Desconectado da realidade

Uma queixa comum entre as (poucas) mulheres do mercado de TI e tecnologia é que o setor é sexista e discriminatório nas questões de gênero, levando muitas profissionais a desistir da área.

Se havia alguma dúvida sobre isso, o projeto de pesquisa “Elephant in the Valley (o Elefante no Vale, em clara referência ao Vale do Silício e suas inúmeras companhias de tecnologia), traz números e argumentos suficientes para provar que o problema é real, grave e não é tratado com seriedade.

Um dos criadores do projeto, Trae Vassallo, testemunhou a favor de Ellen Pao contra a empresa Kleiner Perkins Caufield & Byers sobre discriminação de gênero. Segundo ela, “mulheres encaram discriminação consciente e inconsciente no trabalho e quisemos juntar dados sobre as experiências dessas mulheres para estimular o debate”

Mais de 200 mulheres foram pesquisadas, com foco naquelas com pelo menos 10 anos de experiência. Mais de 70% dessas mulheres tem mais de 40 anos e 75% delas têm filhos.

São mulheres em posições de influência em suas empresas, sendo que um quarto delas são executivas seniores, 11% são fundadores e 11% são empreendedoras. São mulheres que trabalham em companhias como Google, Apple e startups.

 

Uma dura realidade em números

 

Para uma indústria que deve ser inovadora e com foco no futuro, o mercado de tecnologia se revela extremamente conservador quando o assunto é igualdade de gêneros. Relatos colhidos durante o projeto revelam situações de assédio e discriminação, que quando reportadas pelas mulheres ao departamento de Recursos Humanos, resultaram em demissões sumárias.

Alguns dos resultados da pesquisa:

  • 47% das entrevistadas relataram receber tarefas não relacionadas a seus cargos, como anotar pedidos de comida delivery.
  • 66% disseram se sentir excluídas de eventos de networking e 90% testemunharam comportamento sexista nestes locais.
  • 75% foram questionadas quanto à sua situação familiar e filhos na entrevista.
  • 52% das mulheres decidiu encurtar a licença maternidade por medo do impacto negativo na carreira.
  • 60% das mulheres disse ter sofrido assédio sexual no trabalho.
  • 65% dos assédios partiram de superiores e metade desses se repetiram em mais de uma ocasião.
  • 1 a cada 3 dessas mulheres assediadas disse se sentir ameaçada por causa da situação.
  • 60% das mulheres que denunciaram o assédio sexual não ficaram satisfeitas com as providências tomadas pela empresa.
  • 30% não denunciou por medo e mais 29% assinou um acordo que impunha silêncio sobre o caso.

 

Os números da pesquisa revelam uma realidade de medo e retaliação frequente. Muitas delas são rechaçadas por um preconceito de que mulheres não entenderiam o ambiente tecnológico. Seria “muito complicado” para o gênero feminino.

Uma das perversas consequências dessa visão é a limitação de visão da indústria, que torna difícil para empreendedoras conseguirem investidores para suas startups de tecnologia. Uma perda que afeta ambos os lados.