#EleNão. Mulheres brasileiras: Decisivas nas eleições que não são eleitas

Pensei em escrever sobre política esta semana, afinal, tem dois fatores que me abalaram muito no que tange o campo político e me deixaram desanimada. Tanto que, ao contrário das eleições anteriores, não estou com a mínima vontade de ter uma participação mais ativa.

Concordo que isso não é o ideal, entretanto, vamos levar em consideração tudo que aconteceu recentemente e pensar que sendo mulheres estamos sendo convocadas a ser MAIS UMA VEZ, a linha de frente de um processo político que parece nos desconsiderar e menosprezar. Vamos aos fatos:

O primeiro foi, sem dúvidas, a execução da vereadora Marielle Franco, que ainda não foi explicada seis meses após o fato. Logo, não temos certeza dos motivos e flutuamos numa série de inseguranças sobre o que leva uma jovem e promissora política ser assassinada.

Existem suposições, existem possíveis motivos, existem pessoas, em especial familiares aflitos pela solução desse crime. Contudo, meses depois de seu assassinato repentino não sabemos nada, nada!

Então, como possível resposta a esse ato marcante e atroz, uma série de mulheres negras estão se candidatando denunciando uma outra faceta desse cenário político. Muitas continuam sem apoio financeiro dos seus partidos se comparadas com apoio financeiro que pessoas brancas tendem a receber.

 

Mesmo assim, ainda parece que estar no lugar político sendo mulher e/ou negro ainda nos é negado, tristemente a morte de Marielle nos indicou entre muitas outras coisas essa verdade.

 

 

 

O cenário político é decepcionante e isso me leva ao segundo ponto: a retirada agressiva de Dilma do seu cargo como presidenta, que parece ter perdido a relevância em meio as notícias surreais cotidianas do país.

Dilma sofreu um impeachment político acompanhado de inúmeras violências, como adesivos que simulavam abuso sexual, ofensas como se referir a ela como “vaca”, panelaços, uma carta machista do seu vice, e uma série de homens proferindo ofensas a sua pessoa em meio a uma votação no Congresso que envolveu apologia a um torturador da Ditadura.

Tudo isso passou. Passou porque o cenário é atroz, e também por se tratar de uma mulher sendo agredida num país onde isso virou hábito. Fica parecendo que não foi tão violento assim e nem tão significativo no que tange a participação política de mulheres, não só como quem vota, mas como quem pode ser votada e eleita.

 

 

 

 

A participação política feminina no Brasil pode decidir o cenário das eleições. Nós, mulheres, representamos 52% do eleitorado brasileiro, e a nossa indecisão política ou falta de apoio evidente a um candidato, faz com que as pesquisas estejam voltadas para entender o que querem as mulheres brasileiras nas eleições.

 

Os candidatos também estão visando o público feminino, não estranho que Marina Silva lidere se apenas considerarmos os votos do eleitorado feminino, e esteja batendo muito nessa tecla nos seus debates. Debates esses que já denunciam a forma como o comportamento masculino se manifesta quando se trata de política.

Marina muitas vezes parece ficar de lado, em relação a conversa que outros candidatos mantêm entre si, e quando é chamada para o debate as supostas “pautas femininas” surgem, pois cabe a ela indagar.

Parece realmente que mulheres ganharem menos no Brasil, é um problema só de mulheres, e não da sociedade como um todo, que economicamente é afetada pela manutenção dessas lógicas sexistas.

 

 

Então, chego no último ponto: Um país que tem Bolsonaro com intenções de voto que o levam para o segundo turno, está dizendo com todas as letras que odeia mulheres.

 

Basicamente, a conduta do candidato é de alguém altamente machista e despreocupado com tudo que diz respeito ao foro feminino, chegando a justificar que mulheres ganham menos, por engravidarem ou dizer que uma de suas colegas deputadas que não estupraria ela, pois ela não merecia. Ver Bolsonaro ter força expressiva, me faz realmente ter medo do tipo de pessoa que convive comigo diariamente.

 

Como o candidato não apresenta nenhuma proposta econômica, social e de planejamento, evidentemente sua popularidade e votos se dá pelo discurso de ódio, então, sequer adianta ficarmos apontando para os que simpatizam com ele, pois são suas atrocidades que o fortalecem.

 

 

Então, se é pelo discurso tenebroso que pessoas são empáticas a ele, com quais tipos de pessoas estamos diariamente lidando?

A rejeição das mulheres em relação ao candidato Bolsonaro é explicável e pode fazer com que esse homem e seus ideais violentos e conservadores não sejam eleitos. Entretanto, estamos sendo decisivas nas eleições que não somos eleitas.

Afinal, no que diz respeito a participação das mulheres na política, o Brasil é um dos países com mais baixa representatividade feminina, estando em 161ª posição de um ranking de 186 países sobre a representatividade feminina no poder executivo, tendo apenas 12% do Congresso Nacional sendo representado por mulheres.

Nas eleições de 2016, dos 50 mil vereadores eleitos, apenas 7.811 eram mulheres. O cenário político demonstra que a nossa ausência é a normal. E, por mais que existam cotas para mulheres, os partidos nacionais continuam não incentivando a participação feminina plena, chegando a usar mulheres para puxar votos para seus outros candidatos, muitas vezes até para alavancar a carreira de seus próprios maridos.

Então, como podemos nos engajar na atual conjuntura?

No atual contexto, temos em especial dois homens, brancos, se opondo e com chances reais de serem eleitos. Um, como já disse, tem uma proposta conservadora e violenta para com as minorias, não apresentando para a população algo além disso, pois no quesito projeto político ele simplesmente não o tem.

O outro apresenta números, projetos, ideias, mas não deixa de se desvincular do modelo antigo de coligações problemáticas e isso fica evidente pela sua vice. Mas, mesmo assim, ambos estão se tornando propostas viáveis num cenário em que mulheres se organizam contra o fascismo, mas não têm sua organização legitimada para serem consideradas passíveis de serem eleitas.

 

Somos decisivas, só que ainda como papel de apoiadoras, de decisões tomadas antes de nossas próprias decisões. Ainda estamos sendo “coadjuvantes de peso” em um cenário no qual sequer nosso protagonismo é aventado, nossas ideias e lutas não são valorizadas, e nossas vidas valem, de fato, a pena.

 

Acredito que uma campanha por “vote em mulheres” não se trata, nessa realidade, de uma escolha de busca de autenticidade entre iguais. Não é sobre clubinhos. Não é sobre identidades pré-estabelecidas.

Votar em mulheres e termos mais mulheres em cargos representativos no legislativo e executivo é sobre tornar a democracia o que de fato ela deve ser: plural, ampla, representativa e includente.

Um sistema político que contemple, em suas divergências e consensos (difíceis) a vida, e não a morte. E, ainda hoje, 2018, a vida das mulheres está sendo rifada, seja do lado de cá, seja do lado de lá.

Faça sua escolha.

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.