8 Coisas que NÃO aguento mais que aconteçam no dia 8 de março

Claro que sou feminista, então evidentemente acredito que 8 de março é uma data importante para nós mulheres, pois é uma data política:

 

 

 

Sim,  estamos falando de mulheres socialistas e de sua luta, por isso é importante se informar pois tem muita gente que acredita que o feminismo não é um posicionamento ideológico e político, só um “sentimento”. Por isso quando pensamos no Dia das Mulheres e somos inundadas por campanhas como essa, da Gazeta do Povo:

 

 

Percebemos que alguma coisa se perdeu no meio do caminho nesse processo de retirar dessa data seu sentido político e dar a ela um sentido econômico, fútil e até mesmo do entendimento de que é sobre celebração quando é uma data de luta, questionamento, emancipação para nós mulheres…

 

 

Pensando nisso, resolvi fazer uma lista simples de coisas que não aguento mais ver no 8 de março. Eu adoro a data por conta da sua história, mas sinceramente, eu ando exausta da forma como ela é usada. Literalmente: USADA. Então vamos para o primeiro tópico:

 

1 – Não aguento mais como empresas usam a data de forma um tanto quanto absurda.

 

 

Na verdade como uma amiga diz, marcas nem deveriam estar aqui no que diz respeito a essa data. Concordo! ENTRETANTO, dada a conjuntura e o sistema econômico que estamos, é necessário cobrar que marcas estejam conscientes e de alguma forma assumam responsabilidades sociais. Contudo, o que vemos é:

 

  • Mulheres voltando do trabalho com chocolate…

 

 

  • Mulheres voltando do trabalho com flores…

 

 

  • E até homens sendo contratados por empresas para “darem abraços” nas ruas em mulheres… 

 

 

Num país onde nós somos assediadas por estranhos no ônibus, que chegam a ter coragem  de até ejacular em nossas corpos. Evidentemente uma ação com foco em abraçar um estranho é uma ótima saída. #SQN

 

 

O que me irrita é que algumas marcas e empresas fazem campanhas bonitinhas nesse dia como essa do Itaú em 2015:

 

 

Mas um tempinho depois já esquecem do “parabéns” e voltam para suas antigas condutas:

 

 

Condutas que são mantidas para manutenção do poder, o que significa que as pessoas podem até te dar chocolate, mas vão continuar fingindo que ninguém te assedia dentro da empresa se essa pessoa for um superior:

 

 

A empresa, namorado, amigos te enchem de recados e bombons nessa data e são os primeiros a te demitiram ou abandonarem, quando você se torna mãe:

 

 

Portanto… seu chocolate, sua flor, e sua campanha motivadora: Não servem para muita coisa não, são paliativos num contexto que precisamos de medidas efetivas.

 

 

 

2- Não aguento mais dizerem que “Somos Fortes” ou “Guerreiras”.

 

Das formas mais diversas possíveis, as pessoas tentam dizer que mulheres aguentam tudo, chegam até a dizer: ei, você tem que trabalhar bastante nessa data pois seu trabalho é bom e vocês são fortes. Romantizando nossa condição e realidade, onde a força não é escolha, onde ser guerreira não é escolha. Somos obrigadas a isso para que sobreviver.

 

 

O que é ser forte? Pois o que vejo são mulheres sobrecarregadas, com rotinas em que não existe divisão do trabalho doméstico, cumprindo a rotina de trabalho, a da limpeza da casa e do cuidado com filhos. Mulheres são constantemente assediadas, muitas já foram estupradas e sua sexualidade é menosprezada. Mulheres têm sua capacidade constantemente diminuída, e ainda lidam com a realidade dos salários mais baixos, mesmo estudando e se dedicando mais que homens que estão nas mesmas área de atuação que as delas. Força ou sobrevivência? Estamos lutando por nossas vidas e dos nossos todo dia!

 

 

Aparentemente, as pessoas acham mesmo que histórias como a do filme Preciosa são representações da realidade e da força feminina. Afinal, ela passa por toda aquela opressão, violência e tristeza, mas ela “segue a vida”… sendo uma “verdadeira” guerreira. Não! Não façam isso! Não nos chamem de guerreiras quando somos sobreviventes num mundo que nos odeia!

 

 

Quando estamos falando de sofrimento, estamos falando da realidade na desigualdade de classe, raça e gênero. Por isso, não falem de força como se fosse super divertido ser forte,  quando somos obrigadas a ser para sobreviver. Sobreviver! E isso não é nem um pouco engraçado:

 

 

 

3-  Não aguento mais o mau uso da frase da Simone de Beavouir.

 

Está em memes, em camisetas, e até mesmo sendo usada por algumas marcas. A frase: Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. É tipo frase de parachoque de caminhão, está em todos lugar, que quer ter pinta de feminista ou de apoiador de mulheres.

 

 

E, por mais que eu entenda que essa mulher é maravilhosa e muitos adoram seu trabalho, é necessário que a gente se aprofunde nele e não apenas use uma frase sem nem ao menos saber seu contexto.

 

 

Feminismo, ou até mesmo o respeito para com mulheres, é sobre levar a sério a produção intelectual de mulheres! Djamila Ribeiro fala sobre isso nesse texto e concordo: Beavouir merece mais. Leia! Leia a Djamila e leia a Beavouir. Se aprofunde no conhecimento que mulheres oferecem para o mundo.

 

4- Não aguento mais como só nessa data lembram da gente para TUDO.

 

Sério, a maioria das mulheres que são ligadas ao debate de gênero, em especial feministas, recebem uma série de convites, e-mails, se lança uma série de livros sobre mulheres e todas as palestras focadas no debate de gênero acontecem em sua maioria neste mês. E aí você fica como?

Fica assim:

 

 

E assim…

 

 

E também assim…

 

 

E mesmo que você não seja uma mulher com acesso a todos esses convites, no mínimo sua caixa de mensagem no facebook e no whatsapp ficaram lotadas de mensagens com flores, poemas e o famoso: Parabéns, guerreira.

 

 

Sério, será que é tão difícil entender que a pauta das mulheres é de todas as pessoas e todos os dias? E que, por mais que a gente entenda a necessidade de debater essa data, pois ela é uma data importante socialmente e politicamente para mulheres, por que as pessoas só se preocupam com a desigualdade de gênero nesse dia e de uma forma muitas vezes rasa?

 

 

Mentira eu sei, sim! Sei que mesmo com os recadinhos o mundo continua machista, e as pessoas continuam agindo de forma machista, então…. Só temos uma única alternativa.

 

 

5- Não aguento mais edições “especiais” que sempre acontecem nesta data.

 

Recebi um e-mail dizendo que um jornal nesse dia 8 daria espaço para toda sua edição ser feita por mulheres. Algo muito parecido com o que foi o movimento: #agoraéquesãoelas. Você pode pensar nossa isso é lindo!

 

 

 

Contudo…cara, qual o problema em contratar uma equipe de no mínimo 50% de mulheres no ano todo e não só chamar mulheres para sua “edição especial” em que o “olhar feminino” está sendo exaltado?

Olha veja os colunistas de algumas mídias brasileiras e conta quantas mulheres têm e depois quantos negros são remunerados pelo seu pensamento crítico e escrita. Então, o que adianta uma edição especial, se mulheres não vivem de boletos especiais?

 

 

O que adianta um dia: se o trabalho de mulheres continua sendo desvalorizado? Se você tem o poder de decidir quem vai contratar, mas só chamar mulheres para freelas, projetos especiais e para dar as caras em apenas um dia? Já pensou que se você tiver de fato uma preocupação em manter a igualdade de gênero, o “projeto especial” de um dia, se torna diário e abre portas para novos debates e discussões? Estamos em pleno século XXI e em 2018, não deveríamos estar dizendo que não queremos ser lembradas em projetos especiais.

 

 

E, se você acha que estamos querendo demais, repito: Estamos em pleno século XXI e em 2018. Acorda queridos!

 

 

6- Não aguento mais a falta do olhar interseccional.

 

Nós feministas negras repetimos diariamente que mulheres negras ocupam espaços diferentes que mulheres brancas, mesmo assim chega o 8 de março tem empresa que posta isso:

 

 

E claro, eles apagaram a imagem do Facebook logo depois. E ai você que é negra e fala disso TODO DIA, pensa: Será mesmo que ninguém se incomoda com o fato da única negra da foto está vestindo uniforme que difere ela das outras, logo ela é a única da limpeza?

 

 

 

 

E tem mulheres que apoiam essa ideia de que o lugar ocupado por mulheres é o mesmo, logo a vivência da mulher branca é universal… Só que…

 

 

 

Só que essa foto mostra exatamente as camadas e que quando chega mulheres brancas dizendo:  não sou contra homens, só quero igualdade. Será que elas lembram que nós negras sequer estamos em igualdade com elas?

 

 

Pessoal melhorem! Até porque muitas mulheres brancas gostam de dizer:

 

 

Logo elas que precisam treinar o olhar e serem mais críticas sobre o lugar que negras ocupam nessa sociedade, para que isso de fato seja efetivo, afinal “girl power” é saber usar os privilégios que a branquitude te concede e lutar para que todas sejam visíveis e tenham as mesmas chances que você.

 

 

 

7 – Não aguento mais quando dizendo que nossos feminismos devem ser fofos.

 

Surge uma série de posts aos estilo:   

“Ser feminista, não é odiar homens”.

“Ahhh são as mulheres que educam os homens, logo não entendo a fala das feministas”.

“Eu não tenho culpa, nem todos os homens são assim”.

“Apoio só o feminismo que não é raivoso”.

 

 

Nunca use sua fala para dizer como mulheres devem agir, até porque você não sabe o que essas mulheres passaram. Logo, essa história de que mulheres não podem “odiar” não faz sentido, afinal, algumas odeiam por defesa, por consequência das coisas duras como estupros que passaram, e no fundo isso é bem subjetivo. Mulheres que dizem odiar não matam, homens que dizem nos amar matam mais de uma por dia.

Então, se você quer culpabilizar mulheres pelo machismo, dizer que somos cheias de ódio e pedir o feminismo mais “fofo”:

 

 

Afinal, é cansativo como homens até escrevem livros para definir quem é “ativista de verdade” e quem é “só odiadora”, se esquecendo que existem várias formas de ativismo e de personalidade, e que ficar comparando mulheres ou seus projetos no mínimo entre si é desonesto.

 

 

 

8- Não aguento mais pedidos pelo Dia do Homem.

 

Já existe essa data! Só jogar no Google. Vocês homens que acham que são feministas e sequer leram algo sobre:

 

Apenas para! Pois fora dos holofotes….

 

 

Homens ao invés de reclamar pedindo sua data, mesmo ela já existindo, vão debater sua masculinidade tóxica e nociva. Parem de achar que isso aqui  é clube da Luluzinha versus clube do Bolinha, o dia da mulher só tem a relevância que tem pois nós, mulheres, morremos por sermos mulheres, morremos inclusive na mão de alguns homens! Por isso:

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.