“Ela fala inglês, tem aula de balé” – do balé ao bairro nobre, vidas negras seguem sendo descartadas.

Enterro de Ágatha Félix  Foto: Gilvan de Souza/Agência o Dia/ Estadão Conteúdo

 

Na noite de sexta feira, uma criança de apenas 8 anos foi baleada com um tiro que, segundo testemunhos, veio da polícia militar. Foi pelas costas que perdemos Ágatha Félix, e assim que ela se tornou mais uma vítima da política de segurança genocida do atual governador Wilson Witzel do Rio de Janeiro. O caso chocou o país, sendo a quinta criança morta no Rio de Janeiro só esse ano, é de destruir qualquer pessoas ver as fotos da família de Ágatha e as falas de seu avô em uma entrevista que circula pelas redes:

 

Não foi o filho dele, nem a filha dele não, foi a filha de um trabalhador. Ela fala inglês, tem aula de balé, tem aula de tudo, era estudiosa. Ela não vivia na rua não. Agora vem o policial aí e atira em qualquer um que está na rua. Acertou minha neta. Perdi minha neta. Não era para perder ela, nem ninguém.

 

Pelas falas dele é evidente que Ágatha tinha o que chamamos de capital familiar, vinda de uma família que mora no Complexo do Alemão, muitas pessoas que entendem que todo pobre, preto vive às margens sem saber sobre seus direitos, seu lugar social, ignora que o estereótipo reforçado por filmes e novelas não abrange as famílias, sua organização social, os sonhos, e as inúmeras camadas num mesmo território. Ignoram a humanidade por trás dessas pessoas, que são influenciadas pelos mesmos símbolos que muitos que ocupam outros territórios e outra classe social. Na fala do avô de Ágatha fica claro que o balé e o inglês são símbolos que ele usa para explicar a importância de sua neta para todos nós e tentar gerar aproximação provando suas humanidade. É emblemático que ao mesmo tempo que clama pela dor de perder uma vida significativa, ele insiste em provar o valor dessa vida. Que sociedade é essa que pessoas em luto precisam nos lembrar o quanto a vida de uma garotinha de 8 anos é importante.

 

É fato, ainda no Brasil se faz necessário mostrar que “valemos a pena” quando corpos negros são empilhados em necrotérios, lembro de uma conversa com meu atual companheiro sobre os lugares que ocupamos e a simbologia disso, e ele me dizendo que em uma enquadrada violenta da polícia o respeito só chegou quando mostrou sua carteirinha da USP. Evidentemente e simbólico como a nossa humanidade, enquanto negros, precisa ainda de apetrechos, crachás, roupas, diplomas, cursos, etc que garantam para outros não só nossa humanidade, mas o quanto valem a pena dentro de um sistema que classifica vidas como relevantes ou não para a sua manutenção.

 

Não é de se espantar que esses símbolos estejam ligados aos mesmos que a elite usa para se diferenciar dos ditos “comuns”, os símbolos para garantir status e também para financiar uma política de exclusão e morte. Chama atenção que numa situação de extremo desespero o avô grita por esses símbolos, pois no fundo mesmo que de alguma forma tenham acessado a possibilidade de conceder a pequena Ágatha acesos, isso não protegeu aquela menininha da violência racista, classista promovida pelo Estado. E isso nos lembra um outro caso ainda esse ano no Rio de Janeiro, quando um jovem que morava na Barra da Tijuca, Pedro Gonzaga, foi assassinado em frente da sua mãe por um segurança do supermercado Extra que acreditou que tinha o direito de sufocá-lo até a morte de forma cruel e violenta. O que esse homem provavelmente não esperava, é que Pedro também vinha de uma família que morava na região. 

 

Sem dúvidas, matar pobre, preto é algo que se tornou corriqueiro na história desse país. O que surpreende os assassinos e ganha as manchetes não são mais a violência de matar, mas acabar nesse caminho matando, violentando um negro que ora ora, têm uma família estruturada ou recurso financeiro. Estamos vivendo tempos de banalização total da violência, essas mortes se tornam exceção num país que a cada 23 minutos mata um jovem negro. Essas mortes deixam famílias sem chão, da menina que foi na bienal no livro, ia ao balé e fazia inglês, ao jovem negro que estudou em escolas particulares e morava num bairro da elite carioca. Nada protege sujeitos negros do estigma que significa ser negro, estar em territórios ditos negros, ter corpos que te transformam em suspeitos, morar em regiões em que o fato de ter maioria negra e pobre faz com que a polícia se sinta no direito de atirar com helicópteros em escolas e crianças. O dinheiro, os acessos do balé ao condomínio na Barra, não protegem de mortes violentas endossadas pela estrutura racista.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.