“É uma histérica e precisa de homem” – O abuso como forma de corrigir meninas e mulheres.

Greta ThunbergImagem: Lionel Bonaveture/AFP

 

“Ela tá precisando de sexo, de sexo, ela é uma histérica, uma mal amada”, essa foi uma das frases absurdas do radialista Gustavo Negreiros, na rádio 96 FM de Natal (RN), ao se referir a ativista Greta Thunberg de apenas 16 anos. Greta é uma ativista sueca, que está por trás do movimento Greve das Escolas Pelo Clima. Mesmo sendo tão jovem ela é uma liderança que mobiliza milhares pelo mundo, o que já gera muita revolta contra ela. Afinal, como uma menina pode se tornar tão simbólica em sua luta? Sabemos que o machismo cria regras de comportamento para meninas e mulheres, e todos essas regras estão ligados a uma visão de submissão de nós em relação a homens. Logo, uma jovem se tornar protagonista de uma luta é tido como desacato para manutenção dessa ordem misógina.

 

E Greta faz isso muito bem, ela desafia poderosos a agir em relação ao clima, e desafia homens que estão acostumados a associar sonhos de revolta, revolução e heroísmo a meninos e homens, a engolir uma jovem menina sendo ouvida sem precisar conciliar ou ser maleável. Outro ponto relevante da sua narrativa é que ela foi diagnosticada com Síndrome de Asperger, que faz com que ela seja alvo de mais violência e preconceitos capacitistas de quem não consegue entender suas demandas, sua força e seu foco num assunto. É impressionante que das mais diversas formas tentam deslegitimar o que Greta está fazendo, fazendo uso da própria discussão racial para isso. Um exemplo do que chamamos de Token, para justificar seu não interesse com o que Greta fala e incomodo com sua figura estão usando negros e/ou a realidade negra para desvalidar o que ela diz. Ignorando que a própria, mesmo ainda jovem, localiza no próprio discurso seu lugar de privilégio. 

 

Sobre como as pessoas se sentem ao ouvir ela, vamos lembrar que ninguém é obrigado a nada, tampouco Greta está obrigando adultos para estar com ela, seu foco vêm sendo promover a consciência sobre o debate ambiental entre os mais jovens. E suas cobranças são direcionadas a grandes líderes econômicos e políticos, como Trump. Não somos “nós” os cobrados diretamente, mas muitos de nós compramos essa narrativa de incômodo mesmo podendo ser vítimas fáceis e vulneráveis de uma catástrofe climática, que pode causar várias coisas entre ela ampliação da FOME. Já sabemos que a FOME existe e é um instrumento de poder num sistema capitalista, imagina isso se ampliando, se ampliando, se ampliando principalmente para aqueles que já são vistos como descartáveis.

 

Dito tudo isso, vamos as falas de Gustavo Negreiros um homem adulto, por trás de uma mídia, que se sentiu no direito de dizer que uma MENOR DE IDADE precisava de sexo. Na fala de Gustavo fica explícito sua ideia que sexo é algo que “conserta” mulheres e meninas de um comportamento de gênero que não se encaixa no que se espera para nós. Veja bem, ao se referir a Greta como histérica, Negreiros já deixou claro seu viés misógino. Histérica é um ofensa historicamente machista que associa o útero a perturbações emocionais, que no caso de mulheres, são associados a todos os comportamentos que não se encaixam nos padrões pré estabelecidos numa lógica patriarcal do que é ser mulher. Então se subentende que o problema de Negreiros é que as ações da jovem Greta, como mobilizar milhões, ter um discurso ativista focado e coerente, se importar com uma causa social, promover greves, cobrar lideranças políticas sem conciliar, ser enfática, cobrar ações imediatas, ser vista até mesmo como “agressiva”; NÃO condizem com o que ele e a sociedade machista acreditam ser o correto para uma menina. Portanto, na cabeça dele e de tantos misóginos é necessário que Greta seja parada e uma das formas de fazer isso é um corretivo sexual, e para mim isso é simétrico a abuso. 

 

Ao dizer que Greta precisa de sexo, se abre margem para ideia que o comportamento dela só será corrigido a partir de uma transa. Logo, não é sexo como escolha, e sim sexo como forma de submissão, controle e violência de gênero. Na minha concepção, toda e qualquer figura que associa o ato sexual a uma forma de subordinar mulheres está falando de atos sexuais forçados, abusos e violência de gênero. Por isso a fala dele é ainda mais absurda se tratando de uma menor de idade, uma menina que só está seguindo um ponto de vista e agindo em relação a isso, é fato que a revolta desse homem adulto, mostra o quão somos poderosas a assumir um lugar de gênero não esperado para meninas e mulheres. E ao mesmo tempo o quanto estamos suscetíveis e vulneráveis.

 

E surpreendentemente para muitos homens de esquerda a discussão sobre mudanças climáticas sendo associada a uma figura de 16 anos menina, também é um motivo para agredir e desvalidar essa jovem. Um dos textos difundidos por um homem de esquerda, faz comparações falso simétricas e tokenização da questão racial, tentando desvalidar a importância do discurso de Greta e da sua figura. Muitos estão recorrendo a  violência assassina que aconteceu com Ágatha para dizer que se importam com isso e não com Gretas. Ou seja, uma falsa analogia está sendo usada para desvalidar um discurso que sequer se colocou em oposição a debates raciais e de violência policial. Contudo, parece ser insuportável para alguns homens, independente do espectro político que se identificam, ver mulheres se tornando protagonistas de discussões sociais mundiais.

 

Por fim, toda essa história deixa claro o que ativistas feministas, anti racismo, lgbts engajados numa visão interseccional deixam claro: É impossível desassociar as pautas climáticas de outras lutas sociais, nossa vulnerabilidade e marginalização histórica nos coloca num lugar em que não é possível conciliar mais nossa existência com um modelo nocivo. Não precisamos de sexo, não precisamos de homens, não precisamos de violência sexual associada a corrigir nosso comportamento, precisamos de um planeta, sociedade e vida possíveis no mais amplo que isso pode significar. A assertividade feminina é historicamente punida com fogueiras, com plágios, com manicômios, com surras, com assassinatos, e em 2019 com fake news e falsas simetrias. Estamos vivendo tempos que por mais que estejamos avançados tecnologicamente, ainda somos conservadores e retrógrados no que diz respeito a visibilidade e posicionamento de mulheres e meninas.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.