Acusação “falsa” de assédio para dizer que homens são vítimas e mulheres não prestam

Na última semana morreu Bertolucci, o homem que literalmente levou um estupro para as grandes telas e fez com que muitos considerassem o ato de enganar e abusar sexualmente de uma atriz, fosse um símbolo de genialidade e arte.

Me peguei pensando nessa semana: Anos de Último Tango em Paris, e como mesmo depois do #MeToo, o abuso sexual vem sendo retratado de fato como nocivo pela dramaturgia? Se há anos se considerou aceitável um estupro ser filmado e colocado num filme e hoje? Já não deveríamos ter avançado?

Confesso que nas últimas semanas fiquei encantada com a narrativa trazida na série Assédio, a forma como vítimas de um mesmo abusador são retratadas nas suas diferenças para lidar com esses estupros, como essas vítimas buscam lutar pela justiça não sendo apenas passivas a essa violência e como mulheres se unem em busca disso, alegraram meus olhos em meio a um texto e cenas extremamente fortes e violentas.

Mas, a impressão que eu tive, era que Assédio era uma série feita para mim, eu que por questões sociais e culturais já venho de algum engajamento e faço parte desses debates sobre violência de gênero, se tratando do público que não sou eu e que é maioria, o que a teledramaturgia faz para debater essa temática?

Lembro que há 13 anos nós, brasileiros, estávamos vendo no horário nobre a novela América, que girava em torno de Sol (Deborah Secco) e Tião (Murilo Benício), e que nas tramas paralelas trouxe uma personagem que na época mexeu muito com o público: Creusa. A mulher religiosa nas aparências que longe da família e amigos se tornava uma figura sensual e com desejos, tudo isso sendo representado pela figura de Juliana Paes, uma das atrizes brasileiras consideradas mais sensuais do país e quem dirá, no mundo.

A personagem Creusa vivia na boca do povo, pois a história da sua personagem mexia com vários pontos que iam do conservadorismo ao fetichismo sexual, ela era uma religiosa fervorosa que sequer usava roupas justas ou curtas, que fingia tudo isso, para esconder sua real conduta que era de uma mulher com sexualidade à flor da pele e desejo de se envolver com uma série de homens.

O que Creusa fazia quando nesses seus momentos de liberdade era pega na “boca do pulo”? Acusava estes homens que “cediam” aos seus encantos de assédio e assim, na narrativa da novela, se desenha a história de uma mulher que é IMORAL, SAFADA, segundo muitos telespectadores, que num núcleo de comédia acusava homens de serem abusadores sexuais prejudicando suas vidas e a visão das pessoas sobre eles, apenas para esconder suas próprias “escapadelas”.

 

Creusa (Juliana Paes), na novela América.

 

Mas por que estou escrevendo isso depois de 13 anos?

Parece que mais de uma década depois, as novelas feitas para o grande público, ainda insistem numa lógica de abordar abuso sexual como uma acusação de mulheres sem ética.

Veja, esses dias estava vendo um capítulo de uma novela que está no ar no horário das 18h, “Espelho da Vida”. No capítulo que vi, Pat (Débora Ózorio), personagem adolescente que é fã do ator Mauro César (Rômulo Arantes), invade seu quarto num hotel, deita em sua cama enquanto ele dorme e quando são flagrados, ela se cala ao perceber que ele está sendo acusado de abusar sexualmente dela, que é apenas uma menor de idade. Diante de seu pai e da polícia, ela hesita em contar a verdade sobre a situação e numa cena com teor cômico, o personagem de Rômulo Arantes é PRESO!

Eu fiquei atordoada ao ver essa cena pois ela dá margem para dizer que: EXISTEM HOMENS SENDO PRESOS POR PEDOFILIA, POIS EXISTEM CRIANÇAS/ADOLESCENTES MENTIROSOS. Isso é possível? Sim. Isso acontece? Claro. Mas a porcentagem perto dos casos reais de abuso denunciados é minúscula, mesmo assim essa narrativa da FALSA ACUSAÇÃO é mais recorrente no Brasil.  

Para mim, isso é fruto de um descaso com a realidade das crianças e mulheres do país, ainda mais a cena sendo apresentada num teor cômico, poucos dias depois de Bruna Linzemeyer em O Sétimo Guardião retratar uma cena muito parecida! Mesmo em outra novela, sua personagem também invade o quarto de um homem que deseja, sente afeto, admira e deita com ele em sua cama.

Conforme ele acorda e passa a agarrá-la a personagem é surpreendida com a família dele e com o fato de que não estava confortável com as passadas de mão em seu corpo. Basicamente ela diz que foi assediada, e foi, só que conforme o texto do autor não se entende se de fato ela saiu abalada ou apenas está fazendo isso para que a família do seu “amor platônico” o obrigue a ter algo com ela.

Veja, estamos em 2018 e duas novelas da mesma emissora passaram cenas para o grande público em que mulheres acusam homens de assédio sexual para obter algum tipo de atenção ou “vitória” afetiva sobre isso. A mesma emissora produz Assédio, contudo, essa passa num horário, possui uma linguagem e foco, que parece ser destinada para um público totalmente diferente do que essas narrativas mais “comuns”.  

O ponto é que, de alguma forma, num país com altos índices de violência sexual contra mulheres e crianças/adolescentes, esteja se reforçando a ideia de que acusação de abuso sexual é apenas uma forma de chamar atenção que “acaba” com a vida de algum homem. Se pensarmos nas produções de outros países, isso sequer é um recurso usado, recorrentemente, da mesma forma que no Brasil grande parte dos autores que são HOMENS, fazem e refazem, nas histórias que contam para o grande público.

O problema dessa compreensão é que no Brasil a grande taxa das denúncias mostra que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes, isso segundo levantamento do Ipea, feito com base nos dados de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan). Além disso, em metade dessas denúncias envolvendo menores, o abuso não é o primeiro, sendo assim, existe um histórico de abusos anteriores.

É fato que, segundo muitos especialistas, crianças e adolescentes, por medo, deixam de denunciar o que acontece com elas, muitas são tomadas pela ideia de que o agressor irá ferir alguém que elas amam, outras sequer conseguem compreender que essas atitudes são erradas, e claro, existe um grande peso também nesse fato, muitas são abusadas por conhecidos e isso só reforça a ideia em suas cabeças que dificilmente acreditariam nela. Contudo, mesmo que esses números digam respeito a realidade do Brasil, quantas vezes esses temas foram tratados pela teledramaturgia?

Quando esses temas são tratados, a forma é tão rasa e sem comprometimento, que se retrata o uso de um Coach como profissional apto para tratar de tal temática, como foi o caso da novela O Outro Lado do Paraíso, que retratou um caso de pedofilia “cuidado” por uma Coach, mas também um estupro marital que no final o agressor foi retratado como um pobre homem influenciado pela vilania de sua mãe.

Pensando nesses retratos todos, se compararmos os casos em que mulheres e até mesmo adolescentes, acusam pessoas de abuso sexual, com as narrativas que mostram vítimas denunciando, sendo ouvidas e conscientiza sobre como agir nesses casos, temos um verdadeiro abismo. A teledramaturgia está preocupada em CULPAR A VÍTIMA.

Se pensarmos nos recortes de gênero isso piora mais ainda, meninos podem e são abusados sexualmente, entretanto, se mantém a ideia do homem como vítima acusada “injustamente”, ainda não se explora como a própria forma que a masculinidade se desenha impede que vítimas masculinas de abuso sexual procurem apoio e ajuda. Não se tem interesse de fato em retratar casos de abusos, apenas de usar assédio sexual como recurso cômico ou  “armadilha” usados por mulheres desonestas.

Se ignora totalmente que temos um caso de estupro a cada 11 minutos sendo notificado nesse país, que 67% da população tem medo de ser vítima de uma agressão sexual e, quando se pensa em mulheres, esse número sobe para 90%. Como 90% da população tem medo de algo e continua sendo retratada midiaticamente como pessoas que usam a violência sexual para se vingar? Para conquistar? Para chamar atenção de homens?!

 

Em denúncias de violência, é possível ver pessoas dizendo que a vítima quer aparecer ou ganhar fama  e dinheiro. Como a televisão é culpada pela manutenção dessa ideia?

 

Não existe piada com estupro e sequer piada possível com denúncias de abuso sexual, tudo é muito sério, tudo é muito real, a partir do momento que vivemos uma verdadeira epidemia desses casos que não são solucionados e sequer cessados, a cada minuto uma criança, um adolescente e uma mulher se tornam vítimas, pois são alvos vulneráveis.

ASSUSTADORAMENTE, 26% dos entrevistados por uma pesquisa feita no Brasil pelo Ipea, divulgada em 2014, concordam total ou parcialmente que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Já 58,5% concordam total ou parcialmente que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.  

Em 2014, mulheres brasileiras foram obrigadas pelas circunstâncias a criarem uma manifestação intitulada: EU NÃO MEREÇO SER ESTUPRADA. Parece que quando se trata do grande público, as programações que chegam nas classes C e D do país, autores de novelas, empresários donos de canais de TV insistem nessa narrativa da vítima com caráter dúbio que usa o assédio sexual a seu favor. A pergunta é: a quem isso favorece? Como isso nos afeta? Quantas crianças, adolescentes e mulheres ao relatarem abusos não são vistas como vilãs?

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.