Mais que minha pele: negros têm muito a dizer além de racismo

No mês da Consciência Negra aumentam o número de debates acerca do racismo e pessoas negras de áreas distintas costumam receber convites para falar sobre o tema por meio de entrevistas, palestras e debates.

Com o crescimento da abordagem a respeito da diversidade faz com que as pessoas negras conquistem maior participação nesses espaços de fala, que costumam ter entre suas principais abordagens a questão do racismo e as dificuldades que as pessoas negras enfrentam diante da sociedade e no mercado de trabalho.

Embora essa discussão seja claramente importante, devemos considerar que o racismo não é uma questão que deve ser discutido apenas por pessoas negras, mas devemos trazer os brancos para essa discussão também para entender os comportamentos que ofendem o outro e racionalizar sobre como criar um ambiente e sociedade baseado no respeito independentemente da cor da pele.

“Devemos enxergar além do racismo e não só com as pessoas negras, todo mundo faz parte desse problema. É necessário trazer as pessoas brancas para falar sobre privilégios, para falar como a existência delas pode afetar outra pessoa.” Diz Joyce Prestes, co-fundadora da Monde Social, publicitária e pesquisadora sobre gênero e raça na comunicação.

É necessário quebrar estereótipos mas Joana Mendes, publicitária que ano passado criou com uma amiga um projeto para desenvolver um banco de imagens inspirador apenas com mulheres negras, acredita que ainda há um grande dificuldade nisso por conta do preconceito enraizado na sociedade: “É difícil fazer com que as pessoas compreendam que negros podem falar sobre outros assuntos. Acham que a nossa existência é só sobre racismo. Costumamos estudar pra falar em um evento composto por pessoas brancas, porque elas normalmente não acreditam que negros tenham capacidade intelectual pra falar sobre outros assuntos. As pessoas acham que não somos inteligentes, que não somos capazes”.

 

Joana Mendes é publicitária com passagens pelas maiores agências do país, onde na maioria das vezes se via como única negra na criação.

 

Joyce complementa ainda dizendo que parece que as pessoas se lembram dos negros apenas no mês da consciência negra, mas que há negros e negras incríveis ocupando espaços nas mais diversas áreas que podem falar sobre outros assuntos de sua expertise. “As pessoas devem enxergar o ser negro como sujeito também. Porque sempre enxergamos negros sobre um puxadinho do que é ser branco, porque branco é o normal e o negro foge do padrão. No mês de novembro as pessoas são lembradas pra falar de racismo porque tudo que nos envolve é colocado dentro dessa caixinha do racismo, mas não existimos só pra isso. Temos advogadas, jornalistas, publicitárias e vários outros setores com negros fazendo coisas relevantes e inovadoras”. 

Ocupar espaços no mercado de trabalho e ter lugar de fala é algo importante que deve ser reforçado durante todo o ano para que tenhamos cada vez mais negros ocupando esses espaços e direcionando entrevistas, palestras e qualquer outro evento cujo assunto não seja voltado apenas para a questão do preconceito.

Para Joyce, é preciso criar políticas dentro das empresas para que as pessoas negras tenham mais acesso a espaços de liderança e que isso não tem nenhuma relação com meritocracia. “Não é apenas uma questão de esforço ou mérito, mas algo que devemos nos perguntar é: qual foi o ambiente de oportunidade que fez determinada pessoa chegar a um determinado espaço e que outras pessoas não conseguem?

Qualquer empresa, na hora de contratar, precisa pensar na diversidade e ter no processo seletivo 50% de pessoas negras, bem como mulheres. Eu, por exemplo, trabalhei em diversas agências de publicidade e, ou eu era a única negra, ou estava entre 3 pessoas negras na agência toda. No processo de seleção não tem pessoas negras porque não chamam essas pessoas, assim como em determinadas áreas não têm mulheres trabalhando”.

 

Joyce Prestes passou por grandes agências de publicidade e consultorias especializadas em gênero na comunicação e já realizou projetos com empresas globais como Facebook, Avon, Ford Brasil e Nestlé.

 

Joana Mendes complementa: “É um papel da empresa entender que precisam abrir espaço para pessoas negras. Não é papel das pessoas negras lutar por isso, mas das pessoas brancas também. As empresas diversas lucram mais, isso já está provado e precisamos falar sobre isso, sim, porque merecemos ocupar espaços como qualquer outra pessoa. Isso é uma correção de sociedade, por tudo que nos têm feito enfrentar de preconceito e violência por séculos.

Quando penso nisso, eu imagino em que lugar quero viver, onde quero trabalhar, como quero viver em sociedade. Normalmente vejo poucas pessoas no mesmo espaço que eu, como redatora publicitária. Normalmente não me vejo ocupando uma boa posição no mercado, porque os homens brancos geralmente são aqueles que ocupam os espaços de liderança e dificilmente darão oportunidade para uma mulher negra”.

Ocupar espaços, dar às pessoas negras lugar de fala é importante nos 365 dias do ano. É papel de toda a sociedade, especialmente das pessoas brancas, entrarem nessa luta para que todos possam ter oportunidades iguais.

Devemos quebrar estereótipos e mostrar que há pessoas negras incríveis em diferentes áreas que estão tirando seus planos do papel, realizando sonhos e inspirando outras pessoas a serem aquilo que quiserem e que essas pessoas merecem destaque por tudo que estão realizando.

Vamos dar visibilidade durante todo o Novembro Negro a essas mulheres revolucionárias que estão fazendo acontecer em suas áreas de atuação. Vamos mostrar que as pessoas negras estão ocupando espaços e sendo resistência dentro de um sistema que ainda oprime, mas que juntos, podemos mudar essa história.

 

Kelly Sá

Amante da arte, das palavras. Adora crianças, cachorros e gatos. Formada em Letras, adora trabalhar com conteúdo, fazendo das palavras o seu brinquedo preferido.