A Netflix não resgatou as comédias românticas – foram as mulheres

Quando foi a última vez que você assistiu uma boa comédia romântica? Se você me perguntasse isso há alguns meses, minha resposta seria frustrada: “Não haverá outro ‘10 Coisas que Eu Odeio em Você’, ‘Nunca Fui Beijada’ ou mesmo os clássicos de John Hughes”, eu diria.

E, de fato, os clássicos são insubstituíveis. Que os digam as comédias românticas das últimas décadas, como “Será Quê?”, “Simplesmente Acontece”, “Sexo Sem Compromisso”, “Amizade Colorida” e outras que saíram como grandes apostas, mas não foram além de bilheterias meramente satisfatórias e roteiros rapidamente esquecidos.

 

 

Para se ter uma ideia da escassez de bons longas no gênero, podemos dizer que o mais lembrado dos últimos anos seria “500 Dias Com Ela”, que é controverso e nem mesmo se autoconsidera um filme romântico, algo que os próprios roteiristas gostam de apontar já no início – e que é muito importante de se ter anotado para entender o enredo do filme. Mas as coisas estão mudando.

Se você me fizer essa pergunta mais uma vez, vou responder, muito empolgada, sobre os últimos lançamentos da Netflix, todos de 2018: “O Plano Imperfeito”, “Para Todos os Garotos que Já Amei” e “Sierra Burgess é Uma Loser”.

Claro que a grande produtora também teve seus erros e fracassos, como “O Príncipe do Natal” – tão ruim que a própria Netflix tirou sarro. Mas, ao mesmo tempo, “A Barraca do Beijo” também deixa muito a desejar e ainda assim é adorado pelo público teen. Estes novos sucessos têm colocado a Netflix como nada menos que a salvadora das comédias românticas.

Mas minha própria avaliação e da mídia podem estar erradas, se considerarmos um formato que não seja longa metragem: televisão.

Eu precisei contestar minha própria empolgação com estes novos filmes quando percebi que, na verdade, haviam muitas comédias românticas pelas quais me apaixonei nos últimos anos: “Jane The Virgin”, “The Mindy Project” e até “Gilmore Girls”, já que a empolgação com o remake da Netflix recentemente me fez assistir pela primeira vez (e amar e assistir tudo de novo) os primeiros anos da série.

Pois é. Enquanto esperávamos pelo retorno dos filmes que poderiam se tornar clássicos, as séries já estavam nos agraciando com histórias românticas superdivertidas, com heroínas marcantes e, melhor ainda, diversas – reais! Logo, não foi um grande espanto quando percebi que as responsáveis por esse retorno no gênero de roteiro sejam mulheres.  

Sem estas séries e as mulheres que as criaram, as comédias românticas de fato estariam extintas.

Jane the Virgin (The CW), desenvolvida por Jennie Snyder Urman

 

 

Jane trabalha como garçonete em Miami e é super-romântica e cheia de sonhos: tornar-se escritora de sucesso e casar-se com seu namorado, Michael. De família tradicional latina e super-religiosa, ela fez a promessa, ainda na infância, de perder a virgindade somente depois do casamento. Mas seus planos começam a tomar caminhos diferentes quando descobre que está grávida após um erro médico. Jane foi inseminada artificialmente por engano!

 

New Girl (Fox), criada por Liz Meriweather

 

 

A série conta a história de Jess, uma garota esquisita e adorável que se vê em uma situação complicada: ela foi traída pelo namorado e precisa arrumar um novo lugar para morar. Ela acaba encontrando um apartamento no qual residem três homens solteiros: Schimidt, Coach e Nick, por quem se apaixona.

 

The Mindy Project (Fox e Hulu), criada por Mindy Kaling

 

 

Mindy Lahiri é uma romântica assumida, apaixonada por comédias românticas de Meg Ryan, já que suas personagens sempre conseguem ficar com o grande amor ao final de cada filme. No “mundo real”, Mindy é uma médica obstetra/ginecologista prestigiada e divide a clínica com outros médicos, entre eles, seu interesse amoroso, Jeremy.

 

Insecure (HBO), criada e estrelada por Issa Rae

 

 

Issa e Molly (Yvonne Orj) são duas jovens mulheres negras tentando viver suas carreiras e relacionamentos, além de pensar no futuro. Os olhares de ambas as amigas trazem questões do cotidiano e de problemas amorosos normalmente vividos por mulheres negras e os altos e baixos da amizade delas também são pautas neste roteiro.

 

Crazy Ex-Girlfriend (The CW), criada por Rachel Bloom (também protagonista da série) e Aline Brush McKenna

 

 

Rebecca Bloom é uma advogada obstinada e de sucesso, mas resolve desistir de sua vida cheia de grana em Nova York em um momento de pura impulsividade, depois de encontrar o ex-namorado de adolescência, Josh. Ela então se muda para West Covina em busca de amor, romance e aventura, mas acaba tendo que enfrentar suas próprias questões de saúde mental. Tudo isso é narrado de maneira leve e divertidíssima, com números musicais cheios de referências de cultura pop.

Mas e quando são os caras que criam comédias românticas para a TV?

Lovesick (Channel 4 e Netflix), criada por Tom Edge

 

 

A velha história do cara bonzinho que só quer encontrar um amor para toda a vida, mas não percebe que ela está bem do lado dele. Podia ser “How I Met Your Mother”, mas é Lovesick. O roteiro prende quem gosta de comédias românticas, empolga quem torce para o casal central, mas não é grande coisa para quem busca representatividade neste gênero.

 

Love (Netflix), criada por Judd Apatow

 

 

O The Guardian disse que, com “Love”, Judd Apatow desconstrói comédias românticas. Mas não há nada de muito desconstruído em colocar um cara considerado “estranho” com uma garota linda, hipster e dentro do estereótipo de Maniac Pixie Dream Girl. É uma série que atende somente os sonhos mais antigos do imaginário masculino.

Só podemos contar com a diversidade entre eles:

Please Like Me, criada e estrelada por Josh Thomas

 

 

A série australiana Please Like Me conta as aventuras amorosas do jovem gay Josh, que ama cozinhar – rendendo ótimas cenas de jantares e closes de comidas deliciosas! Please Like Me também é sobre como Josh se relaciona com os amigos – a maioria deles, hétero – e com a mãe, que tem um longo histórico de depressão. A questão da saúde mental é colocada de maneira sensível e cuidadosa e revelou ninguém menos que Hannah Cosby, do stand-up Nanette.

 

Crazy Rich Asians (Warner Bros. Entertainment), criada por Kevin Kwan

 

 

Voltando a falar em filmes, este tem lançamento previsto no Brasil para o início de novembro, mas já temos críticas muito positivas dos americanos, inclusive daqueles que se sentiram representados pela história de Kwan. Na real, trata-se de um plot já bastante explorado pelo cinema de Hollywood: garoto-partidão leva noiva para conhecer a família. Mas, dessa vez, a história se passa em Singapura e o elenco é predominantemente asiático.

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.