Coleção

Lembranças especiais… que mulher não tem as suas? E qual de nós não quer muito mais? Quando eu era criança, o dia mais feliz era aquele em que minha tia me convidava para ir ao clube da cidade em que morávamos… Íamos de fusquinha estrada afora, com o volume máximo em alguma música do The Police ou Dire Straits, afinal, estávamos nos anos 80. 
Na adolescência, claro, o momento mais empolgante tinha tudo a ver com algum mocinho. Lembro-me de uma noite na qual fui pedida em namoro pelo menino mais lindo da cidade. O namoro durou pouco, mas a lembrança, ah… Essa ficou para sempre.
Um pouco mais velha, mas ainda na fase final da adolescência, recordo-me de quando conheci o amor da minha vida. Obviamente foi um dia inesquecível; impagáveis, também, foram as pequenas aventuras que aprontamos juntos. Certa vez, viajamos até São Thomé das Letras (MG), e lá passamos uma noite, num barzinho todo feito de pedra, com luz de velas. A dona do lugar também cantava, e mandou muito bem no repertório, que ia de Esotérico, de Gil, a Amor de Índio, do Beto Guedes. Uma noite perfeita para um casal recém-apaixonado. Naquele dia, eu falava para mim mesma: Ana Paula, curta esse momento ao máximo, pois nunca mais você irá se esquecer dele. Dito e feito. 
Já adulta, uma das lembranças mais alegres que tenho é recente. Em viagem ao sul da França, fui sozinha ao atelier de Paul Cézanne, preservado como era nos idos de 1880. Ao chegar à sala simples, deparei-me com o paletó do mestre sujo de tinta, com os frascos, os tapetes e os móveis que ele usava para compor suas obras. O cenário gerou em mim uma emoção tão forte que tive vontade de chorar. E, mais uma vez, disse para mim mesma: Ana Paula, viva esse momento com intensidade, pois ele também vai para o “favoritos” da sua memória. 
Existe algo sobre esses momentos, porém, que poderia torná-los insossos, maçantes ou até desagradáveis: se eu os tivesse vivenciado em épocas diferentes. Hoje em dia, uma ida ao clube da minha cidade natal jamais me daria tal prazer como quando tinha seis anos; pelo contrário, acharia muito chato ficar andando sob os olhares imperdoáveis das fofoqueiras de plantão.
São Thomé das Letras, hoje, soa para mim como um lugar mal cuidado e visitado por gente esquisita, que vai para lá procurar muito mais confusão do que paz. E a adolescente de 13 anos jamais se sensibilizaria com uma sala cheia de velharias de um pintor de que nunca ouvira falar. E assim por diante. 
Por isso, acredito que as mulheres podem, sim, sonhar bastante e com muitas coisas. Por outro lado, é preciso saber a hora de deixar de lado determinado sonho e ter consciência de que aquilo seria bom para aquela época. Para hoje, já não faz tanto sentido vivê-lo. Devemos, ainda, esperar o melhor do segundo que está por vir. De repente ele poderá fazer parte daquela série de momentos maravilhosos que guardamos na gaveta da memória.

Redação

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