A cultura do fã não cabe dentro do feminismo.

 

Estava querendo escrever faz um tempo sobre a cultura do fã dentro do universo feminista, mas calhou desta semana me ver numa discussão interminável com fãs da Anitta que me acusaram, dentre outras coisas, de ser machista. Tudo isso por criticar uma fala dela (registrada em vídeo) que pode ser considerada um apagamento de outras mulheres. E assim, Anitta mais uma vez teria contribuído para o silenciamento sistêmico de mulheres negras, as quais dentro da indústria musical e, especialmente no funk, possuem seus trabalhos desconsiderados, invisibilizados e sistematicamente sofrem boicotes – mesmo sendo talentosas. Logo, as críticas que as pessoas fizeram, mostram como muitas vezes ser fã de alguém, nos coloca numa posição em que ignoramos fatores estruturais por conveniência e até como forma de proteger aquele que admiramos.

 

Historicamente o culto excessivo a uma pessoa e alguma ideia nos levou a contextos políticos trágicos como a morte de ídolos, a criação de seitas e até mesmo suicídios em massa. Todos esses motivos já explicam porque o feminismo enquanto um movimento social emancipatório de equidade de gênero não deveria se associar essas práticas. Contudo, é notável que, com a popularização do feminismo e as próprias condutas nas redes sociais, algumas mulheres feministas estejam sendo vendidas e vistas como “musas” dentro de camadas muito similares com o que acontece com uma cantora como Anitta. Nesse lugar, mesmo feministas que se opõem politicamente de diversas formas a essa prática de “endeusamento” como bell hooks e Angela Davis, de alguma forma são alçadas a figura de “divas pops”, seus nomes são citados em meio a discussões mesmo quando suas ideias não condizem com os argumentos, crescem os souvenirs com rostos de feministas e surgem até mesmo “fã clubes”.

 

Aparentemente o aumento das buscas em relação a palavra “feminista” foi um gancho que o mercado aderiu pra de certa forma banalizar as contribuições de mulheres para o feminismo. Transformar mulheres relevantes para o feminismo em objetos vendáveis, é retirar de nós todo o sentido da nossa luta.  É interessante que se tratando de mulheres famosos como cantoras, atrizes, figuras públicas em geral, assim que essas passam a se posicionar ou se dizer publicamente feministas, fãs confundem a admiração ao seu trabalho com automaticamente serem apoiadores do feminismo. Essa é uma lógica de banalização fortalecida pelo capitalismo, a partir do momento que a apropriação permite inversão dos valores. Alguns passam a esperar a posição de figuras tidas como “lideranças” para que só a partir delas assumirem uma posição crítica frente a tudo que envolve casos de machismo, racismo, lgtbfobia, etc, o pensamento crítico e independente que seria uma premissa mínima de movimentos emancipatórios perde força frente esse comportamento quase messiânico. 

 

Contudo, o mais absurdo e o que me soa muito contraditório, é que ver um ser humano como divindade é também um processo de desumanização. O feminismo é um movimento que dentre tantas coisas luta para humanização de mulheres, frente a cultura patriarcal que nos objetifica nos tratando como coisas e não pessoas. Dado que ser visto como indivíduos plenos numa sociedade patriarcal, racista e capitalista, é para poucos. Diante disso, uma conduta que tire das mulheres a humanidade, ao entender que não são “humanas”, mesmo que se dê na base da ideia de que são perfeitas, anula toda e qualquer comportamento, incoerência, compreensão, diante de comportamentos tipicamente humanos. Não se admite que uma mulher pode então dizer algo problemático, tampouco ter sentimentos que todos têm.

 

Li há algum tempo um artigo que foi importante naquela época, era de uma feminista que denunciava práticas nocivas de outras feministas contra ela. Segundo essa mulher, ela passou a receber duras críticas quando teve seu trabalho reconhecido. Como se isso anulasse sua contribuição feminista, ou permitisse que outras fossem duras com elas. Hoje depois de tempos de ter lido esse artigo, penso que no fundo ela denunciava práticas e condutas humanas, que qualquer um dentro ou fora do feminismo poderiam ter. O problema é que muitas vezes as pessoas entendem que ser feminista apaga toda a nossa humanidade, e no fundo é uma reconfiguração dela e não o silenciamento de tudo que somos, pensamos e queremos. Entendo que enxergar o mundo numa ótica feminista é cada vez mais admirar a nossa humanidade, nossas camadas e complexidades, em tempos de redes sociais que tudo é tão instantâneo e plano. Nós feministas perdemos ao ver mulheres importantes para nossa luta, serem desumanizadas, e seus trabalhos serem menos consumidos que a sua própria imagem. Por um futuro que mais camadas de humanidades sejam acrescentadas a mulheres. 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.