Como a bela, recatada e do lar foi representada pela revista Veja

Todo mundo viu o perfil que a revista Veja fez da esposa do vice-presidente Michel Temer, Marcela. Ela é uma mulher muito bonita, que se casou muito jovem com um homem bem mais velho e escolheu ser mãe e dona de casa. Seu marido tem ganhos que permitem que ela não precise trabalhar e possa viver assim. Marcela fez sua escolha e isso é feminismo: permitir que as mulheres escolham o que querem para suas vidas e não julgá-las por isso. Ela não é menos empoderada por ser mãe ou por não querer trabalhar fora.Para dizer a verdade, é muito difícil afirmar se Marcela é empoderada ou não. É difícil afirmar qualquer coisa a partir do perfil raso e simplório que a revista traçou: O ser retratado ali não parece humano. O que a Veja escreveu é o perfil de uma boneca. Uma mulher impecável, sempre bem humorada, educada e gentil, um robô plástico perfeito para posar para fotos e figurar ao lado do marido.Já eu tenho certeza que Marcela Temer é uma mulher normal. Todos os dias ela acorda de manhã, faz xixi, escova os dentes e começa suas atividades diárias. Ela deve ter mil defeitos e qualidades como todo mundo. Marcela tem mais nuances que aquilo, tem muito mais profundidade.

 

O que ela gosta de ler? Tem algum hobby? Que tipo de música ouve? Será que ela gosta de dançar? Qual o filme favorito dela? Será que ela faz piada e dá risada junto com os seguranças de vez em quando? E qual o prato favorito? Qual a comida que detesta? Ela gosta de cozinhar, será? Será que ela se preocupa com a crise atual?

 

Quando Temer dedicou poemas a ela, ela achou horrível, achou bonito e ficou ainda mais apaixonada ou teve um pouco de vergonhinha, mas achou fofo? Será que de tempos em tempos ela almoça com as amigas, toma duas taças de vinho a mais e fica rindo à toa? Marcela é um ser humano, e a Veja se esqueceu disso.Em todo o perfil, não há uma declaração de Marcela. Tudo que se fala sobre ela gira nas esferas de beleza, de recato, de família. Ninguém perguntou nada pra ela. Parece que não querem saber da Marcela, querem só desenhar esse factoide, esse retrato torto de uma possível-primeira-dama. Parece que, para a Veja, mulher boa não fala. Não tem opinião a não ser sobre a cor do vestido – que deve ser clarinho e compridinho, certamente. A revista não se deu ao trabalho de perguntar pra ela, Marcela, quem ela é.A revista quer mostrar o que é ser uma boa mulher. E afirma que a mulher boa é essa que é bela, recatada e do lar, em detrimento das outras não tão belas ou que não podem deixar de trabalhar por conta de sua situação financeira, ou por serem mães que cuidam de seus filhos sozinhas, ou simplesmente porque não querem deixar de trabalhar.

 

Esse retrato desfocado e barato não reflete a profundidade de qualquer pessoa. A revista, ao publicar esse desserviço jornalístico, não ajuda mulher nenhuma. Parece que a mulher dona de casa precisa ser uma boneca boba e obediente – e obviamente não precisa, é perfeitamente possível ser dona de casa e ter inúmeros outros interesses e talentos. E parece que o resto das mulheres, as não tão recatadas e nem tão do lar,  já são inadequadas só por serem quem são. Criam-se modelos unidimensionais, da mulher boazinha e perfeitinha, ou da outra, que é errada, bruxa, louca.

 

Com esse perfil, a revista consegue gerar cliques, claro. Surfa a onda do impeachment, gera polêmica barata. E não faz bem a ninguém. Quem deve se envergonhar de ser como é não é Marcela, e sim a revista Veja.

Gabi Bianco

Publicitária

Paulistana que não fala orra meu, mãe de gatos, nerd, publicitária, porém limpinha. Gosta de passear, cozinhar, ler, escrever e descobrir séries de tv esquisitas.