Essencialismo racial: até quando nós negros vamos aceitar que ditem o que somos?

 

Um dia após o término do Rock in Rio cheguei no Rio de Janeiro para um breve compromisso de trabalho. No hall do Hotel enquanto aguardava pelo quarto, vi um papel plastificado anunciando passeios pela cidade e me chamou atenção o “tour favela”. Nesse tour essa possível passear pelo Vidigal com carro e guia pelo valor de 200 reais, e sim, o nome era exatamente esse que escrevi. Neste ano o mesmo Rock in Rio estreou um Palco Favela, segundo os organizadores e articuladores do evento isso se deu para que fosse possível incluir a cultura das periferias brasileiras dentro do festival. Me impressiona como as duas lógicas se alimentam dentro de um mesmo território e sistema, de um lado temos a objetificação e comercialização de uma realidade. Do outro, seguimos vendo a consequência dessa conduta que é a apropriação para capitalização em cima dessa objetificação. 

 

Me chama muita atenção a concepção de uma inclusão pautada na ideia da determinação de um território, afinal, se querem incluir a cultura periférica que construam uma favela cenográfica. É interessante esse ponto de vista e perspectiva que, literalmente, materializou o que ativistas da questão racial, antropólogos, sociólogos e historiadores a anos debatem: o essencialismo racial e estereótipos que querem definir o lugar do sujeito negro na sociedade. Ao pensar em incluir artistas periféricos, que tendem muitas vezes a ser negros dada a situação territorial e econômica dos negros no Brasil,  na concepção de sujeitos brancos era preciso construir um outro palco e determinar o espaço deles. Deixando dessa forma ainda mais enfático que existem espaços diferentes para cada sujeito conforme sua identidade e cultura. Ao invés de incluí-los em qualquer outro palco já existente no evento, principalmente o que leva o nome de MUNDO. 

 

Parece banal, só que essa história serve de exemplo sobre como negros são tratados neste país. Toda e qualquer forma de processo de inclusão que dizem fazer, ou cultural que dizem querer ressaltar; se tratando de negros, sempre é pautada no reforço de estereótipos e essencialismos que não nos dizem respeito a como queremos ser vistos e sim como os outros nos enxergam. Muitos podem fazer uma análise que a existência do Palco Favela valorizou a identidade periférica, até pela contratação de profissionais negros na concepção do espaço, e no próprio line up dos artistas. Contudo, porque então ritmos que advieram da cultura negra e de artistas negros não foram também introduzidos de forma nichada em nome da valorização? O pop, o rock, axé e tantas manifestações culturais são tidos como universais e seus representantes são sempre vistos como os brancos. Mesmo que negros tenham tido contribuição histórica na concepção desses ritmos.

 

É incrível então que em 2019, em que termos como “Lugar de Fala” ganham força e visibilidade nas redes sociais e debates políticos, sujeitos brancos ainda estejam universalizando sua realidade e território, e sinalizem segregações de realidades divergentes identificadas por classe e raça. Uso o exemplo do Rock in Rio, entretanto ao longo de inúmeras manifestações recentes venho vendo como essa conduta está introjetada também no psicológico de pessoas negras. Não foi nem uma, nem duas vezes que que vi pessoas negras determinando que outros negros não tinham um comportamento e performance que condizesse com o que é “ser negro”. Contudo, o que determina práticas negras? Mesmo diante de famílias com membros negros, temos diversas experiências e influências. Então como alguns podem dizer coisas como: 

 

  • Você não se veste como negro? 
  • Você não fala como negro.
  • Nossa, seu gosto não é de pessoa negra!

 

Quando eu estava na faculdade muita gente me convidava para fazer urbanização de favela, trabalhar em favelas, pensar projetos para favelas, resumidamente o que dizia respeito a favelas já tendiam a associar a mim. E minha resposta era sempre a mesma: não. Não é porque eu sou uma arquiteta mulher e negra critica a estrutura racista, que eu automáticamente só possuo esse interesse em relação ao meu fazer. Quase ninguém associa pessoas brancas da mesma forma que estavam me associando. E se eu quisesse desenhar poltronas? E se eu quisesse apenas fazer reformas em apartamentos? Politicamente falando, poderiam achar incoerente com meus discurso ativista. Mas se considerássemos só minha formação e minha identidade racial, não faria nenhum sentido determinadas cobranças.

 

Sinto que negros ainda são os únicos responsabilizados por mudar um sistema estrutural que não foi inventado por nós. E o resto da sociedade está fazendo o quê? Eu não querer fazer urbanização de favela, foi uma briga comigo e com vários ao meu redor, pois não é fácil sair do lugar construído para você, nunca é. Assim como já foi questionado historicamente o que determina a negritude de alguém fisicamente, é cada vez mais urgente uma reflexão sobre o que traça um comportamento como sendo coerente a ancestralidade e origem de alguém. Não vestir determinadas roupas, não ter determinados tipos de cabelo, ou até mesmo não ter interesse por determinados ritmos musicais, fazer profissional, produções midiáticas, não torna uma pessoa branca, ou apaga outras referenciais sociais e culturais que ela pode ter. Esse é o problema de modular uma essência negra ressignificando construções e determinações racistas. O que nos traz de volta para o palco favela do Rock in Rio, as favelas em si não nascem de uma escolha genuína de pessoas querendo viver em determinados espaços e sim de uma imposição da negação da existência e dos direitos dessas pessoas. Por isso, uma coisa é uma pessoa que mora numa favela ter orgulho da sua identidade, outra é a apropriação comercial quando é conveniente da realidade e orgulho  de favelados.

 

Lembro de uma fala na Vice do artista Maxwell Alexandre , um jovem artista brasileiro, em que ele debate como é mais fácil para alguns se relacionar com a representação estática do que com a realidade:

 

Eu posso pintar todos os dias sobre a favela e a vivência daqui, mas no dia da vernissage e do coquetel a audiência vai ser branca. Isso é perturbador, você olha pro lado e os negros que têm estão inviabilizados, faxinando e servindo, enquanto geral tá sorrindo e te parabenizando pelo quadro onde o negro está representado bidimensionalmente, chapado. Ali a figura não fala, não reivindica, não problematiza, ela vira um pedaço de uma realidade retratada apenas. Ter um quadro na sala é mais fácil, e parece ser o suficiente para não precisar conviver com a realidade.

Maxwell Alexandre.

 

Penso a partir dessa fala como ela explica o que leva muitos jovens brancos se interessarem por esse palco, ele se tornou uma forma de interagir sem de fato interagir com uma realidade. Ao mesmo tempo, que não deixa de reforçar essa mesma realidade ao determinar que existe: nós e os OUTROS. Acho realmente importante narrativas de “nicho” que nascem dos próprios negros e/ou socialmente marginalizados, tipo uma revista Essence. Contudo, em pleno século XXI e na ampliação da difusão de conhecimento ser ainda tratado como o OUTRO do OUTRO é retrógrado e racista. Por isso uma coisa é o nosso orgulho e nossos espaços e outra é um produtor e dono de um festival criar um palco favela para, aí sim, incluir negros no “seu universo”. 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.