Homens e sua inveja contra mulheres.

Infelizmente as mulheres do Brasil não estão mais na Copa Feminina de futebol, mas felizmente conseguimos ver seu desempenho e potencial jogando um futebol honesto, potente e admirável que pela primeira vez foi televisionado em rede nacional atingindo uma audiência significativa o que demonstra o interesse do público em ver mulheres jogando. Foi linda a empolgação de mulheres ao ver outras jogando. E ao mesmo tempo foi sintomático as críticas violentas vindas de alguns homens que estavam odiando ver mulheres sendo reconhecidas:

 

                       

 

Parece que é nítido que homens odeiam e até podemos dizer que INVEJAM o desempenho de mulheres, quando essas de alguma forma se mostram superiores em algo que eles acreditam dominar. É o que vemos no caso do futebol: alguns homens que dizem amar o esporte mais que tudo, odeiam tanto mulheres que preferem torcer contra uma seleção simplesmente por ser feminina. De um jeito assustador esse comportamento violento de “torcer contra” também reflete no nosso cotidiano, mesmo não sendo famosas, grandes jogadoras ou destaques mundiais, somos mulheres e temos que lidar com homens que a todo momento desmerecem nossos feitos para se sentirem poderosos, másculos e donos da situação. É intrigante que isso diz muito sobre a insegurança desses homens que usam a violência para se sentirem legítimos e no controle de situações.

 

                     

 

A inveja é sobre posse, o desejo de possuir um bem que é do outro. No caso quando homens enxergam mulheres sendo destaques nas suas atuações, ganhando mais que eles, jogando melhor que eles ou sendo elogiadas mais que eles etc, homens se sentem duplamente traídos, pois ao sentir que são nossos donos, eles também sentem que é deles a posse sobre nossos talentos, escolhas e feitos. E quando isso sai do seu controle, sua atuação é muito corriqueira: nos desmerecer e diminuir, numa constante violência psicológica. O engraçado é que uma série de textos e argumentos dizem que mulheres invejam homens, o que não se comprova é porque se somos tão invejosas são eles que usam de toda a violência possível para desmerecer nossos atos relevantes, historicamente se apropriando ou impedindo nossos talentos. Até mesmo em casamentos e relacionamentos estáveis, vemos homens menosprezando os feitos de suas parceiras, mesmo sabendo o quão consideráveis eles são. Alguns diante disso, chegam a querer dar seu nome para o que nós criamos, enquanto em palavras e até força física, continuam nos fazendo acreditar que somos ruins, fraudes ou dependentes deles. Sendo assim, é só um comentário sobre o jogo ou uma comprovação que a masculinidade nociva reproduzida sem nenhum questionamento também é fruto da baixa autoestima e inveja de homens diante de nós? Marta é a maior jogadora do mundo há anos, é um destaque na sua área e também pela suas atuações em prol do empoderamento de gênero.

 

Marta nunca desmereceu ou ofendeu jogadores homens, ou homens de forma geral. Contudo sua presença e seus feitos são constantemente deslegitimados por homens medíocres, anônimos que se escondem por trás de seus perfis em redes sociais para destilar a mais pura misoginia.

 

O que Marta fez contra eles? Além de ser uma mulher, Marta é uma mulher que não se sujeitou ao lugar de gênero que lhe foi designado desafiando essas regras culturais e sociais ao se aventurar num esporte que era proibido para mulheres até 1979. Marta é uma mulher que como muitas de nós, feministas ou não, não se  sujeita a determinados comportamentos que esperam de mulheres. Portanto, Marta representa um risco para muitos homens que enxergam nela e no nosso apoio a ela, a insubordinação de nossas ações. Nós não queremos pedir desculpas para existir, e para alguns homens isso é uma perda muito simbólica. Se sentem fora do controle, e se não controlam, para quem eles servem?

 

Na atual lógica de masculinidade patriarcal instituída sobre poder e posse, somos alvos fáceis de comportamentos nocivos totalmente naturalizados de homens que sequer conhecemos, por mera demonstração de poder de gênero deles diante de nós. Só que se o comportamento de mulheres ao jogar futebol está em destaque, mostrando que existe uma ressonância das discussões feministas, sabemos que o modelo de masculinidade atual está cada vez mais decadente. As mulheres mesmo quando não se dizem feministas já não admitem alguns comportamentos patriarcais, machistas e abusivos, o debate de gênero se popularizou e já faz parte do cotidiano e, muitos homens diante disso, se veem perdidos, ao invés de repensar modelos, insistem em nos odiar e querer nos desmerecer, aumentando ainda mais a sua violência buscando sem dúvidas a retomada do poder de forma grotesca. As nossas eleições de 2018 para presidência mostraram muito isso. Diante da perda simbólica de poder, homens se apegam aos comportamentos mais medíocres e violentos possíveis.

 

     

 

Raiva, frustração, falta de consciência sobre como agir e um grande sentimento de inveja ao nos ver diante das adversidades mostrando um empenho e atuação surpreendente fere a masculinidade cada vez mais desgastada do homem contemporâneo. O homem na atualidade se sente perdido num contexto que sua masculinidade é criticada e não exaltada.

 

Então muitos homens ao perceberem nossas fraquezas, atuam em cima delas para esconder suas próprias.

 

Seja Whitney, seja Amy, seja Lady Di, homens destruíram historicamente mulheres que se sobressaíram a eles. Então quando vejo homens atuando nas piores ofensas e desvalorizando mulheres da seleção feminina, penso que eles atuam em cima das suas frustrações jogando elas para todas nós como sendo problema nosso e não deles. Se a história mostra que grandes mulheres tiveram suas fraquezas percebidas e usadas por homens próximos para destruí-las, também mostra que homens de forma geral ao se verem diante de problemas recorrem a nós como se fossemos suas mães, cuidadoras oficias, as obrigadas em zelar por eles e pela manutenção do seu status quo.

 

Tudo isso parece estar desmoronando num contexto em que mulheres apenas estão atuando em prol de si, buscando em si a força e querendo que outras enxerguem isso. Marta não assusta só pelas suas jogadas, concentração e atuação, mas também pelos seus discursos que mesmo na derrota buscam sempre enfatizar que mulheres devem, podem e precisam continuar atuando e fazendo as escolhas que disseram não ser para nós. Homens vão continuar odiando aquilo que querem possuir e não podem, nunca poderão. E nós, nós mulheres precisamos continuar sabendo que no ódio, inveja e violência de muitos homens, mora um desejo enorme em querer nos controlar, nos usurpar e nos impedir de construir nossos próprios caminhos. 

 

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.