Como a Victoria's Secret deu munição para a concorrência

Talvez por ser a última barreira para se chegar à nudez, a lingerie ocupa o imaginário de homens e mulheres. Relativamente recente (a invenção da lingerie data do começo de 1800), esse conjunto de peças íntimas move hoje um poderoso mercado e está contrapondo formas de ver a mulher.

Quem não lembra da icônica campanha “Meu primeiro sutiã”, feita para Valisere por Washington Olivetto? Uma propaganda brasileira de lingerie que traz uma forte representação da feminilidade, foi premiada no mundo inteiro e serviu de parâmetro para gerações de publicitários.

Mas se na campanha da Valisere o enfoque era a descoberta do próprio corpo por uma menina adolescente e seu sutiã, hoje o foco das campanhas está na forma do corpo – se ele é certo ou errado, perfeito e sexy.

Como a Victoria’s Secret deu munição para a concorrência

Se você viu a campanha #ImNoAngel, da marca plus-size Lane Bryant, já sabe do que estamos falando. Com um ataque nada sutil à campanha da Victoria’s Secret e suas “Angels”, sua submarca de lingerie, Cacique, convoca as mulheres a mostrarem que são “sexys” com mais recheio e formas reais.

Um tiro certeiro depois da polêmica causada pela campanha “Perfect Body” da Victoria’s Secret, que despertou a ira das internautas mundo afora. Ao tentar um trocadilho com “body” (corpo e também um tipo de lingerie), e estampar a campanha com suas magérrimas modelos, a marca deu uma escorregada imperdoável em tempos de internet. Tamanha foi a repercussão que a marca não apenas se desculpou como também alterou a campanha para “a body for every body”.

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Mas o estrago estava feito e o espaço aberto para quem quisesse faturar com uma campanha oposta – coisa que a Lane Bryant parece ter feito muito bem. Ou quase. Porque essa campanha também não passou livre de críticas: ela é acusada de constranger as mais magrelas e de estimular a pressão contra elas. Outra crítica: de que seria uma marca oportunista, que vende roupas de baixa qualidade pra um público com poucas opções.

Claro que, em tempos de internet, é difícil agradar a todo mundo e, no geral, a campanha #ImNoAngel vai muito bem, obrigada. Mas é perceptível que ambas as linhas esquecem algo essencial, que Meu primeiro sutiã” lidava tão bem: que a roupa íntima está ligada a sensação de sentir mulher e ser feliz com isso, sem se preocupar com tamanhos e formatos.

Se a menina do primeiro sutiã admirava as próprias formas, hoje a ideia são lingeries que modelem: que deixem mais sexy, mais pra cima, que ajudem a aumentar os seios para aquele vestido com enchimentos, push-ups e muito mais. Claro, que mulher não quer se sentir linda? Mas talvez seja hora de pensar se precisamos mentir pra nós mesmas pra conseguir isso, assumindo um formato de corpo qualquer que seja diferente do nosso.