Dona Gema Trevisan: Bolsa de dressa, Galinha e Tradições Culturais

Dona Gema Trevisan: Bolsa de dressa, Galinha e Tradições Culturais

No dia 25 de julho entre tantas comemorações foi o Dia do Colono. Fui convidada para ir a Otávio Rocha – RS com uma amiga num almoço festivo em comemoração ao colono. Ela estava finalizando um trabalho de pós-graduação com a Dona Gema Trevisan Dalcero. Então, lá fomos nós, eu, Miriam Cardoso de Souza e seu filho ao almoço.

Dona Gema é uma senhora descendente de italianos que trabalha na cantina de um vinícola em Caxias do Sul, e também como artista divulgando a cultura italiana. Ela estava vestida com um traje típico da cultura italiana: vestido, chapéu, bolsa de dressa (palha de trigo) com duas galinhas de plástico dentro. Fiquei me questionando o porquê duas galinhas dentro da sacola. Perguntei para a Miriam e ela me disse que depois pedia a Dona Gema para me explicar. Quando conheci a Dona Gema, fiquei encantada com a gentileza, felicidade, simplicidade em uma só pessoa. Ela é alegre e quando você começa a conversar com ela descobre que tem Sim, todos os idosos são sábios e certamente, cada um possui uma história de vida com a qual podemos tirar grandes lições.

 

Dona Gema apresentou-se após o almoço, circulou entre as mesas com um grupo que cantava e tocava músicas italianas como “Mérica, Mérica”. Ela era a única mulher deste grupo que cantavam e dançavam, alegrando as pessoas. Após a realização das fotos, Dona Gema aproxima-se de nós, e finalmente eu pergunto a ela:

– Dona Gema: Por que a senhora carrega essas duas galinhas de plástico na bolsa?

– Ah, querida, porque antigamente, lá na Colônia, quando as mulheres ganhavam filho…
Elas tinham que ficar na “quarentina” e como tinham que trabalhar de dia e de noite em casa, tinham que tomar o brodo (caldo ou canja) de galinha, e era costume quando a mulher ganhava criança levar galinhas para ela de presente para fazer o brodo…

Gente, caiu o queixo nessa hora…

Nunca imaginei que em menos cinco minutos pudesse aprender tanto e me apaixonar pela simplicidade da Dona Gema. Infelizmente, não consegui conversar muito com ela. Vivemos atribulados pelo tempo. Mas quero voltar ao Museu do Vinho Novo para conversar mais com a Dona Gema. Fiquei me questionando, quantas tradições que eram de nossos avós, antepassados, que muitas vezes achávamos bobagens e não fazemos mais. Quantas tradições
foram perdidas, estão se perdendo, ou se perderão com o passar dos tempos? Alguém aqui já teve que dar benção de casinha para os tios, avôs e familiares? Essa era umas das tradições que estão se perdendo com o passar dos tempos.

Créditos da foto: Miriam Cardoso de Souza

Infelizmente, as tradições estão se perdendo. Por outro lado, fiquei muito feliz que naquele grupo de músicos que acompanhavam a Dona Gema, destacava-se um jovem. Certamente, assim espero, esse jovem perpetue essas tradições. Quais as tradições familiares que foram passadas por seus avôs e familiares? Quando falamos em tradição, estamos falando de músicas, piadas, comidas, arte… Certamente, sua avó tinha um modo especial de preparar a polenta, um bolo…

Dona Gema prepara um sagu maravilhoso, que inclusive o Mago da Cozinha, do Fantástico, veio aprender com ela. Além do sagu, Dona Gema faz chapéus de dressa. Mas, o que é dressa? É uma tradição antiga dos italianos. As pessoas plantavam, colhiam e tingiam o milho para depois fazer as tranças. As tranças são chamadas de dressas. A partir das tranças as mulheres faziam chapéus, bolsas, cestas e outros… Para fazer um chapéu precisa-se de 10 tranças. Uma curiosidade: as mulheres faziam a dressa somente à noite, para aumentar a renda das mulheres, para que elas pudessem comprar pó de arroz, rouge e batom. Afinal, durante o dia tinham que trabalhar para garantir o sustento da casa. Assim, as bolsas e chapéus reforçavam o orçamento da família. Um detalhe importante: Os moços analisavam se as moças eram prendadas pelas suas habilidades com a dressa e também  bordados antes do casamento. A arte da dressa está em extinção. Mas, Dona Gema faz a parte dela, ela ensina no SESC de Caxias do Sul de graça para quem quiser aprender essa arte maravilhosa. Já realizou também cursos em outras cidades da região.

Créditos da foto: Miriam Cardoso de Souza

Este talento foi reconhecido ano passado com o Prêmio Destaque da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, e ainda, diversos prêmios de reconhecimento e divulgação da cultura italiana. Aliás, a Miriam é uma fotógrafa maravilhosa, se quiserem ver mais imagens clique aqui http://
www.flickr.com/photos/admiriam/

Quais as suas tradições culturais que são passadas de geração para geração? Será que já perdemos algumas dessas tradições? Fica aqui um questionamento: Como preservar nossa identidade cultural de modo que possa ser perpetuada?