Consciência sobre sua realidade é o que falta ao brasileiro

Todo ano eleitoral é a mesma coisa no Brasil: O PT é a “última esperança” para a esquerda que tende a apoiar o partido, mas diz que faz isso de forma “crítica”, pois está cansada dos “erros” do PT. O que me surpreende é que quando peço para alguns me explicarem os erros do PT, sempre surgem falas que muitas vezes se assemelham, na atual conjuntura, com aquelas ditas por quem hoje opta em votar num facista de extrema direita sem projetos que foge de debates.

O antipetismo foi cultivado na população de uma forma que é assustadora, parece que se tornou algo comum odiar um partido, muitas vezes sem entender as próprias estruturas partidárias e organizações políticas do país.

Ando exausta realmente de muitas pessoas cobrando autocríticas de partidos, enquanto elas mesmas falam durante os outros três anos coisas como: Não gosto de política. Se abstendo do debate político de certa forma, mas no ano eleitoral se tornam as maiores conhecedoras do assunto e cobram de um partido que ficou APENAS por 12 anos no governo, a culpa pela falta de consciência de classe do nosso povo, um povo calcado no colonialismo que ainda vive essa realidade sem muitas vezes questionar o por quê disso, e que procura nos governos a resolução para seus problemas até mesmo pessoais.  

Num país com o histórico colonial como o Brasil, 10 anos é pouco para se resolver as estruturas de fato, para mais do que foi feito, precisávamos de uma revolução mais radical, e isso dependeria do apoio do povo. Entretanto, vivemos num país que mesmo os pobres falam mal de governos de esquerda e de ideais de igualdade e liberdade.

E não existe revolução sem a base do país, inclusive por isso não caio no papo de que o “povo” abandonou o PT, pois em números o PT está sendo a escolha de uma maioria pobre e preta, diferente de Bolsonaro mais popular entre brancos e de classes sociais mais elevadas. Esses dados são significativos, podem não ser 30 milhões de fascistas, mas não me surpreenderia que são 30 milhões de pessoas racistas, sem consciência de classe e lgbtfóbicas.

Estou em Havana, em Cuba, por poucos dias e numa conversa sobre a novela Avenida Brasil com a atendente do Hostel, ela me perguntou sobre as favelas brasileiras. Eu expliquei que era onde moravam os pobres, disse que os negros eram maioria na pobreza e que pobres não tinham muitos acessos como a educação universitária.

E sabe o que ela me disse? “Que atraso.” Uma mulher cubana com ensino superior que trabalha num hostel e mora numa viela, espaços que são tidos como mais baratos aqui em Cuba, segundo ela mesma me disse, essa mulher achou absurdo vivermos nessas condições de tanta desigualdade no Brasil e eu sei que muitos brasileiros achariam a vida dela um “atraso” ao perceberem que ela não tem nenhum luxo mesmo trabalhando como engenheira para o governo durante anos.

Até pessoas de esquerda, inclusive algumas negras, estão até me ofendendo com suas perguntas sobre Cuba, questionando se eles são pobres. Tirei foto do interior de uma das casas para explicar que por fora são muito simples, sem reforma e até soam parecidas com cortiços brasileiros.

Entretanto, no interior são organizadas e as pessoas vivem com suas portas e janelas abertas, pois a sensação de segurança é absurda, afinal, é uma sociedade em que todos vivem com pouco, mas vivem com o mesmo pouco, logo, não existem diferenças gritantes de classe como no Brasil, a relação de segurança é diferente.

Nunca imaginaria um caixa eletrônico no Brasil ao ar livre como vi aqui, simplesmente porque no nosso país pessoas roubam e matam por objetos, pois a relação com propriedade privada é totalmente diferente da relação daqui.

Inclusive, acho que a TV daqui é muito interessante pois, mesmo que passe novelas brasileiras – e sim, passam muitas -, depois disso vem uma professora discutindo a Constituição!!!

Quando brasileiros, ainda mais pobres, se deparam com acesso a esse tipo de debate? Como é desenhado pela mídia a nossa participação política? Como somos informados? O que nos vendem como ideal? O que nos dizem sobre governos e suas atitudes? Qual o controle que o governo brasileiro tem sobre as mídias?

Toda vez que é sinalizado algum tipo de coisa nesse sentido, as próprias pessoas ficam revoltadas. Fico pensando em narrativas como as do filme Tropa de Elite ou em programas de TV como Datena, e tentando entender como isso é aclamado pelo povo brasileiro, já que não diz muito sobre a narrativa que alguns dizem ter brotado na atual conjuntura.

 

 

A ideia da arma como única defesa da violência, não é algo de hoje e parece que a violência sempre foi cultuada como resposta para aquilo que não concordam ou entendem, pelo brasileiro.

Fico pensando se realmente o nosso amigo, nosso irmão e até mesmo companheiro que está apoiando o fascismo da campanha de Bolsonaro, realmente faz isso por crítica ao PT, pelo partido ter se “afastado” da base ou até mesmo por “manipulação”.

Será que é isso mesmo, ou o brasileiro tem dificuldade de aceitar que somos um país ainda colonial, com uma população que mesmo sendo bondosa em alguns aspectos, flerta com uma ausência de percepção sobre sua própria realidade, que defende os direitos da elite em sua maioria branca, acreditando que isso é o melhor para si?

Temos problemas sérios de compreensão e acesso que foram de forma muito pequena sanados nos últimos 10 anos.

 

Eu sou um exemplo disso, uma pessoa de origem pobre que acessou a universidade, os debates, os livros, a cultura e hoje pode ser entendida como alguém consciente.

 

Entretanto, eu sou exceção e deveríamos ter mais disso, mas a qualquer passo de ampliação de políticas de acesso e até mesmo de discussões de direitos humanos em escolas, a elite brasileira se movimenta e age como se fosse vítima de uma conjuntura em que são extremamente privilegiados e contamina o povo com seu pensamento, pois ela controla os meios de comunicação.

Penso no Uber que peguei no dia que iria viajar, estava saindo de Congonhas pois tinha ido resolver um detalhe do meu passaporte. Então, ele começou a falar de viagens comigo e terminou falando de política, disse que as pessoas que entravam em seu Uber, 70% delas iriam votar em Bolsonaro e que não entendia como as pessoas caiam em algumas mentiras, que ele usava aquele espaço para desmentir fake news, mas que a grande maioria que iria votar nele dizia que era por conta das questões sexuais.

Estamos em 2018 e os brasileiros votam num fascista pois no governo Dilma pensaram na implantação de uma cartilha de discussão sobre HOMOFOBIA em escolas. Isso foi chamado por ultracorservadores ligados a ideias não laicas de “kit gay”, e hoje grande parte das pessoas acreditam que isso existe e, por homofobia, sentem tanto medo que optam por um governo que tiraria seus direitos.

Veja, um governo teve que vetar um projeto de direitos humanos, porque o próprio povo não compreende os benefícios disso para si, logo, se estamos fazendo tantas críticas a um partido, quando iremos ter um olhar crítico sobre nossa participação, nossa falta de discutir política com todo mundo, inclusive na família, mesmo que isso cause desavenças, e nossa noção enquanto sociedade da nossa própria realidade?

Muitas vezes sinto que nós, de esquerda, romantizamos o povo, achando que a pobreza cria uma consciência acerca da própria realidade de forma inerente, e não, isso não é verdade.

Precisamos ter clareza sobre isso e repensar o nosso próprio medo enquanto esquerda, de fazer parte de partidos políticos e se envolver com isso sempre e não apenas em ano eleitoral. Ser ligado a partidos não pode ser visto com teor “criminalizador” como hoje em dia é.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.