, pois seria um “inútil” nas tarefas do lar.

Como bem descrito por Thaís Fabris do 65|10 no seu artigo para o B9, existe aqui uma associação errônea e confusa do empoderamento feminino, como se para empoderar a mulher fosse preciso rebaixar o homem e tratá-lo como um incompetente, incapaz, atrapalhado e guiado apenas por instinto (aquele que ouve as suas “bolas”).

Na verdade, esse discurso em propaganda trás uma mensagem inversa: ele mantém viva a antiguada figura do “Anjo do Lar”, definição da escritora Virgínia Woolf para a imagem idealizada da mulher “extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Que se sacrifica todos os dias.” (Trecho de “Profissões para mulheres”, de Virginia Woolf). Ou seja, se o homem é um incapaz, é fundamental que o Anjo do Lar continue a fazer as tarefas domésticas, para garantir a paz e a convivência. Só que agora o Anjo tem um nome mais moderno: Diva.

O curioso é que as denúncias tratam a campanha como “opressora aos homens”. Na verdade, ela sim ridiculariza homens, mas para manter a opressão de manter mulheres como as únicas responsáveis por tarefas domésticas.

É positivo que homens questionem também sua representação e seus estereótipos na mídia. Pois a desconstrução de clichês sobre o masculino ajuda a repensar aqueles usados para definir o feminino também.