Ignorar o BBB não vai salvar pessoas

“A Globo ainda passa esse programa horrível?”, “As pessoas não têm mesmo o que fazer e ficam assistindo esse reality show”, “Ainda bem que não me presto a assistir BBB”. Estes são os tipos de comentário que voltam a rodar pelos quatro cantos da internet toda vez que a Rede Globo anuncia outra temporada de Big Brother Brasil, o reality show que confina pessoas de diferentes partes do Brasil sem nunca terem se visto antes.

 

Neste ano, não tem sido diferente. Assim como também não mudou o péssimo critério de seleção de participantes por parte da emissora. Dessa vez, mesmo antes do começo do programa –  nesta terça, 15 – o público já detectou racismo e violência de gênero por parte de dois dos participantes – mas, ainda assim, o que mais se fala é sobre o fato de que o programa deveria acabar.

 

Já na décima nona edição, o público já está mais do que acostumado e o BBB continuará sendo uma grande aposta da Globo. Como bem previu George Orwell. Sim, o reality traz muitas semelhanças ao livro distópico e clássico “1984” e isso provoca muitas pessoas a declararem que odeiam o BBB – mesmo quando ninguém tenha perguntado.

 

Mas o mesmo programa também pode ser diferente ao livro de Orwell em outros aspectos e, no fim das contas, é um entretenimento que as pessoas têm todo o direito de assistir. Como a UOL comprovou em 2016, não gostar do BBB não faz ninguém melhor do que ninguém, por mais intelectuais que sejam os motivos.

 

O real motivo para o BBB acabar deveria ser esta falta de cuidado com personagens escolhidos. Se a internet conseguiu achar os tweets racistas e machistas do participante Alan Possami antes que ele apagasse, a Globo também conseguiria, se este tipo de pesquisa fizesse parte do processo seletivo.

 

Antecendentes criminais até poderiam fazer parte do critério, mas, quando se trata de violência contra a mulher, muitas vezes faltam denúncia. Então é muito capaz da Globo liberar a entrada de Vanderson Brito. Isso mesmo depois do Brasil inteiro ter presenciado as agressões sofridas por Emily, por parte do namorado de confinamento, Marcos, na edição de 2017, algo que poderia ter sido considerado uma novidade para a produção do programa se não tivesse acontecido até mesmo estupro na edição de 2012.

 

Se a Globo se dispõem a conhecer as personalidades e histórias dos participantes durante o processo, uma pesquisa um pouco mais afundo evitaria muitas dessas questões.

 

Mas é bem difícil cobrar a emissora a não ser quanto o crime acontece dentro da casa. E é nesse caso que comentários como “odeio BBB” não ajudam. Nem um pouco.

 

Algumas pessoas até demonstram preocupação. Quem nunca ouviu um: “não assisto esse programa, mas…”? Mas a verdade é que ninguém precisa se defender para acusar crimes e abusos que estejam sendo transmitidos em rede nacional, com provas.

 

A falta de punição de Marcos, por exemplo, o levou ao reality da TV Record “A Fazenda”, onde repetiu as mesmas atitudes. Uma falta de punição e até a vitória nesta edição para Vanderson, pode ser outro “alvará” para seguir maltratando mulheres.

 

Como eu já disse antes, estamos na décima nona edição do Big Brother Brasil e está na hora de deixarmos nosso orgulho e preocupações pessoais de lado para ficar de olho nas escolhas ruins da Globo e como isso afeta, principalmente, mulheres, negros e LGBTs que estão dentro da casa.

 

Racismo, machismo, homofobia, xenofobia e tantos outros problemas que já aconteceram dentro da casa não são coisas de vilão de reality. São crimes. E, honestamente, eu não sei como explicar que ignorar o BBB não salva as pessoas.

Karoline Gomes

Feminista negra interseccional, jornalista de formação e pós-graduanda em Cinema e Linguagem Audiovisual. É fundadora do projeto sobre endometriose e saúde da mulher, EndoMapa e co-diretora do Entreviste um Negro. Passou por veículos como MdeMulher, Finanças Femininas, Modefica, Think Olga e outros, sempre trazendo conteúdo com viés de gênero e raça.