Julguem homens que abandonam seus filhos, isso diz muito sobre nós

O filme Erin Brockovich ou Uma Mulher de Talento conta a história de uma mulher mãe solteira de três filhos.

 

Já quero começar dizendo algo óbvio e direto: abandono paterno é para além do machismo e de um ideal de masculinidade nociva, tem impactos na sociedade toda então é problema da sociedade toda.

Dito isso já escrevi sobre esse assunto nesse texto, porém quero novamente chamar atenção para essa questão. Já que mais uma vez se espalha as defesas injustificáveis de abandono paterno com justificativas sempre rasas, machistas e convenientes: Não julgue a vida pessoal de alguém.

 

O problema é que o abandono de um homem significa uma mulher sobrecarregada que terá sua vida social, financeira, afetiva, acadêmica e de trabalho, impactadas pelo abandono e uma ou mais crianças/adolescentes/jovens vão crescer na vulnerabilidade emocional, financeira e/ou psicológica.

 

Então isso não é um aborto paterno, homens que abandonam estão deixando filhos que dependem deles para que tenham uma vida digna. Um feto abortado não é o mesmo que uma criança viva negligenciada. Sendo assim, abandono paterno é um problema ESTRUTURAL e não pessoal.

E digo mais, abandono paterno não é uma questão de ter ou não dinheiro para cuidar e gerir a vida desse filho. Homens brancos com recursos financeiros fazem de tudo para pagar valores baixos de pensão, como fingir que não possuem renda, assim como alguns homens pagam a pensão e acham que 200 reais servem para sustentar  filhos e ainda chamam parceiras de interesseiras quando elas pedem reajuste de pensão.

Alguns homens acreditam que com um dia na semana supriram toda a necessidade emocional, psicológica de um filho e que são ótimos pais. Outros ainda usam esse pouco tempo para alimentar na cabeça de seus filhos que são bons e suas mães ruins. Portanto, o modelo nocivo de masculinidade cria um modelo nocivo de paternidade onde homens acham que a responsabilidade de criação de filhos é total da mulher, mesmo quando eles são casados.

É comum inclusive muitos pensarem que a dependência de um filho acaba aos 18 anos, mesmo que ter 18 anos não represente muita coisa, ainda mais quando filhos ainda estão estudando. A pensão, por sinal, pode continuar sendo paga até o fim dos estudos, mas nessa fase, assim como nas outras, estar presente é de extrema relevância pois ainda existe inúmeras formas de dependência e uma delas é a emocional.

A questão é que é muito fácil SEMPRE entender e defender o lado do homem nos seus diversos abandonos. Se um homem abandonou e depois morreu, temos que respeitar o luto antes de falar do abandono. Se um homem abandonou e depois caiu na miséria, temos que respeitar a sua condição e não ser duras na crítica. Se um homem abandonou e arrependeu, temos que compreender seu sofrimento. Se um homem abandonou para ter sucesso na carreira, temos que louvar seus esforços.

 

Volver é sobre mulheres da mesma família lidando com seu passado, assédios, erros e mortes.

 

Não é difícil ser pai como é praticamente impossível ser uma mãe com apoio e respeito na nossa sociedade, então respeitamos homens e odiamos mulheres, mesmo nós mulheres somos educadas pra pensar assim. É muito fácil não estar presente quando é preciso: trocar a fralda, dar colo após um pesadelo, fazer café da manhã, ajudar na tarefa do colégio, lidar com os primeiros relacionamentos e seus fins, impor regras, se preocupar com a primeira saída à noite, falar sobre drogas, encarar os primeiros porres, ver sua filha sofrer abuso sexual na tua frente e se sentir imponente, ver seu filho sofrer com as ofensas em relação a sua sexualidade etc.

É muito fácil pagar 176 reais de pensão como Gabriel Povas, filho de Daniela Mercury, paga para Tais Nader que em uma postagem que virou notícia e denunciou sua hipocrisia:

 

“Grávida, em repouso, alto risco. Chega de silêncio? Deve ter gente que acha que minha menina mais velha, bonitinha, por ser neta de artista famosa ganha uma pensão decente, não é? Pra ter uma boa vida, como sempre teve. Pois 65% de um salário mínimo é o que o pai ofertou. É a oferta que o pai fez e eu na justiça, há mais de um ano, tento reverter. Nada acontece. Pelo contrário, o juiz definiu 20% do salário, deu menos: R$ 176,00. Nosso judiciário ridículo ou comprado? Lógico que minha filha não vive com isso. Meus pais me ajudam, eu ralo e nós vamos levando”

 

Ela ainda fala algo que todos deveríamos saber: Pagar pensão não acaba com o abandono.

 

“Tento fazer com que ela não sofra com este abandono. Sim, isso é um abandono. E, no caso de minha filha, abandono de toda uma família paterna que é incapaz de perguntar se ela precisa de algo e sabe de toda esta situação calada, quieta, se valendo do afastamento proporcionado pela separação. Não falam nada! Além de saber (‘pasmem’) que o pai está pagando apenas isso de pensão. Todos eles sabem bem que não paga nem metade do valor da escola que ela estuda. Todos eles sabem que ela custa muito mais que isso”.

 

O relato Tais ainda ilumina uma outra questão ao falar da família paterna que também se mostra ausente, se tornando cúmplice disso, não se importando que a criança seja criada com esse valor. Não precisa ter um filho para saber que 176 reais não significa muitos impactos, porém além da mãe, poucas pessoas se importam nos casos de abandono paterno com o bem-estar das crianças e geralmente recai sobre a família materna a necessidade do cuidado, a própria Taís Nader fala disso:

 

“A menina passa fome? Está sem roupa? Estuda em escola pública? Claro que não. Sou mais uma mãe do Brasil que luta com unhas e dentes pra sustentar sua filha. O pior é que tenho certeza de que eles se omitem porque sabem que eu não deixaria, nem minha família, a menina sem as coisas. Podem dizer por aí que tem uma netinha bonitinha e bem amparada pra chamar de família. Sabem que a menina faz inglês, piano, ballet, natação, viaja. Uma hora destas está por aí sendo exibida como mais um prodígio musical da família”.

 

 

 

 

Filme Boyhood que conta a vida inteira de Mason da infância a juventude, paralelo a isso podemos ir vendo a vivência de uma mulher mãe solteira quase sem nenhum apoio do ex-parceiro.

 

Homens que abandonam exibem seus filhos e alguns são idolatrados por eles, homens que abandonam filhos não são isolados nem por seus filhos, muito menos pela sociedade. Não há IMPACTO real na vida de um abandonar, até mesmo o suposto escracho público só vem por parte mínima da população que identifica essa como sendo uma atitude abusiva, mesquinha e machista.

 

“Sim, isso é machismo! É o caso clássico que acontece com tantas mães, não só comigo: a mãe separou, tem a guarda e paga a conta. Além da pensão da menina… Sabe roupas, sapatos, calcinhas, biquíni, prendedor de cabelo…? Passei as notas que gastei. E nestes quase 3 anos foi R$ 200 que eu consegui que o pai dissesse que pode pagar. Melhor pra mim ter pena dele. E tenho”.

 

Discordo de Taís que tem pena, homens deveriam ser punidos quando optam por ter filhos e não assumir reais responsabilidades sobre isso. Dos impactos seria o julgamento da sociedade, que por sinal se nega a fazer isso com o homem. Um dos grandes problemas na hora de se debater machismo é esse, comportamentos machistas são vistos como normais e sendo assim atitudes naturais do seres humanos,  homens que não são pais presentes são vistos como humanos comuns que erram. Esse é um comentário de uma mulher sobre um homem que abandonou filhos sem pagar pensão e deixou de registrar um deles:

 

“Quem é o humano que pode julgar o B.? Algum santo aí? Sabe da vida dele demais? É o primeiro homem a fugir de pensão? Hipocrisia é julgar leviano! (…) os problemas pessoais dele são COMUNS, igual a muitos que JULGAM . Cuidado, quem muito julga, muito deve. Triste a raça hipócrita. Julga como Deus a vida alheia e condena. Sem saber de fato o que o cara passou. Absurdo o julgamento. Só não sei porque com tanta gente boa assim, o mundo está uma MERDA! Parece que nunca ninguém se separou, nunca ninguém teve mais de um relacionamento, brigou por pensão e parece que toda mulher é santa.”

 

Lembrando que estamos falando de um homem que nem sequer registrou um dos filhos, isso é de uma das condutas mais violentas do pai ausente. O registro é direito básico do ser humano ao acesso à própria identidade que não acontece quando filhos não tem o nome do pai no registro e nem direitos legais garantidos. Entretanto, se uma mulher abandona seus filhos, veja o tipo de comentário que está sujeita:

 

“eu não alivio, antes da prisão perpétua da bruxa, deviam deixar ela amarrada naquele mato uns 3 dias sem nada, só pra ela sentir o que fez um anjinho passar.”

 

“Não é desculpa problemas financeiros. E o pai da criança? Se não sabe quem é o pai porque fez sexo então.”

 

Esses comentários encontrei numa matéria que narra a história de uma mãe que abandonou o filho e foi presa por abandono de incapaz. Agora, as inúmeras notícias que achei ao digitar: Mãe abandona filho. Não são comparáveis com as que encontrei quando pesquisei: Pai abandona filho. As primeiras matérias envolvendo pais eram sobre o mesmo caso e outros links eram textos falando de abandono paterno. O que é possível concluir é que um homem que vai embora não é visto dentro do código do “abandono de incapaz”, até a forma como a legislação lida com o homem defende sua conduta, não a toa, que se estipula com naturalidade que 176 reais é um valor possível para se criar um filho.

 

 

Uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações durante sua juventude. Violentada pela mãe e abusada pelo pai , ela cresce irritada e sem qualquer tipo de amor.

 

Pais, irmãos, filhos, amigos etc. Estamos simplesmente cercadas de homens negligentes dando pela naturalidade que achamos que essa conduta não tem a ver com seu caráter. Mentira! É o aval do abandono de filhos como algo normal que ajuda o homem não ter culpa pelo seus atos, ou seja, contribuímos para a manutenção dessa opressão e do privilégio masculino na sociedade.

Amar alguém machista não é motivo para se silenciar diante de suas atitudes nocivas, essa é a verdade. Afinal, todos nós conhecemos machistas e agimos de forma machista, estamos sempre aprendendo. Então, por que em relação abandono paterno poucos querem aprender e falar sobre? Quando você, que está inserido na sociedade e aceita o fato de um homem abandonar um filho, automaticamente não aceita uma mulher mãe viver a vida naturalmente sem que seu filho seja o seu único motivo de existência. Então você está defendendo o privilégios de homens.  

Quando você acha que tem justificativas diversas para abandono paterno e se esquece que é um problema que tem 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro, você está defendendo vários homens que abandonam filhos. Quando um homem é preso por dever pensão você fica com pena e acha que a mãe foi injusta, você está defendendo vários homens que não pagam pensão ou acha que só a pensão basta.

Quando um homem que você admira e/ou seu amigo abandona o filhos e você continua agindo naturalmente com ele não se preocupando em saber se a saideira paga por ele é um dinheiro a menos para suprir as necessidades do próprio filho, você está defendendo vários homens que abandonam filhos.

Se você acha que as mulheres têm dedo podre e se abriram as pernas então tem que arcar com as consequências, você está defendendo vários homens que abandonam filhos. Acho que é raríssimo, dada a estrutura patriarcal que estamos inseridos, que, ao justificar e se negar a julgar homens que abandonam filhos, não estamos defendendo homens e deixando de apoiar mulheres e seus filhos.

Então, se você acha que a subjetividade de um homem é mais importante que a subjetividade de uma mulher e seus filhos, você pode achar que não, mas está defendendo VÁRIOS homens. O homem branco se considera e é considerado o ser universal, mas o homem não-branco não deixa de gozar dos privilégios de gênero mesmo na sua situação de impactado pela estrutura racista. O fato que fica evidente quando homens abandonam é que eles têm minimamente subjetividade. Frases como essas se tornam as principais desculpas:

 

  • Ele é imaturo não sabe o que está fazendo.
  • Ele não consegue ainda assumir tantas responsabilidade.
  • Ele tem problemas para lidar com essa nova realidade.
  • Ele não conseguiu dar conta, entendo e não julgo.

 

Dorothea Fields é uma mãe solteira de 55 anos que se esforça por educar Jamie, o filho de 15 anos, numa altura de grandes mudanças sociais e culturais.

 

 

 

A subjetividade do homem que abandona está no fato que sua atitude sempre será entendida/ justificada e mesmo que ele tenha alguma dificuldade concreta em assumir as suas responsabilidades. Vale lembrar que a história já nos mostrou que mulheres que passam necessidades, como fome, não deixam seus filhos para trás, Carolina Maria de Jesus foi um exemplo disso. Lamentavelmente passou fome com os filhos, um desses de um homem com recursos. Então, como homens dormem sabendo que seus filhos podem estar passando fome? E mesmo assim se esses filhos estão em extrema vulnerabilidade, como ainda conseguimos defender tais homens e suas desculpas corriqueiras?

É fato que a subjetividade de homens se dá em cima da negação da subjetividade de mulheres. Mulheres que são mães não podem tomar um suco numa lanchonete na esquina da sua casa que vão perguntar:

 

  • Onde está seu filho?
  • Como está seu filho?
  • Cadê seu filho?

 

Mulheres extremamente julgadas e isoladas pelos pequenos momentos que tentam se colocar à frente do ideal de maternidade compulsória. Mulheres que se prostituem se for preciso para alimentar um filho sozinha. Minha mãe se tornou mãe solteira definitivamente, já que desde o meu nascimento, três anos, antes meu pai era ausente. Nessa idade e com duas filhas teve que procurar mais um emprego para “dar conta” de todas as responsabilidades.

Quando minha irmã nasceu ela sofreu violência obstétrica e quase morreu pois o médico esqueceu uma das compressas no seu interior e costurou suas entranhas após o parto. Aonde estava meu pai enquanto ela achava que iria morrer sofrendo psicologicamente e emocionalmente sem saber o que tinha até saber do erro médico? Viajando.

Depois que minha irmã nasceu, médicos descobriram que ela tinha sérios problemas de saúde e precisava inclusive de cirurgia. Ao longo dos seus primeiros 10 anos foram inúmeros médicos pagos com os salários dos dois empregos da minha mãe. Um pai que vai embora e não registra, não paga pensão e nem plano de saúde, então aonde meu pai estava enquanto minha irmã passava pelas mãos de diversos médicos e tratamentos? Fazendo outros filhos.

Na escola, em alguns momentos eu tinha que levar minha certidão e não constava até os 13 anos o sobrenome paterno, pois meu pai não tinha me registrado, então aonde ele estava? Provavelmente abandonando mais um filho. Filhos que nunca tiveram uma relação de irmão comigo. Então percebam que a violência do abandono também é a violência de ter irmãos que você não tem laços afetivos e não conhece. Tudo isso porque alguns homens acham que fazer filhos é demarcação de território/masculinidade como ser um cachorro usando a urina em postes. Saem por aí então fazendo e deixando um rastro de destruição na vida de mulheres e filhos. Não é só o dinheiro, mas a dor do abandono.

 

 

 

 

A história de Diane Després, uma viúva recente que luta para criar o filho Steve, um adolescente com transtorno de déficit de atenção e imprevisível que, em certas ocasiões, pode se tornar muito violento.

 

A questão é que durante uma série de violências que minha mãe, minha irmã e eu estivemos sujeitas, meu pai estava vivendo! Vivendo uma vida que minha mãe foi privada por 20 anos. Só depois de 20 anos com filhas criadas e formadas minha mãe está namorando e viajando.

Foram 20 anos trabalhando sem parar, 20 anos não vendo as filhas pois ficava até a noite no trabalho, 20 anos sem poder sair sem ter críticas da família, 20 anos de relacionamentos com homens que gostavam dela mas não do fato dela ter filhos, 20 anos que toda vez que ela queria sair uma noite diziam que estava sendo uma vagabunda que iria atrás de homens ao invés de cuidar das filhas, 20 anos escutando que tinha AIDS da vizinha fofoqueira pois era “mãe solteira”, 20 anos se sujeitando a migalhas de alguns homens para ter atenção, 20 anos que ela viveu não tendo empatia por ser mãe solteira, porque mãe solteira não tem que ter tempo para si e para sua subjetividade. 20 anos!!!

É fato que ela teve apoio financeiro da família e mesmo assim ela viveu para as filhas. Então, eu realmente quero saber: Quando vamos apoiar mulheres mães e repudiar homens que abandonam?

Quando não se isola o agressor, se isola a vítima. O que nós, enquanto sociedade, precisamos fazer para imaginar o quão difícil é a vida de mulheres que são abandonadas com seus filhos e ter empatia e repulsa por esses homens?

Meu pai abandonou minha mãe grávida da minha irmã, quando eu tinha apenas três anos. Sabe quantas pessoas deixaram de falar com meu pai no ciclo de amigos dele? Nenhuma. Sabe quantas pessoas cobraram que ele fosse uma pessoa presente nas nossas vidas? Nenhuma. Amigos dele inclusive sabiam que eu era filha dele, o que ele tinha feito e simplesmente lidavam com desdém comigo.

Sabe quantos amigos minha mãe não fez? Sabe quantas comidas ela deixou de provar porque o dinheiro era contado para sustentar duas filhas? Sabe quantas mulheres como minha mãe existem por aí? Os amigos do meu pai foram uma rede de proteção que nunca julgou suas atitudes enquanto minha mãe era ainda cobrada por eles para educar a gente corretamente. Se sabemos tão bem julgar e incriminar mães, por que não podemos usar nossa potência para isolar homens que abandonam filhos da mesma forma que a sociedade impede, isola e maltrata mães?

 

 

 

Filme Juno em que a personagem é obrigada a resolver toda a situação da gravidez que não desejava na sua adolescência.

 

Fazemos parte de uma rede de proteção de homens que é mais forte do que imaginamos. Estava na banca de jornal e vi uma matéria de capa com Yanna Lavigne em que ela dizia não ter medo de ser mãe solteira. Fui pesquisar e parece que estão cobrando ela ter terminado o relacionamento estando grávida, então essa moça rebateu as críticas alegando estarem impondo um modelo machista familiar. Concordo com tudo que ela disse, só fico desacreditada ao saber que as pessoas mesmo sabendo das notícias do motivo do término com Bruno Gissoni, têm dificuldade de aceitar ela não querer estar com ele.

Têm pessoas indo chamar a moça de egoísta em postagens do Instagram! Queria mesmo que tivéssemos raiva para boicotarmos homens, mas parece que nem quando o parceiro é um provável estúpido não é alvo de críticas superagressivas, pois o homem é o único que tem o DIREITO, segundo a sociedade, de definir o modelo familiar.

Se a mulher escolhe por ela e pelo seu bem-estar ela é cruel, mesmo que as escolhas dela sejam motivadas pelo não companheirismo dele. A culpa que a sociedade nos impõe, se materializa quando somos educadas para criarmos filhos sozinhas e achar isso normal, pois a culpa do abandono do pai é sempre atribuída à mãe e não a ele. Somos cobradas por educar, criar os homens e os filhos, temos que ser maduras mesmo quando muito jovens.

Quando digo que precisamos tratar homens como esse ódio que já tratamos mulheres, não estou falando de vingança, sim de reparo social de repensar nossas condutas, de rever porque saímos com homens que não pagam pensão, porque somos amigos de outros que veem o filho uma vez por mês e reclamam, por que nossos amigos homens que são pais nunca são vistos com seus filhos?

Na sociedade onde ainda é permitido homens agredirem as parceiras, serem abusivos com elas na frente de seus filhos e irresponsáveis dentro de seus relacionamentos. A gente vai precisar de muita exposição pública e ódio para nos defender. Porque homens precisam ser incomodados e tirados do seu lugar de privilégio, onde ser cretino é normal e natural. Pior, onde eles nunca vivenciam a SOLIDÃO pelo que são.

Só quando homens forem cobrados de ter a mesma responsabilidade que as mulheres na criação dos filhos, o abandono paterno será crime hediondo para toda a sociedade.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta, escritora e feminista negra. Acredita no papel fundamental da arte, da política e da cultura no ativismo negro interseccional e a experiência da mulher negra no mundo. Co-fundadora do Afronta, um site que busca visibilizar a história de mulher negras e artistas, atualmente se dedica a escrita do seu primeiro livro pela Cia das Letras.