Mãedrasta – O dia-a-dia de quem vive os dois lados

Eu tinha um mundo todo azul, Felipe é o nome desse meu mundo, até conhecer meu marido, o Valdo.

Esse amor veio com o combo marido + 2 filhas, até ai tudo bem, muito comum hoje homens separados que casam de novo, mas as filhas moravam com ele, nesse momento que foi adicionada a cor rosa ao meu mundo.

Conheci as meninas em junho de 2008, quando ainda namorávamos, Laura a mais velha tinha 5 anos e Helena era praticamente um neném com 3 anos. A mais velha ficou bem distante quando me conheceu, já Helena pulou no meu colo e começou a falar sem parar e não parou até hoje. Entre idas e vindas durante o namoro tudo se encaixou e em novembro do mesmo ano fomos morar juntos, os 5, eu, ele e as crianças, 5 pessoas formando uma nova família.

Imagina tirei meu filho que morava no interior do Paraná e levei pra Curitiba? O impacto foi grande demais pra ele, morava com meus pais desde bebê e de repente a vida deu um giro e tudo mudou.
Na segunda semana que estávamos morando juntos, o Valdo teve que viajar a trabalho para São Paulo, me deixando sozinha cuidando das 3 crianças. Estava apenas conhecendo as filhas dele e já tive que ficar sozinha, foram dias de muito desespero. A Helena chorava da hora que levantava até a hora de dormir, a Laura não me aceitava muito bem, me via como uma ameaça, tive vontade desistir, entrar num ônibus e voltar pro interior.

Mas não fiz, fiquei e aguentei todas as mudanças que estavam acontecendo, por sorte não desisti delas, precisavam muito de alguém que realmente cuidasse delas, precisavam de uma família completa.

Com pouco mais de um mês a caçula me perguntou se poderia me chamar de mãe, de verdade não tinha uma resposta para essa pergunta, procurei ajuda de psicóloga e ela nos disse que se era vontade da criança que tudo bem, tinha que ser natural e sem forçar, nessa mesma época Helena começou um tratamento para estabilizar os ânimos um pouco.

Pouco tempo depois a Laura não resistiu e também começou me chamar de mãe, os meses foram passando, tive que aprender a comprar coisas de meninas, lidar com meninas, realmente tive que mudar e foi uma das coisas mais difíceis que já me aconteceu, cuidar de filhos que são nossos já é uma tarefa grande imagina filho de outras pessoas.

Continuei a luta, chorava quase todos os dias, não acreditava que eu conseguiria seguir com esse trabalho que eu tinha pela frente, quando as coisas ficavam complicadas demais minha mãe deixava meu pai e ia me ajudar e também sempre tive o apoio do Valdo, porque se eu tinha as obrigações de mãe com elas eu também tinha os direitos.  As coisas estavam difíceis demais em casa, eu já não tinha mais controle das crianças, Felipe muito revoltado, porque perdeu os avós que ficaram no interior e ainda tinha que dividir minha atenção com mais 3 pessoas, eu tinha 3 crianças disputando minha atenção, não tinha tempo pra mim ,estava sempre exausta.

Passaram mais meses e comecei ver uma luz no fim do túnel, a Laura não me via mais como ameaça, começou a confiar em mim,mas tinha ainda a Helena, sempre foi mais complicado lidar com ela,mais agitada, manhosa, brigava demais com o Felipe, ainda assim continuei insistindo nela, que ela iria melhorar e eu não estava errada.

Dia após dia eu batia na mesma tecla com ela e foi indo até que consegui. Pararam as birras, as brigas, tanta necessidade de atenção.
Faz 4 anos que estou com elas e nesse tempo o Valdo viajou bastante, sempre confiando na minha capacidade de cuidar delas e que eu iria tratar elas como filhas de sangue.  A Laura já está com 9 anos, as vezes paro e olho pra ela e lembro daquele cabelinho de tigelinha e não acredito em todo trabalho que tive pra ela ser o que é hoje e a Helena, que era um neném de fraldas se transformou nessa criança, ainda tenho muito trabalho pela frente, mas já não me desespero mais, sei que consigo fazer esse trabalho e sei também que elas precisam de mim, assim como eu preciso delas.

No ano passado mudamos para Buenos Aires, oficializamos nossa união de 5 pessoas e ainda adotamos um cachorro. Faz 2 semanas que o Valdo chegou de uma viagem de 40 dias, passei todos esses dias sendo pai e mãe, foi fácil? Não, mas foi melhor do que eu esperava, nos ajudamos, ficamos tristes e com saudades juntos, mas conseguimos.
O Valdo diz que ele é um coadjuvante nessa casa, pois as filhas deles sempre me procuram pra tudo.
A primeira coisa que você tem que saber quando se relaciona com alguém com filhos é que filho é pra sempre, não é ameaça e que são amores bem diferentes. Por isso respeite a criança, mostre para ela que você é amiga porque não deve ser fácil ver o pai com uma mulher que não seja a mãe, independente se elas moram com o pai ou só visitam no final de semana, foi assim que aprendi a conviver em paz com as meninas. Pra mim hoje é muito difícil ficar sem elas em casa, são minhas filhas do coração, a convivência aqui não é 100% de tranquilidade, mas o trabalho grande é porque são 3 crianças em casa e não porque elas são enteadas.
Minha família inteira adotou as duas, férias de verdade pra elas tem que ser na casa da minha mãe, são muito bem recebidas por todos, acredito que nem lembram que na verdade não somos do mesmo sangue, mas o amor e a convivência faz estas coisas, impossível não amar, afinal elas são um pedacinho da pessoa que eu amo.

 

Redação

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