E se fosse o contrário?

Do autor dinamarquês Hans Christian Andersen, o conto A Pequena Sereia ganhará uma nova versão para o cinema. A responsável, assim como no clássico de 1989, será a Disney e, no papel da protagonista Ariel, Halle Bailey, conhecida por cantar maravilhosamente ao lado da irmã gêmea Chloe, por ter sido elogiada por Beyoncé e pelo trabalho na série Black-ish. 

 

 

Tudo estaria ótimo para a opinião do público da Disney, caso Halle não fosse negra. Dos argumentos menos agressivos (porém igualmente racistas), o problema na escalação é o fato de que a jovem atriz supostamente não se parece com a Ariel da animação, que é branca e tem cabelos vermelhos, tampouco remete a uma mulher dinamarquesa, de onde a história se origina – isso tudo sem contar com o fator cauda de peixe, é claro. 

 

O incômodo é tanto, que a hashtag #NotMyAriel (ou “não é minha Ariel”) foi criada em protesto no Twitter e a pergunta: “e se fosse o contrário?”, levantada em muitos dos posts. 

https://twitter.com/hasosah_2012/status/1146518957102444544

 

Ok, então vocês deveriam escolher a Emma Roberts para o papel de Tiana. 

 

A resposta é muito simples, na verdade. Se fosse o contrário, uma atriz branca sendo selecionada para interpretar um personagem originalmente negra, como no exemplo do tweet acima, seria racismo. E seria, sim, muito revoltante. 

 

A realidade que presenciamos na cultura pop é que, na verdade, o contrário acontece o tempo todo e tem nome: whitewhashing (em inglês, “white” é branco e “washing” é limpeza). A prática consiste em escalar atrizes ou atores da raça branca para papéis de pessoas de outras raças – asiáticos, latinos, negros, indígenas, etc. Na maioria das vezes, essas raças são as tidas como minorias e que sofrem apagamentos na sociedade em que vivemos. 

 

O whitewashing é quase tão antigo na indústria do cinema quanto a prática de blackface, pois, por não escalar atores de diferentes etnias, os diretores e figurinistas usavam tinta nos atores, geralmente exagerando traços e estereótipos, que depois eram reproduzidos nas atuação dos filmes. 

 

Quando a cor da pele conta histórias

 

Quando se “limpa” a aparência de um personagem étnico, se “limpa” também a sua origem, suas motivações dentro de uma história. 

 

No caso de outro clássico da Disney, Mulan é baseado em um poema chinês datado, inicialmente, no século VI D.C., chamado “A Balada de Mulan”. A existência histórica da mulher que se vestiu e homem para ir a guerra no lugar do pai nunca foi comprovada, mas a cultura chinesa acredita que ela existiu de verdade. Por isso a história de Mulan só pode ser contada corretamente se ela for interpretada por uma mulher chinesa. 

 

Já a índia Pocahontas deixou traços históricos, que datam sua morte como tendo acontecido há mais de 400 anos. Seu nome verdadeiro era Matoaka, filha do chefe dos povos Powhatan, localizados na Virgínia, nos Estados Unidos de 1617. Um povo nativo-americano, indigena. A raça de Pocahontas faz parte de quem é a personagem. E é justamente o que permeia seu amor proibido por John Smith, narrado na animação da Disney de 1995 e que, na vida real, originou o primeiro casamento entre um europeu e uma americana. 

 

Antes da escalação de Halle para o papel de Ariel, o fato de que não só a A Pequena Sereia, mas também A Bela Adormecida, A Branca de Neve, Cinderela e muitos outros contos de fadas clássicos – com os quais nós mulheres, ainda meninas, somos condicionadas a crescer fantasiando em torno – tiveram suas origens e detalhes distorcidos para receber novos formatos e o conhecido “final Disney” – ou, como conhecemos por aqui, o “final feliz”. 

 

Na fábula dinamarquesa original, a sereia Ariel, está crescendo e querendo descobrir o mundo para além da superfície do oceano onde mora. Em uma dessas “escapadas” para o mundo dos humanos, ela assiste a celebração do aniversário de um príncipe e acaba salvando-o de um afogamento, momento em que se apaixona por ele. Até então, tudo muito parecido com o que nos contou a Disney, certo? 

 

Exceto que na história de Andersen, a transformação temporária de Ariel para uma humana é dolorosa e a faz andar com dificuldade, ela não consegue conquistar o príncipe para tornar-se humana e viver feliz para sempre ao lado dele – o príncipe casa-se com a princesa de um reino vizinho – e, por falhar no encantamento da bruxa Úrsula, acaba, ainda sem voz, se transformando em areia. 

 

Mas, por mais absurda e violenta que toda esmsa história possa parecer, o menos provável e o mais fantasioso se encontro no fato: Ariel é uma sereia. Uma criatura mítica, que não existe de verdade. Ela não é descrita por Andersen como uma humana, tampouco tem seu tom de pele e cor de cabelo especificados. Pelo que sabemos, ela poderia ter a pele verde e cheia de musgos do mar, ou o cabelo murcho e embaraçado pelo fato de viver debaixo d’água.

 


Por isso é tão estranho perceber que as pessoas acreditam menos na possibilidade de uma sereia negra no cinema do que em sereias.

 

 

Quando a cor da pele não precisa contar histórias

 

Nunca esteve tão claro que os fãs de cultura nerd/pop odeiam as mulheres negras – principalmente quando elas assumem um papel já visto anteriormente na pele de mulheres brancas. As histórias de racismo online sofridas por Anna Diop, a Estelar de Titãs (Netflix); Noma Dumezweni, que fez Hermione Granger na peça de teatro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada e agora, de Halle Bailey, comprovam isso. Estas são todas personagens que, ao contrário de Mulan ou Pocahontas, não dependem de etnia para terem suas histórias contadas. 

 

Vale lembrar aqui que, nem mesmo Tiana, a primeira princesa negra nas animações da Disney, precisaria ser negra. A Princesa e o Sapo é provavelmente o conto de fadas mais repetido na sociedade: a história escrita pelos Irmãos Grimm, sobre a princesa que beija um sapo e ele se transformou em um lindo príncipe. 

 

O que aconteceu foi uma adaptação. No conto original, a princesa-título era mimada e derruba uma bola de ouro na lagoa de seu palácio, o que a leva a conhecer o sapo enfeitiçado e abandonar seus maus hábitos por ele. Já na versão de 2009, conhecemos Tiana, uma jovem trabalhadora e esforçada que sonha em abrir seu restaurante temático de jazz em Nova Orleans, uma região habitada, majoritariamente, por negros americanos após a abolição da escravidão por lá, em 1865. 

 

Tiana não precisava ser negra para ser uma jovem pobre, não precisaria ser negra para amar jazz e também não precisaria ser negra para morar em Nova Orleans (apesar da predominância). Mas, na tentativa de fazer jus a uma cultura, a Disney acabou reforçando estereótipos ao criar esta princesa – e, talvez por isso, não houve revolta do público. Tiana estava em seu lugar, em um mundo de meritocracia. Isso sem contar que, em 96 anos de Disney, a primeira princesa negra só surgiu 80 anos depois. 

 

Porém, ter uma Tiana branca no cinema ainda seria um apagamento considerável. O que poderíamos esperar? Emma Roberts imitando trejeitos e falas da cultura negra americana? Ou pior ainda, com o rosto pintado para interpretar a princesa? É isso que acontece quando ganhamos representação: ela vem em migalhas. 

 

Halle Bailey durante as filmagens de A Pequena Sereia

 

O whitewashing vai para muito além da Disney e, na maioria das vezes, a etnia de um personagem é usada para ridicularizá-lo, ao invés de normalizá-lo socialmente. Neste ponto embranquecimento de personagens étnicos ainda acontece simplesmente por já ser natural em Hollywood

 

Quem conhece a heroína Katniss Everdeen dos livros pós-apocalípticos Jogos Vorazes. por exemplo, sabe que ela é uma garota de origem indígena e vem de uma vila cujo povo exibe os mesmos traços. Porém, o cinema americano escolheu Jennifer Lawrence para dar vida a personagem, no que se tornou um dos exemplos mais escancarados da prática. Não, Katniss não precisaria ter uma etnia para salvar o mundo, mas em uma indústria tão branca, por que teria? Por que isso passaria pela cabeça do casting dos filmes?

 

 

Por isso é importante lembrar que o contrário do whitewashing não existe, apenas por simplesmente não haver um protagonismo de atores étnicos proporcional ao de atores brancos — menos ainda, atores étnicos em papéis originalmente brancos!

 

 

Isso me leva não só defender a nova Pequena Sereia como também apoiar a produção no cinema pois, apesar de ter a protagonista nas mãos, Halle também tem carregado o ódio da internet nas costas.

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.