Morrer na era do Instagram é assustador

No dia 28 de abril no último São Paulo Fashion Week, a principal semana de moda do país, o modelo Tales Cotta morreu de forma súbita enquanto desfilava. Totalmente inesperada sua morte, ela gerou comoção pela situação em si, e pelo desfile e a própria semana de moda terem continuado após o ocorrido. Enfim, inúmeras discussões sobre os limites desse universo fashion e a desumanização dos modelos foram feitas, com razão e necessidade. Contudo… um dia depois, no dia 29 de abril, a modelo e influencer Caroline Bittencourt morreu afogada enquanto passeava de barco com o marido, em meio a uma tempestade no litoral paulista, a polícia ainda investiga o caso. Mas sabe o que essas mortes possuem em comum? Nas redes sociais elas foram tratadas como virais, adquirindo um alto poder de circulação, de uma forma inclusive desrespeitosa.


Para muita gente, NADA DEMAIS NISSO. Para mim,
a forma como nos comportamos nas redes diante de tragédias diz muito sobre como a cultura sensacionalista nos condicionou muito mais a ser hienas, procurando aos “risos” a próxima tragédia para aparecer com nossa suposta “solidariedade”. Nada surpreendente para um país que viu Elóa Cristina ser sequestrada e depois morta, enquanto programas de TV disputavam para cobrir o caso e até mesmo falar com o sequestrador.

 

Quanto a vida dela valia? Nada para quem fez dela seu sucesso de audiência. É nesse contexto que fomos educados, e na atual conjuntura, só isso explica que após uma morte começamos a ir no perfil das vítimas com nossas suposições, e até mesmo com toda nossa movimentação em curtidas/comentários e em passar a seguir as vítimas. Queremos de alguma forma nos fazer presente, seja pelo choque, seja pela vontade imensa de fazer parte desse processo que acaba se tornando “popular” em tempos de redes sociais.

 

Precisamos, imediatamente, refletir sobre o tipo de comentários que temos após a morte de alguém.

 

Assim que Tales morreu, pessoas começaram a inundar as redes sociais com uma série de conclusões sobre porque isso teria acontecido. Os comentários mais comuns diziam que ele era uma pessoa que não se alimentava direito, sofria de distúrbios alimentares, já outros insinuavam que ele teria caído com o sapato e morrido, ou que ele tinha sido envenenado por um colega! Sinceramente, as pessoas perderam totalmente o bom senso, o nível das falas em redes sociais, comentários em notícias e suposições foi tamanho, que sua irmã em meio ao luto chegou a comentar isso em seu último post no instagram:

 

 

Hoje em dia, não basta mais perder alguém, as famílias precisam justificar que essa era uma “boa pessoa” ou até mesmo dar um atestado sobre sua saúde. No caso de Tales, os comentários para quem fez, podem não soar grosseiros, mais cobrar satisfações para familiares sobre notícias dessa morte, ou até mesmo especular em cima dela, é cruel e tira dessas pessoas o direito de sentir o próprio luto.

 

Mais do que isso, as pessoas se colocam num lugar muito egóico de certeza absoluta, com suposições que mais parecem laudos médicos de quem fez perícia sobre o corpo.

 

 

O que me chamou atenção, é que é claro que a gente ACHA muita coisa. A gente vive de achar coisas, mas em tempos atrás, achávamos e comentavamos na sala enquanto assistiamos Jornal Nacional com nossos avós, pais, irmãos, depois de um tempo ninguém mais lembrava, mesmo que a gente achasse coisas absurdas ou banais sobre pessoas que sequer conhecemos.

 

Nos dias de hoje com a internet, a gente acha que pode falar o que QUISER para qualquer um e sobre qualquer um, deixando algo que nunca será esquecido, pois é um REGISTRO. Não aprendemos a entender que o problema não é ACHAR, e sim jogar para o mundo sem nenhuma responsabilidade para com suas falas! Julgamos, julgamos, julgamos, até quando se trata da morte de um desconhecido.

 

 

Outro ponto que me chamou atenção tanto no caso de Tales, quanto na morte de Caroline, foi o aumento de seguidores e de audiência em suas redes sociais. Isso gerou alguns comentários na última  postagem de Tales, essa que já soma mais de 50 mil curtidas.

No caso de Caroline isso também foi comentado, é claro que as pessoas usam essas narrativas para de alguma forma lidar com a morte e se aproximar dessa que será uma realidade para todos nós, como podemos em alguns comentários em ambas as postagens, isso não necessariamente tende a ser ruim, o problema são narrativas como esta que vem em seguida (próxima imagem), as pessoas ignoram totalmente que redes sociais são lidas por familiares e pessoas diretamente impactadas, assim como ignoram que elas precisam ter bom senso para lidar com a morte alheia com respeito, até mesmo suas constatações podem soar ofensivas, ao dar entender pelo tom que isso é dito, que existe algum tipo de beleza nisso:

 

Olha, sinceramente, não sabemos usar as redes sociais. Enquanto povo temos enorme dificuldade de respeitar os limites do outros e entender até que ponto estamos invadindo suas vidas. Entretanto, quando é para denunciar agressões, opressões e maus tratos, é fato que não agimos com o mesmo tipo de conduta invasiva. Temos seriamente um problema de conduta ética e moral, alimentada por uma série de informações midiáticas que nos fazem ver tudo sobre um filtro que é plausível assistir a esses casos dramáticos, como se fossem apenas mais uma série da Netflix ou uma novela da Rede Globo. Julgamos de forma violenta, até mesmo aqueles que estão mortos, de onde sentimos que temos direito disso?

 

Engraçado que, nossos comentários das últimas fotos dos dois temos alguns comentários que são um show de horrores, muito semelhantes às suposições e achismos que damos vendo nossa novelinha no final do dia. Mas eu tenho cada vez mais certeza que as redes sociais quebraram a barreira do público e privado e, com isso, elas possibilitaram que mais e mais de nós tenhamos essas condutas com desconhecidos. E isso é assustador, morrer no anonimato virou privilégio… Só assim, para após nossa morte nossos familiares não terem que lidar com centenas de milhares de comentários que possuem certezas, enxergam romanticamente e até mesmo dão laudos médicos, sobre nós ou aqueles que acabamos de perder.

 

O luto é um processo importante, e ele precisa ser vivenciado, precisamos dar um tempo para aqueles que foram afetados. Precisamos saber qual é o nosso lugar até na tragédia e luto alheio. Precisamos mais do que nunca, não sermos criadores e replicadores de mentiras sobre aqueles que sequer podem se defender. Precisamos urgente falar de bom senso, antes mesmo de  usar a palavra empatia para justificar nosso comportamento, sem considerar o que isso realmente significa.

Stephanie Ribeiro

Stephanie Ribeiro é arquiteta e urbanista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e atua também como escritora e colunista de revistas e sites, com textos publicados no Brasil e internacionalmente. Escreve e palestra sobre feminismo, questões raciais, arte, estética, moda, urbanismo e desigualdades.