De que democracia estamos falando?

As prévias para a nomeação de quem será candidato(a) à presidência dos Estados Unidos conta, para a corrida de 2016, com duas candidatas: Hillary Clinton, do Partido Democrata, e Carly Fiorina, do Partido Republicano.

Clinton tem um histórico que se identifica com o Partido Democrata: passou pelo movimento estudantil propôs reforma no sistema de saúde e tem pautas mais “à esquerda”. Fiorina, por seu turno, é uma executiva de sucesso, tendo liderado a Hewlett Packard por anos e tem uma agenda mais “à direita”. Nas prévias concorrem duas mulheres e seis homens.

Há quem aposte que a eleição de uma candidata mulher seja uma demonstração de avanços democráticos no país, muito embora boa parte da América Latina – Brasil, Argentina e Chile – tenha elegido mulheres presidentas antes que os EUA sem necessariamente trazer em seu bojo avanços relativos mais substantivos em relação à equidade de gênero em comparação com gestões nas quais um homem esteve à frente da nação.

Pepe Mujica com sua descriminalização do aborto que o diga. Uma mulher como presidente é inegavelmente importante, mas o buraco é mais embaixo. Por exemplo: as leis que contribuem com a equidade de gênero passam também pelo Poder Legislativo que, no caso brasileiro, tem pouquíssimxs representantxs de outros gêneros que não o masculino, branco, heterossexual.

Com efeito, o Brasil piorou seu desempenho no ranking de desigualdade de gênero da Organização das Nações Unidas (ONU). Com relação às eleições estadunidenses e para além dos temas que envolvem os espectros políticos que as candidatas representam, o que elas têm em comum? O machismo que as ronda.


Hillary Clinton Awarded The 2013 Lantos Human Rights Prize

Quando as roupas parecem mais importantes que as propostas

Foi em um desses eventos de entrega de prêmios cinematográficos para a indústria hollywoodiana que Cate Blanchett desceu sua cabeça próxima aos pés para pegar de supetão um cinegrafista e perguntar: “você faz isso com os homens”? Clinton fez a mesma pergunta em uma entrevista, quando perguntada sobre o designer de suas roupas e Fiorina teve de lidar com comentário do tipo “eu nunca me deparei com uma candidata presidencial que tivesse unhas polidas.

Aparentemente unhas polidas e designer de roupas são mais temas mais importantes que os rumos econômicos do país ou da política externa quando se trata de uma entrevistada.

Quando o aspecto físico parece mais importante que a agenda presidencial

2013 Greenbuild Conference

Dificilmente alguém lembrará quais eram as propostas de Sarah Palin – candidata republicana – quando concorria às eleições presidenciais. Suas pernas, contudo, fazem parte de uma imagem, fomentada pelos meios de comunicação, que resta no imaginário coletivo.

Não é incomum, após o visível abatimento de Dilma em épocas recentes, a referência à sua magreza e não ao aumento da fragilidade de sua imagem. Não são novas as referências à (falta de) beleza de Hillary e Fiorina, ainda que a última seja relativamente nova à mídia e, portanto, não tenha tido a sua imagem tão explorada.

A mensagem embutida nessa referência é clara: a mulher existe para servir aos olhos e não à política; seu lugar verdadeiro é em um comercial de cerveja e objetificada, não como líder de uma nação.

Quando as candidatas desafiam ou sustentam os ideais de masculinidade e feminilidade

Hillary Rodham Clinton

Amplamente sabido, Hilary é esposa de Bill Clinton. A ela cabe uma imagem de mulher forte, mas ainda assim feminina: a doce e forte esposa que acompanhou seu esposo, inclusive em momento de traição. À Hillary restou o estigma de mulher traída, à Mônica de mulher traidora. Bill Clinton? Bem, para além de constrangimentos à sua figura pública, provavelmente a imagem de garanhão tenha prevalecido. Fiorina, porque CEO de uma grande empresa, está ligada à imagem de “agressividade feia”.

Estes exemplos ilustram que não podemos entender a democracia apenas em termos engessados e formais, via alternância de poder e a representação mecânica de uma mulher na presidência de um país. A democracia, em sentido amplo, requer também liberdades relativas à sexualidade e à identidade de gênero, à igualdade de classe, de raça… de gênero.

Até o final das eleições, ainda veremos grandes gaps relativos a esta democracia.

Image: Hillary Rodham Clinton

Contribuiu: Katiuscia Moreno Galhera – Doutoranda em Ciência Política (UNICAMP).

Redação

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