Jericoacoara

Encontrei com a Marina quando cheguei em casa e ela estava triste, triste. Perguntei o que estava acontecendo e ela me disse que seu filho Leozinho, dezenove anos, estudante de psicologia em Fortaleza, resolveu parar tudo. Largou emprego, faculdade, casa, disse que ia para Jericoacoara morar numa comunidade. “Por que, meu filho?”, ela perguntou. “Para tentar me encontrar, mãe”, respondeu. “O que você vai fazer lá, meu filho?”. “Vou surfar, mãe”. Só isso: surfar e pensar na vida.

A mulher me olhava com lágrimas nos olhos. Não havia motivos para tanto desespero, gente. Eu tentei consolá-la com um consolo burocrático de quem acabara de chegar de viagem cansada e precisava de um banho. Ao abrir a ducha quentinha, que me recompunha do cortante frio sul-mineiro, pensei: quero ser como o Leozinho. Cheguei à conclusão de que deveria ser uma regra universal – quando a gente faz 19 anos, vai para Jericoacara tentar se encontrar. Não o exército, não a aula de inglês, não o vestibular, o negócio é ir para Jeri.

Porque a gente teria tempo de pensar na vida, o que fazer e o que não fazer dela. Alguns, claro, acabariam ficando por lá, se ali se encontrassem. Talvez a gente não engolisse tudo tão rápido e tão silenciosamente. A gente não aceitaria certos trabalhos, nem determinados chefes. A gente não ia tolerar respirar um ar tão poluído nem olhar para cara dos que nos deu um pé na bunda tendo que sorrir amarelo quando ele estivesse desfilando a nova sirigaita. A gente não precisaria aguentar nossos pais fazendo propaganda enganosa da gente para os amigos, ao dizer que nosso trabalho é chique, que ganhamos vale-refeição e que desde pequena tínhamos dom para fazer o que fazemos hoje.

Passar o décimo nono ano da sua vida em Jericoacoara tentando se encontrar poderia resolver muitas paranoias e acabar de vez com algumas dúvidas. Porque dez anos depois você começa a pensar no porquê de você não ter ido para Jericoacoara. Fica esse maldito ponto de interrogação no ar: será que eu quero casar, será que eu vou ter filho, será que eu troco de emprego, será que eu compro um carro (vou contribuir para o aquecimento global?), será que eu mando “para aquele lugar” o zelador do meu prédio, será que eu encho a cara hoje e aguento a ressaca amanhã, será que escrevo um livro, será que faço aquela pós, será que eu falo para ele que eu o amo, será que eu vou à festinha do João, será que eu passo minhas férias em… Jericoacoara? É isso!!

Saí do banho e a Marina ainda estava em casa. Pedi o telefone do Leozinho em Fortaleza. Vou passar minhas férias em Jericoacoara. Sei que vou ter chegado atrasada para pensar na vida, mas quem sabe daqui a dez anos, aos trinta e nove, eu não tenha tantas dúvidas, eu mande o zelador à “PQP”, grito para o Brasil que eu amo aquele cara e destrua todos os meus vale-refeições?

Redação

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