Meryl Streep declara que não é feminista

Não poderia ser de outra atriz que não Meryl Streep o papel de Emmeline Pankhurst no novo filme Suffraggete, de Sarah Gavron, que estreia agora Inglaterra e Estados Unidos, baseado em fatos reais. Emmeline foi uma pioneira na luta pelo direito das mulheres ao voto na Inglaterra do início do século passado.

O filme trata do movimento das sufragistas sob o olhar narrativo de Maud Watts, interpretada por Carey Mulligan (Longe deste insensato mundo, Educação, Drive), quando as mulheres tomaram as ruas antes da Primeira Guerra e, pondo em risco suas vidas em confrontos policiais, literalmente lutaram por seus direitos.

Em entrevista recente à Time Out, a atriz vencedora de 168 prêmios, entre eles 3 Oscars, foi questionada se seria feminista e sua resposta foi de que não, era humanista e buscava igualdade em direitos para os gêneros. Esta resposta foi alardeada aos quatro cantos da mídia ocidental como novidade. O que é preciso levar em conta, na verdade, conhecendo a carreira e vida da atriz é que não há grandes surpresas em seu discurso.

Defensora dos direitos da mulher e sempre à frente na luta contra o sexismo na indústria cinematográfica, ao se dar conta do número ínfimo de mulheres na direção e roteiro dos filmes americanos, fundou este ano o Writers Lab, um programa de desenvolvimento de roteiristas mulheres acima de 40 anos.

Não apenas isso, Meryl Streep financia e apoia tantas outras causas que a mulher deveria ganhar um Oscar da vida. Fazendo da fama um caminho de visibilidade a causas relevantes, Meryl tem um histórico de ações em diversos campos e todas podem ser vistas neste site simplystreep.com.  

Ainda na entrevista e para finalizar, responde à questão sobre se ser elegante – ou feminina, a depender da tradução – seria superestimado. Meryl afirma que, pelo contrário, é subestimado. Que graça, educação, respeito e escuta empatética são raros hoje em dia, infelizmente.

A dupla conotação da palavra ladylike se faz interessante, o que pode soar como uma feminilidade frívola – muito provavelmente o sentido pensado pela jornalista – foi brilhantemente convertida em elegância pela atriz e o termo que une os dois sentidos funciona da mesma forma. Em tempos de autopromoção e exposição gratuitas, vulgares e às vezes até beirando o absurdo em polêmicas desastrosas das celebridades e pseudocelebridades na mídia – vide a nossa própria – a elegância em sua melhor tradução parece não mais existir.

Para começar a conhecer a atriz e sua relevância no cinema e cultura, vale ver os imperdíveis: Kramer VS Kramer, A difícil arte de amar, A escolha de Sofia, Amor à primeira vista, A casa dos espíritos, As Horas, A Dama de Ferro, Julie e Júlia, Álbum de Família e Simplesmente Complicado. Essa mulher, de fato, tem um plano.

 

Tati Reuter Ferreira

Cineasta

Baiana, mora no Rio há menos de uma década. Cineasta e coordenadora de produção na tv, é crítica e eterna estudante de cinema. Varia entre Beatles e Luiz Gonzaga, escreve no blog Café: extra-forte e no Blah Cultural. Não vive sem café, rede, livros e praia.