Está tudo bem em não ser mãe (e em nunca querer ser).

O dia das mães passou, e esse mês é marcado por uma série de mães que questionam maternidade e a estrutura social imposta para elas a partir de suas vivências. Algumas acreditam que amam seus filhos, só que a maternidade em si é opressora, logo não amam ser mãe. Outras defendem que a maternidade em si é um grande feito e define sua trajetória. Do ponto de vista político, toda discussão é rica para avançarmos na compreensão dos nossos lugares e ações. Por isso elas somam para mulheres mães, mas também para nós que não somos mães entendermos nossas responsabilidades com essas mulheres, com suas crianças e com nós mesmas, incluindo se queremos a “escolha” da maternidade ou não para nossas vidas.

 

Coloco “escolha” entre aspas pois é fato que para nós enquanto o aborto não for seguro, legal e garantido pelo Estado, nós mulheres ainda corremos o risco de sermos obrigadas a dar continuidade a uma gravidez não desejada, caso não tenhamos o dinheiro para arcar com isso, como mulheres ricas fazem. Sendo assim, “escolher” é um obstáculo no que diz respeito a direitos reprodutivos de mulheres. Porém, esse texto não é sobre isso. Comecei esse texto pensando se deveria falar sobre esse assunto, pois para mim é importante falar de um debate que me chama atenção e até mesmo me incomoda, que é do tal “mãe de pet”.

 

Eu tenho um cachorro, cuido e amo muito ele, mas olha, eu particularmente não acredito que isso é simétrico a ter um filho, ou que mulheres que cuidam de cachorros e outros animais, assim como eu, deveriam brigar por esse título, tampouco insinuar que vão comemorar o dia das mães. Não é sobre chamar seu cachorro do que você quiser, é sobre não apagar vivências que você não possui com falsas simetrias.

 

O problema para mim, é que em algum momento eu percebi que minha questão era ainda maior do que isso, o meu maior incômodo com a história do “mãe de pet” e agora “mãe de planta”, é que essas narrativas são sobre delegar a mulheres a maternidade, mesmo que elas não sejam mães, como se houvesse algum problema em não ser.

 

Veja, eu não tenho problema nenhum em não ser mãe, inclusive não acredito que esse seja um dos meus maiores desejos, faz algum tempo que venho lendo textos sobre a não vivência da maternidade para nós mulheres, e o quanto essa escolha carrega um peso nessa sociedade, que acredita que é uma função social feminina procriar. Ao mesmo tempo que essa sociedade, não cria nenhum tempo de auxílio para que a maternidade não seja vivenciada de forma traumática, afinal, as notícias indicam que quase metade das mulheres que engravidam são demitidas depois da licença-maternidade. Então, diante de tantos relatos e de uma estrutura não favorável associada a um modelo econômico desumano, não me soa estranho algumas mulheres não querendo ser mãe, inclusive por questões subjetivas e pessoais que vão além das questões sistêmicas.

 

O problema é que parece que existem pessoas, que se incomodam E MUITO, quando mulheres não querem, não são, e talvez nunca serão mães. Pessoas que não percebem isso em suas falas e condutas, e que quando enxergam um casal feliz, ou uma mulher depois de certa idade, já começam a questionar quando a criança virá, e quando isso não é sinalizado, já olham para qualquer coisa que amamos e definem: ahh mas é que seu cachorro é como um filho né. Digo isso, pois assim que disse que queria um espaço maior para morar com meu parceiro, muitas pessoas já me perguntaram se estávamos planejando um filho, ou que eu já estava grávida. Quando na verdade só queríamos e necessitavamos urgentemente de um quarto de estudos.

 

As pessoas não aceitam que um casal que entendem como feliz, uma mulher depois de uma certa idade, possam ser plenos sem filhos, e de fato esse impacto recai totalmente para nós mulheres. Tanto, que essas pessoas precisam de alguma forma tentar entender porque não estamos “cuidando” de nada, e começam a nos intitular como “mães” de qualquer coisa que demonstramos zelo e afeto. Eu já fui chamada de mãe do meu cachorro mesmo sem nunca querer me intitular assim.

 

Fica evidente que enquanto sociedade confundimos “cuidar” com ser mãe, contudo também, como temos sérios problemas com a maternidade não sendo o foco de tantas mulheres jogamos para elas a todo momento nossa frustração em relação a essa escolha.

 

Veja, em nenhum momento estou aqui defendendo ódio contra crianças e mães, a minha questão é que se faz necessário NATURALIZAR que a maternidade não será a escolha de todas as mulheres e que essa série de imposições mostra o quão não estão acostumados com a possibilidade de não sermos mães, simplesmente porque não queremos.

Existe um número que vem crescendo no Brasil, que são das mães depois dos 30 anos. Mas os das que também não querem ser mães, vem se ampliando, segundo as estatísticas da última pesquisa do IBGE, em 2010, 14% das mulheres brasileiras não têm planos de engravidar.

 

Na pesquisa anterior, a porcentagem era de 10%. Esses números já demonstram que o sonho da família “margarina” com mamãe, papai e filhinhos, já não é o imaginário e desejo de algumas mulheres brasileiras, e vai crescer, e TUDO BEM!

 

Por favor, coloquem na cabeça de vocês que tudo bem a gente não querer, não ser e nunca viver a maternidade, não joguem nos nossos “colos” plantas, animais, e qualquer outra coisa, numa tentativa de dar “sentido” para as nossas vidas, sem que a gente tenha pedido ou veja problema nas nossas escolhas. Respeitem a forma como mulheres vivem a maternidade, e respeitem quando algumas mulheres NÃO querem viver a maternidade. Nossas vidas, possibilidades e escolhas são amplas, quando nossos direitos foram garantidos serão ainda maiores, precisamos e estamos lutando por eles até mesmo nas escolhas pessoais que só dizem respeito a nós.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.