Imponha limites pós eleições: Você não pode se martirizar pelas escolhas alheias

O período eleitoral deste ano sem dúvidas foi atípico por uma série de fatores. Acredito que o principal deles foi o choque e, ao mesmo tempo, a naturalização de discursos de ódio. Discurso de ódio é, antes de mais nada a negação do outro. A violência não mora só na incitação e na agressão física em si, mas no próprio sentido de não ver o outro como digno de existir e ser como é. E sem dúvidas, para mim esse foi o grande fator decisivo para as eleições de 2018 no Brasil.

Nesse ano, de um lado tínhamos Haddad defendendo uma agenda democrática considerando direitos humanos, sendo taxado de comunista por isso, mesmo que o PT tenha em seus anos de governo assumido uma agenda econômica liberal e que Direitos Humanos não sejam partidários, tampouco uma ideologia política.

Do outro lado, disputando com o professor Haddad tínhamos Bolsonaro, um congressista de carreira que fazia – e ainda faz-, uso de discursos sensacionalistas mesclados com discursos violentos contra minorias, camuflados de opinião pessoal. E, pós-eleições, estamos todos tentando entender o que fazer com essa situação, a concretização da eleição de Bolsonaro também significou para muitos de nós ter que lidar com verdades que não queríamos.

De um lado, nós, sensíveis às pautas de direitos humanos, queremos achar a todo custo que as pessoas não sabiam o que estavam fazendo. Enquanto isso, as pessoas que votaram em Bolsonaro, dada a compreensão sobre o peso de tudo que já foi dito e feito por ele, tentam a todo custo camuflar essa realidade dizendo que são edições de vídeo, exageros ou até mesmo brincadeiras.

No fundo, também estão tentando amenizar sua própria escolha. Para mim, como essas pessoas vão lidar com isso e suas consequências, não me importa na atualidade.

 

O que me importa é como nós, as ditas “minorias”, que nos sentimos atacados, estamos nos sentindo ao ver a negação da nossa dignidade ser o discurso comprado mesmo pelos que nos chamam de família.

 

Acho que foi pessoalmente muito importante psicologicamente entender que quem vota em Bolsonaro tem capacidade de compreensão sobre seus discursos opressores, tanto que uma das suas principais apoiadoras, a atriz Regina Duarte, poucos dias antes das votações para segundo turno, declarou para o Estadão:

“(…) quando conheci o Bolsonaro pessoalmente, encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha.”

Basicamente, Regina Duarte enfatiza que Bolsonaro é aquilo que nós dizemos que ele é, mas para ela, que não é atingida diretamente pelos seus discursos, ou simplesmente por não se importar com quem está se sentindo agredido, esses discursos violentos são apenas uma característica dele ao ser “brincalhão”.

Afinal, na cabeça dela e de muitos que votam nele, qual o problema de dizer que o lugar do negro é na cozinha, em meio aos risos, se no fundo você realmente sente que é isso?

 

 

Veja o que o PT, com suas políticas liberais, nos últimos anos promoveu cotas e programas de financiamento que colocaram nas universidades negrinhas afrontosas sem limites metidas e chatas como eu, que todos os dias escutam diariamente o quanto não são bem-vindas das mais diversas formas possíveis por aqueles que por brincarem constantemente de casinha de boneca colonial, não estão acostumados a ver mulheres negras fora de suas cozinhas e quartinhos de serviço.

Logo, veja bem, até mesmo aqueles que ocupam os quartinhos acreditam que esso é o jeito correto das coisas, assim que funciona né? Escutei diversas vezes, menos no meu âmbito familiar, o quão arrogante eu era por querer estar na universidade. Afinal, aquele não era lugar para gente como eu, segundo palavras do meu próprio pai, eu precisava estar trabalhando e não estudando.

Existe um conforto na manutenção da ordem das coisas, mesmo quando essa ordem te fere, por isso, nós somos exceção e não regra, ao questionar a estrutura. Nos chamam de “ativistas” simplesmente pela dúvida que plantamos, numa sociedade que nos dá como solução a nossa opressão, mas nem todo mundo enxerga isso.

No caso, acredito que no Brasil muitos optaram sim pelo ódio e medo, não medo do comunismo, mas medo daquilo que eles entendem como sendo comunismo: direitos humanos atingindo minorias. Mesmo os que são minorias, não necessariamente não podem ser vistos como opressores.

As pessoas têm medo de nós, mesmo quando alguns têm medo delas. Medo que se torna raiva, ódio e violência.

 

Medo da nossa sexualidade, medo da nossa identidade de gênero, medo do nosso feminismo, medo da nossa identidade racial, medo do orgulho que temos das nossas diferenças enquanto buscamos igualdade.

 

A mensagem pró Bolsonaro no Whatsapp que mobilizaram, seja por medo, seja por ódio, nas entrelinhas visavam banir aquilo que consideram errado, feio, incômodo, que não estejam perto delas. Só que isso somos NÓS.

Nós, que de alguma forma estamos do outro lado dessa história, sofrendo.

Não sofrendo apenas violência física, também sofrendo psicologicamente tentando arrumar argumentos para lidar com a nossa frustração diante do ódio do outro. O que precisamos para saber que as verdades dos outros, não precisam ser as nossas? Sequer precisam ser “consertadas” por nós?

 

 

As verdades estão expostas. Verdades não são bonitas. Somos humanos, erramos, sentimos, queremos. O problema é que a verdade do outro, quando tenta nos anular, não precisa ser consertada por nós. Se quiser tentar, tente, porém, não se sinta obrigado. Nós estamos querendo sobrepor nossos limites, para tentar solucionar problemas que não são de frustrações partidárias, são problemas de frustrações que perpassam masculinidades, identidades raciais, gênero, sexualidade.

Se estamos com medo de 2022, que nosso medo se transforme em ação. Nos EUA, após a eleição de Trump, os tidos “identitários” começaram a assumir espaços de destaque defendendo a social democracia dentro da oposição. Nosso trabalho de base, estranhamente vem sendo feito e chamado de lacração de forma pejorativa por alguns setores da esquerda mas, veja bem, os quadros eleitos mais potentes no congresso da esquerda brasileira, são fruto disso.

Então, coloque seus limites e reveja seus focos, nós temos um caminho longo pela frente.  

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.