Mulher, negra e cientista: as conquistas de Fátima, Doutora em Entomologia e pesquisadora do Ministério da Saúde

Mesmo com oportunidades desiguais quando falamos de raça e gênero, conhecemos mulheres poderosas, de diversas áreas, que hackearam o sistema, lutaram para ocupar espaços e hoje são exemplo para as próximas gerações, mostrando que a mulher negra pode, sim, realizar o que quiser.

Hoje, falaremos sobre uma mulher negra, cientista, que está ocupando seus espaços. Fátima dos Santos é Doutora em Entomologia pela Universidade Central da Venezuela e Pesquisadora do Ministério da Saúde e se especializou no estudo da malária. Uma mulher que diz que suas paixões estão em Deus e suas filhas: “São duas mulheres negras, lindas, inteligentes: as minhas filhas. E, por último, meu trabalho com estudo de insetos que causam danos às populações humanas.”

Na infância, Fátima tinha muitos sonhos, mas o principal era ter uma casa.  “Queria que ela fosse bonita, grande e na frente do terreno, porque minha casa era pequena e no quintal no fundo da casa dos meus avós paternos.”

 

 

A cientista diz que era a menina mais negra das duas famílias de avós. Ela tinha a pele mais escura do que as outras pessoas da família e era também a mais inteligente e mais esperta e, por isto, muito cobrada e castigada. “Quando criança, eu pensava em muitas profissões, quis ser muitas coisas, de professora a modelo, e queria viajar o mundo. Mas tinha verdadeira paixão por insetos. Colecionava libélulas, gafanhotos, besouros, capturava e criava lagartas para vê- las transformarem-se em borboletas. Não tinha muitos brinquedos e não tenho irmãos e viver entre os insetos era minha brincadeira preferida. E essa brincadeira mais tarde, determinou minha profissão. Sou bióloga, ScD em Entomologia (Science da Ciência que estuda insetos)”.

Falamos com a Fátima também sobre ocupar espaços e ela diz que não foi fácil, o caminho que trilhou foi cheio de obstáculos. “Conquistar qualquer espaço diferente de fogão e vassouras para uma mulher negra e pobre é árduo. Sou Pesquisadora do Ministério da Saúde e, em 1984, era a única mulher que possuía nível superior numa das Coordenações do mesmo ministério em Rondônia, onde todos os cargos de liderança eram masculinos.

 

Meu primeiro coordenador era um médico branco e nordestino. Só isso já dá para imaginar o nível de racismo e discriminação, que era tão grande, que ele fazia reunião técnica e não me convidava, depois cinicamente me dizia ‘eu sabia que tinha esquecido alguém’. Minha opinião não interessava muito.

 

Fui abrindo meus espaços, demonstrando mais trabalho que os meus colegas. Passava, muito tempo no laboratório, com projetos e colaboração com grandes grupos de pesquisa em instituições nacionais, como a Fundação Oswaldo Cruz, e internacionais como as Universidades de Emory em Atlanta, a Universidade da Flórida, nos Estados Unidos e a Universidade de Wageningen, na Holanda, e isto me abriu muitas portas.

 

Quando meu chefe percebeu, eu já havia me transformado em Doutora. E a única doutora entre todos. Por esta façanha, muitos colegas deixaram de falar comigo.

 

Diante de todas essas situações, Fátima tinha dentro de si motivações que a levaram até onde está hoje, e as principais foram viver melhor e mais confortavelmente que os seus pais. “Eu também queria proporcionar uma infância e adolescência às minhas filhas que fosse melhor do que a que eu tive e poder, de alguma forma, melhorar as condições de saúde de pessoas que vivem em locais de pobreza, que convivem com doenças e são negligenciadas.”

Uma das atuações que Fátima considera importante na sua carreira, foi a época em que  trabalhou na Odebrecht, tendo feito um grandioso e reconhecido trabalho no controle da malária, durante a construção da hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia. “Mesmo assim, depois de já ter vasta experiência, meu salário era menor que o dos profissionais masculinos de diversas áreas. E pela minha cor, meu líder dizia que a primeira vez que me viu, duvidou que eu era o que eu dizia ser. Isso me marcou muito, mas não me impediu de realizar meu trabalho com excelência e ter a certeza de que eu iria ocupar os espaços que eu quisesse, porque eu tinha certeza, e ainda tenho, de que sou completamente capaz.”

Os negros têm vez e voz. Eles estão ocupando espaços. Eles querem ocupar espaços. No novembro negro, continuaremos mostrando as mulheres negras incríveis, de diferentes áreas, que estão fazendo acontecer por aí. Queremos e lutaremos cada vez mais pela igualdade racial. #NegrasOcupam

 

Kelly Sá

Amante da arte, das palavras. Adora crianças, cachorros e gatos. Formada em Letras, adora trabalhar com conteúdo, fazendo das palavras o seu brinquedo preferido.