Eleições 2018: Bolsonaro é um risco para você, negro

Em todas as eleições para a presidência existe muita dúvida, inclusive uma galera que acredita que tanto faz. Realmente é muito complexo perceber o quanto seremos afetados apenas lendo os projetos de governo de um presidente.

Então, resolvi mostrar parte por parte, quais os principais riscos que Bolsonaro em seu projeto nessas eleições, podem nos causar enquanto negros, entendendo que ele já simbolizou em uma série de entrevistas que não é antirracista, pior, que fortalece conceitos racistas e preconceituosos e, atiçados por seus discursos, seus eleitores vão às ruas e atuam de maneira violenta.

Há exatamente uma semana Mestre Moa do Kantendê foi assassinado com 12 facadas por um eleitor do Bolsonaro, ao defender seu voto em Haddad nestas eleições. Sabemos que esse já é um grande motivo para repensarmos como nossas vidas não valem nada, quando não concordamos com um determinado posicionamento. Contudo, independentemente desse assassinato brutal e das inúmeras entrevistas que Bolsonaro atua de forma antinegros, o meu foco é falar de seu plano de governo.

 

 

O que está em jogo segundo o próprio Plano de Governo de Bolsonaro:

1 – Representação para quê?

A proposta de Bolsonaro para essas eleições, é apresentada numa série de slides, que começam com a total ausência de representação negra, como é possível ver as imagens só possuem mãos brancas:

 

 

Basicamente, a equipe de Bolsonaro na escolha de imagens da terceira página de seu plano, já sinalizam a ausência de pessoas negras com símbolo do que ali irá ser defendido nas páginas que seguem.

Reforçando suas falas e de seu vice, que recentemente citou “branqueamento de raça” como elogio para seu neto, sempre deixaram claro: ausência de responsabilidade e ética para com a luta antirracismo. As imagens podem soar bobagem, ou mera falta de bom senso, mas não.

Para quem trabalha com isso, é fato que a escolha estética é um sinal. E o dele é bem claro, então para quem se importa com a presença de negros em espaços, essa é a primeira luz.

2 – Defesa da propriedade privada em detrimento das pessoas “más”. Mas quem são as pessoas más?

Seu celular, seu relógio, sua poupança, sua casa, sua moto, seu carro, sua terra são os frutos de seu trabalho e de suas escolhas! São sagrados e não podem ser roubados, invadidos ou expropriados!

Basicamente, o plano de governo de Bolsonaro nessas eleições, defende que suas coisas são extremamente importantes e casos sejam tiradas, você pode reagir a isso. Num dos pontos do seu Plano de Governo, ele defende o uso de armas como uma forma de defesa e ainda diz que armas do lado do “bem” são a defesa necessária para nosso bem-estar:

As armas são instrumentos, objetos inertes, que podem ser utilizadas para matar ou para salvar vidas. Isso depende de quem as está segurando: pessoas boas ou más. Um martelo não prega e uma faca não corta sem uma pessoa…

O problema é que, ao desconsiderar o ser humano e colocar objetos num nível de humanidade que precisa ser defendida, ele deixa claro que se alguém roubar um celular pode levar um tiro e tudo bem, isso foi feito “em nome do bem”. Mas, quem irá julgar isso?

É importante deixar claro a iminência de uma barbárie e de expressivo aumento do genocídio da população negra diante disso. Se você é dona de casa e tem medo que seu filho “seja confundido” com um bandido e leve um tiro, pois bem, lembre-se que isso pode piorar caso Bolsonaro ganhe.

Sabemos que jovens negros são confundidos com “bandidos”, mortos e espancados, quando eram inocentes e sequer tinham nenhuma ligação com atos ilícitos. Então mantenho a pergunta: Quem vai definir isso e a partir do quê? E se acha que estou exagerando, olha quantas “confusões” envolvendo pessoas negras e crimes:

 

 

 

3 – Não vai se importar com mortes causadas por policiais. E as crianças e pessoas mortas “sem querer”?

Segundo o que tirei do próprio Plano de Governo dele:

Enquanto a esquerda está preocupada com as mortes associadas a ações policiais, segundo a Ordem dos Policiais do Brasil (OPB), foram mortos 493 policiais em 2016! Em 2017, esse total subiu para 552 e, infelizmente, tudo indica que teremos ainda mais policiais mortos em 2018.

Aí você pode dizer que não preocupa com as mortes causadas por polícias, e que realmente é necessário não se importar com o que eles causam, então você vai ignorar que:

O Brasil teve em 2017 um total de 5.012 pessoas mortas por policiais, sendo 790 pessoas a mais que em 2016.

E antes que você ache que são bandidos sendo mortos por policiais, preciso te lembrar casos como esse:

Adolescente é morto por policial militar na zona oeste do Rio

Jovem morre com tiro no pescoço durante abordagem policial em Santo André

 

 

Polícia confunde carro de bandidos e mata criança que estava com família em Teresina, Piauí.

 

 

Policial militar denunciado por matar menino de 11 anos no Lins.

 

 

 

Basicamente policiais matam inocentes, muitas crianças, mas isso não será uma questão para Bolsonaro, caso ele seja eleito. Pior, se hoje se denuncia a violência da polícia nas periferias e favelas, é fato que dada as suas medidas, isso irá aumentar ainda mais. Por incrível que pareça, uma situação que não é sequer ideal, que é de jovens negros nesse país mortos a cada 23 minutos, pode ser ampliada em níveis que não consigo mensurar em palavras, então vamos para o ponto 4:

4 – Fortalecimento do genocídio da população negra!

Para quem já sabe que esse é um mal que assola o país ou que já perdeu algum membro da família, amigo, vizinho negro, morto de forma injusta, já imaginou como será a situação se além de pessoas terem armas, o GOVERNO der LICENÇA para polícias matarem? Sim, é isso mesmo. Bolsonaro em seu Plano de Governo nessas eleições quer garantir que nenhum ato seja considerado ilícito quando cometido em horário de trabalho:

Policiais precisam ter certeza de que, no exercício de sua atividade profissional, serão protegidos por uma retaguarda jurídica. Garantida pelo Estado, através do excludente de ilicitude. Nós, brasileiros, precisamos garantir e reconhecer que a vida de um policial vale muito e seu trabalho será lembrado por todos nós! Pela Nação Brasileira!

Basicamente, se só diante de algumas situações como “legítima defesa” se considerava o excludente de ilicitude, o plano de governo de Bolsonaro quer garantir isso de forma geral.

5 – Fortalecer encarceramento e reduzir a maioridade penal para 16 anos. E isso pode te atingir mesmo que não se veja como “bandido”.

O lema do Plano de Governo de Bolsonaro para Segurança é:

PRENDER E DEIXAR NA CADEIA SALVA VIDAS!

E você pode dizer que concorda com isso, o problema é que como já mostrei acima, pessoas negras são alvos recorrentes quando se trata de ser um inocente associado a bandido. Logo, você que acredita na redução da maioridade penal, já imaginou como seria se seu filho, primo, irmão, amigo de apenas 16 anos fosse pego numa situação e confundido com um bandido?

Se ele não for morto, já que a polícia estará liberada para isso, ele pode ser preso e sequer ter direitos como preso assegurados. De forma geral, a meta dele é que se fortaleça o encarceramento, num país que tem a terceira maior população carcerária do MUNDO. Então, por favor, repense seu voto se você pode ser alvo.

 

Basicamente se você é NEGRO e BRASILEIRO, garanta estadia que não seja nas periferias e favelas, garanta que não seja confundido com bandidos em áreas periféricas ou mesmo em ambientes de classe média e consumo, garanta que seus filhos não são confundíveis, e repense se é importante estar representado ou não.

Caso não tenha como mudar tudo isso, mude suas escolhas nessas eleições. A situação dos sujeitos negros no Brasil não é ideal, mas é assustador que os projetos de Bolsonaro podem ampliar uma situação de marginalização e violência da qual já somos alvos.

Realmente não é mensurável o que pode acontecer em relação aos dados de genocídio da população negra caso todas essas medidas sejam aprovadas, contudo, já é absurdo que elas estejam sendo propostas e apoiadas por muitos de nós, negros, os que mais vão perder com isso.

PERDER VIDAS! VIDAS!

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.